10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.15929

AVANCES (TEMA ABIERTO)


DOM SÓCRATES E AS DIRETAS JÁ:
OS DITOS E IMPLÍCITOS NO DISCURSO DA REVISTA PLACAR

Dom Sócrates y el movimiento Diretas Já:
los sentidos declarados e implícitos en el discurso de la revista Placar

Dom Sócrates and the Diretos Já movement:
The stated and implied meanings in the Placar magazine's discourse


Ana Lucia Nishida Tsutsui 1
José Carlos Marques 2

1 Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Brasil)
0009-0002-1763-8046
analuciatsutsui@gmail.com

2 Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Brasil)
0000-0001-6175-4162
jose.marques@unesp.br


Recebido: 23 de outubro de 2026
Aprovado: 11 de fevereiro de 2026
Data de pré-publicação: 28 de maio de 2026


Para citar este artigo: Tsutsui, A. L N., & Marques, J. C. (2026). Dom Sócrates e as Diretas Já: os ditos e implícitos no discurso da revista Placar. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones", 29(2). https://doi.Org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.15929



RESUMO

Este trabalho investiga os mecanismos discursivos presentes na edição 727 da revista Placar, publicada em abril de 1984, que retrata o jogador Sócrates como dom Pedro I, em meio à campanha pelas Diretas Já. A partir da análise do discurso de linha francesa, com foco na teoria de Oswald Ducrot sobre ditos, pressupostos e subentendidos, o estudo examina como a revista constrói sentidos e posicionamentos ideológicos por meio de elementos verbais e não verbais. A metodologia consiste na identificação e categorização dos enunciados em postos, pressupostos e subentendidos, conforme proposta de Moura (1999). Os resultados revelam que a Placar utilizou a imagem pública de Sócrates para promover uma narrativa de engajamento político, estabelecendo paralelos simbólicos com dom Pedro I e com o Dia do Fico. A discussão aponta que o discurso jornalístico, longe de ser neutro, atua como instrumento de mobilização social e construção de imaginários políticos, evidenciando o papel da mídia na campanha pela redemocratização brasileira.

Palavras-chave: análise do discurso; Ditadura Militar; Diretas Já; Sócrates; revista Placar.


RESUMEN

Este trabajo investiga los mecanismos discursivos presentes en el número 727 de la revista Placar, publicado en abril de 1984, que retrata al jugador Sócrates como Don Pedro I, en plena campaña de Diretas Já. Mediante el Análisis del Discurso de estilo francés, centrándose en la teoría de enunciados, presuposiciones e implicaciones de Oswald Ducrot, el estudio examina cómo la revista construye significados y posiciones ideológicas a través de elementos verbales y no verbales. La metodología consiste en identificar y categorizar los enunciados en enunciados, presuposiciones e implicaciones, según la propuesta de Moura (1999). Los resultados revelan que Placar utilizó la imagen pública de Sócrates para promover una narrativa de compromiso político, estableciendo paralelismos simbólicos con Don Pedro I y el Dia do Fico. La discusión señala que el discurso periodístico, lejos de ser neutral, actúa como un instrumento de movilización social y construcción de imaginarios políticos, destacando el papel de los medios de comunicación en la campaña por la redemocratización brasileña.

Palabras clave: análisis del discurso; dictadura militar; Diretas Já; Sócrates; revista Placar.


ABSTRACT

This paper investigates the discursive mechanisms present in issue 727 of Placar magazine, published in April 1984, which portrayed footballer Sócrates as Dom Pedro I amid the Diretas Já campaign. Based on French Discourse Analysis, with emphasis on Oswald Ducrot's theory of explicit and implicit meaning, the study examines how the magazine constructs ideological positions through verbal and non-verbal elements. The methodology involves identifying and categorizing utterances into explicit statements, presuppositions, and implications, following Moura's (1999) framework. The results show that Placar used Sócrates' public image to promote a narrative of political engagement, drawing symbolic parallels with Dom Pedro I and the historical Dia do Fico. The discussion highlights that journalistic discourse, far from being neutral, functions as a tool for social mobilization and the construction of political imaginaries, underscoring the media's role in Brazil's democratization process.

Keywords: Discourse Analysis; Military Dictatorship; Diretas Já; Sócrates; Placar Magazine.



Na edição 727, de 27 de abril de 1984, a revista Placar, um dos principais veículos de mídia esportiva brasileira, trouxe em sua capa uma imagem do jogador Sócrates vestido com trajes monárquicos, evocando deforma explícita o imperador dom Pedro I. A referência visual, associada à manchete "Se o Brasil mudar, eu fico" rompeu com a estética habitual do jornalismo esportivo1 e construiu um gesto editorial que ativou memórias históricas, particularmente o episódio do "Dia do Fico", de 1822. Essa composição inusitada chamou atenção não apenas por seu impacto gráfico, mas também pelo modo como articulou universos aparentemente distintos: o futebol, a história política e o debate democrático em curso.

Figura 1. Capa da revista Placar, edição 727, de 27 de abril de 1984

Fonte: arquivo pessoal.


Figura 2. Retrato de D. Pedro 1,1826 Simplício de Sá

Fonte: Itaú Cultural (2025).


Sócrates vivia o auge de sua carreira como jogador de futebol. Pelo Corinthians, havia conquistado três títulos do Campeonato Paulista (1979,1982 e 1983), consolidando-se como um dos maiores ídolos da história do clube. Também fora o capitão da seleção brasileira na Copa do Mundo FIFA de 1982, na Espanha, e eleito Craque do Ano pela revista Placar em 1983. Paralelamente ao desempenho esportivo, destacava-se como uma das principais lideranças da Democracia Corinthiana, movimento pioneiro que defendia uma gestão mais participativa e democrática dos atletas e dos funcionários no clube alvinegro (Martins & Reis, 2017).

O enquadramento produzido pela Placar dialogava diretamente com o momento vivido pelo Brasil. Em 1984, ainda sob o regime militar, o país atravessava um período de intensa mobilização social pela redemocratização, marcado pela campanha "Diretas Já" e pela tramitação da emenda "Dante de Oliveira", que propunha restituir as eleições diretas para presidente. Nesse contexto, Sócrates declarou, no comício do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril daquele ano, que permaneceria no Brasil caso a emenda fosse aprovada (Cardoso, 2014). Na ocasião, o jogador havia recebido uma proposta para jogar na Florentina, na Itália. Sua posição reforçou a presença do futebol no debate político, situando-o como espaço de tomada de posição e de disputa simbólica.

Embora os estudos sobre a mobilização das Diretas Já, o engajamento político de Sócrates e a história editorial daP/ocorsejam numerosos, a maior parte dessas pesquisas apresenta abordagem predominantemente histórica, deixando em segundo plano análises discursivas que examinem os mecanismos de produção de sentido utilizados pela revista. Soma-se a isso o fato de que o jornalismo esportivo como espaço de mobilização política segue pouco investigado, configurando um tema ainda subexplorado no campo científico.

Diante dessa lacuna, este artigo busca responder à seguinte pergunta de investigação: que estratégias discursivas a Placar mobilizou para transformar a figura de Sócrates em signo político no contexto da redemocrati-zação brasileira?

Para abordar essa questão, o trabalho adota como referencial teórico-metodológico a análise do discurso de linha francesa, com especial atenção à Teoria da Argumentação na Língua de Oswald Ducrot (1977), enfocando o funcionamento dos ditos e dos implícitos discursivos presentes na enunciação da Placar. Como principais resultados, interessa-nos evidenciar que, assim como defendeu Pêcheux (1993 [1969]), o discurso não é apenas uma expressão neutra de ideias, mas também está ligado a posições políticas e ideológicas — dimensão que se faz particularmente visível quando o jornalismo esportivo intervém na esfera pública.

A contribuição central do artigo consiste em demonstrar como a imprensa operou, por meio de recursos verbais e visuais, uma articulação entre esporte e mobilização política, inserindo o futebol no debate sobre democracia e cidadania. Ao analisar a edição da Placar como acontecimento discursivo, busca-se evidenciar que o jornalismo esportivo não apenas registra eventos, mas, por vezes, também participa ativamente da produção de sentidos políticos em contextos de transformação social, como o vivido no Brasil dos anos 1980.

Futebol, política e mídia no Brasil

A relação entre futebol, política e mídia no Brasil tem sido objeto de intensa reflexão nas Ciências Sociais e na Comunicação, especialmente a partir da consolidação de uma produção académica mais sistemática sobre o tema nas décadas finais do século 20. Como observa Helal (2011), os primeiros estudos sobre o futebol brasileiro foram marcados por uma perspectiva de caráter "apocalíptico", influenciada pela crítica marxista e por concepções de alienação das massas. Nessa abordagem, o esporte era entendido como um mecanismo ideológico de dominação, articulado tanto ao Estado quanto aos meios de comunicação. O autor lembra que, nesse período, "o futebol seria um dos aparelhos ideológicos do Estado que contribuiriam para a perpetuação do regime, desestabilizando as 'contradições do capitalismo', impedindo a consciência crítica e 'docilizando' as massas" (Helal, 2011, p. 15). A mídia, nesse contexto, era interpretada como parte desse aparato simbólico capaz de moldar percepções e reforçar consensos políticos.

Com o avanço dos estudos antropológicos e sociológicos no país, entretanto, essa leitura começou a ser contestada. A obra Universo do Futebol, organizada por Roberto DaMatta (1982), representou uma inflexão importante, abrindo espaço para perspectivas que buscavam compreender o futebol "de dentro", como expressão ritual, drama social e prática cultural dotada de sentidos próprios. Helal (2011) destaca que essa virada deslocou o foco interpretativo para uma abordagem menos determinista, ao enfatizar a complexidade simbólica do esporte e sua centralidade na experiência cotidiana brasileira. Segundo o autor, esse movimento foi decisivo para superar a visão do futebol como simples "ópio do povo" e para reivindicar a construção de uma "sociologia do esporte" no país (Helal, 2011, p. 18).

Essa reivindicação por uma sociologia do esporte dialoga diretamente com os debates internacionais destacados por Marques (2011). Como observa o autor, "na segunda metade do século XX, enquanto diversos pensadores acusavam-no de ser elemento de alienação das massas, o esporte ganhava outras formas de abordagem por meio de diferentes sociólogos e pensadores" (p. 95). Nesse contexto, a leitura de Georges Magnane (1969) — para quem o esporte, "a criança difícil do século" manifestava-se de modo particularmente intenso na imprensa — reforçava a necessidade de compreender o fenómeno esportivo não como mero instrumento ideológico, mas como componente estrutural das sociedades modernas.

Marques (2011) mostra que esse movimento interpretativo ampliado acompanha a própria complexidade histórica do esporte, alvo de debates que oscilam entre visões integradas, que o entendem como fator civilizatório e mecanismo de socialização (Caillois, 2017 [1958]; DaMatta, 1982; Elias & Dunning, 1995; Huizinga, 1996 [1938]), e perspectivas mais críticas, que evidenciam a mercantilização e a espetacularização intensificadas a partir da segunda metade do século 20 (Bourdieu, 1997; Brohm, 1983; Eco, 1984; Ramos, 1984; Vinnai, 1974). Ao articular essas tensões, o autor evidencia justamente o tipo de abordagem que a sociologia do esporte reivindicada por Helal torna possível: uma análise que reconhece simultaneamente a função cultural, simbólica e política do esporte e seus vínculos com dinâmicas de poder, mídia e modernidade.

Contemporaneamente, compreender o futebol brasileiro requer reconhecer tanto sua dimensão política quanto sua inscrição profunda nas práticas culturais e midiáticas do país. As interpretações de Helal e Marques evidenciam que o futebol, longe de ser fenómeno homogéneo, constitui um espaço de disputa simbólica, em que Estado, mídia e sociedade negociam significados, paixões e projetos de nação.

Referencial teórico-metodológico: os ditos e os implícitos na perspectiva de Oswald Ducrot

Oswald Ducrot foi um dos mais influentes linguistas franceses, reconhecido por integrar semântica, pragmática e enunciação em uma abordagem estruturalista renovada. O autor é amplamente reconhecido por desenvolver, junto a Jean-Claude Anscombre, a Teoria da Argumentação na Língua, que explora como a linguagem carrega um potencial argumentativo intrínseco, posteriormente aprofundada por Marion Carel e Ducrot na Teoria dos Blocos Semânticos (TBS).

A relação entre a ANL [Argumentação na Língua] e a TBS é esclarecida por Ducrot (2006, p. 154), no artigo Lo sémontique argumentative peut-elle se réclamer de Saussure?, no qual ele diz que a concepção de semântica com que trabalha atualmente parece um prolongamento da Teoria da Argumentação na Língua, que ele elaborou com Jean Claude Anscombre. Diz tratar-se, mais precisamente, da Teoria dos Blocos Semânticos elaborada por Carel, teoria que ele vê como um aprofundamento e uma radicalização da Teoria da Argumentação na Língua, uma radicalização que lhe dá mais coerência em relação aos princípios que a constituem. Trata-se de uma teoria da argumentação essencialmente linguística, que procura descrever o sentido dos enunciados pela língua, sem apelar para estratégias extralinguísticas como o fazem os estudos clássicos da argumentação retórica. (Gomes, 2016, p. 66)

O caminho analítico proposto pela Teoria da Argumentação na Língua, assim como pela TBS, parte do enunciado (discurso) e se dirige à língua (sistema). Em essência, essa teoria busca compreender os significados transmitidos pelos enunciados como forma de explicar o funcionamento da língua na construção de sentidos. O foco, portanto, está no que pode ser observado e descrito: a capacidade de um enunciado ser interpretado como portador de um significado específico. A questão central é entender por que determinado enunciado expressa um sentido específico, e não outro (Gomes, 2016, p. 67).

A Teoria da Polifonía, outro marco em seus estudos, revelou como diferentes "vozes" ou pontos de vista estão presentes em um mesmo enunciado, ampliando as possibilidades interpretativas do discurso. O conceito de polifonía (Ducrot, 1987) pressupõe que todo texto traz em sua constituição uma pluralidade de vozes que podem ser atribuídas a diferentes locutores ou enunciadores. Dentro dessa perspectiva é que se define o dito e o não dito.

Em outros termos, todo texto — verbal e não verbal — se constrói por aquilo que é dito explicitamente e por aquilo que não é dito explicitamente, isto é, por aquilo que está posto em palavras, frases e períodos e por aquilo que não está posto explicitamente, mas que é significativo para estabelecer um sentido ao texto: os implícitos. Entre esses implícitos, encontram-se os pressupostos e os subentendidos.

Segundo Ducrot (1987), "a pressuposição é parte integrante do sentido dos enunciados. O subentendido, por sua vez, diz respeito à maneira pela qual esse sentido deve ser decifrado pelo destinatário" (p. 41).

Dizer que pressuponho X, é dizer que pretendo obrigar o destinatário, por minha fala, a admitir X, sem por isso dar-lhe o direito de prosseguir o diálogo a propósito de X. O subentendido, ao contrário, diz respeito à maneira pela qual esse sentido é manifestado, o processo, ao término do qual deve-se descobrir a imagem que pretendo lhe dar de minha fala. (Ducrot, 1987, p. 42)

Fiorin e Savioli (1997) explicam da seguinte forma a diferença entre os termos: "Pressupostos são ideias não expressas de maneira explícita, que decorrem logicamente do sentido de certas palavras ou expressões contidas na frase" (p. 307); enquanto subentendidos "são insinuações, não marcadas linguisticamente, contidas numa frase ou num conjunto de frases" (p. 310).

Assim, a noção de implícito formulada em Ducrot (1987) prevê modos de expressão que permitem deixar entender sem explicitar a responsabilidade de se ter dito. Ou se expressar de tal forma que a responsabilidade do dizer possa ser recusada.

Em busca da compreensão do que existe por trás da enunciação, cabe ao analista do discurso ir além da superfície do texto. É preciso perscrutar os sentidos produzidos nos discursos, considerando as condições históricas, sociais e ideológicas que os moldam.

Contextualização histórica: dom Pedro I e o Dia do Fico

Dom Pedro I foi uma figura central na formação do Brasil, governando como imperador durante o Primeiro Reinado, de 1822 a 1831. Herdeiro do trono português, foi príncipe regente e conhecido porter liderado o processo de independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, com o famoso "Grito do Ipiranga". Durante seu reinado, promulgou a primeira Constituição brasileira em 1824 e enfrentou desafios como a Guerra da Cisplatina e a Confederação do Equador. Dom Pedro I abdicou do trono em 1831, retornando a Portugal, onde lutou na Guerra Civil Portuguesa para garantir o direito de Maria II, sua filha, ao trono português (Piletti & Arruda, 1997).

Segundo a história oficial, o Dia do Fico, ocorrido em 9 de janeiro de 1822, foi um momento crucial no processo de independência do Brasil. Nessa data, dom Pedro I, então príncipe regente, decidiu permanecer no Brasil, contrariando as ordens das Cortes Portuguesas, que exigiam seu retorno imediato a Portugal. Esse evento fortaleceu o movimento de independência, consolidando dom Pedro como líder do processo que culminaria na Proclamação da Independência (Piletti & Arruda, 1997).

A decisão de dom Pedro foi influenciada pela pressão das elites brasileiras, que temiam a recolonização do país e queriam preservar as liberdades comerciais conquistadas após a elevação do Brasil a Reino Unido em 1815. Ao anunciar sua permanência, ele teria proferido a célebre frase: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico".

O episódio, historicamente construído com um contorno heroico de dom Pedro I, tem passado por uma revisão recente na historiografia contemporânea.

Há uma lenda dourada sobre o Dia do Fico, que vê a Independência como destino do Brasil, mas a verdade é que a Independência não estava escrita nas estrelas. Nem a frase é exatamente essa nem o Dia do Fico pode ser considerado o primeiro passo do que seria a Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822. Onde, então, os problemas dessa versão estão?

O Dia do Fico, como se conhece o episódio de modo geral, foi a expressão de revolta de dom Pedro que, ao ser convocado a regressar a Portugal pelas Cortes de Lisboa, rebelou-se e, de uma das janelas do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, teria dito aqui: "Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico".

Só que este não é o registro original e sim o que foi alterado para entrar para a história. Segundo o primeiro edital publicado sobre sessão, a frase dita pelo regente teria sido outra, bem menos enfática ou heroica.

Ele disse: "Convencido de que a presença da minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer, demorarei a minha saída até que as Cortes e meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com perfeito conhecimento das circunstâncias que ocorreram". (Schwarcz como citado em Colombo, 2022, §§ 5°-8°)

Para a antropóloga e historiadora, "a frase é uma construção, que fez parte da utilização da pessoa de dom Pedro pela elite imperial como uma figura simbólica". Ela destaca a relevância do episódio do Fico, mas defende que ele não ocorreu exatamente assim, com uma cronologia clara, "arrumadinha". Na sua concepção, é necessário compreender a Independência como parte de um conjunto mais amplo de acontecimentos, que se desenrolaram em diferentes contextos além da Corte do Rio de Janeiro (Schwarcz como citado em Colombo, 2022).

A historiadora Isabel Lustosa concorda com Schwarcz sobre o equívoco de pensar que o Dia do Fico tenha sido um primeiro passo para a Independência. "Não havia ainda, no final de 1821, quando elementos das elites do Centro-Sul do Brasil se uniram no Rio de Janeiro pelo Fico, um movimento pela independência do Brasil. O que havia era uma ocorrência a uma circunstância: a forma como o governo estava centralizado nas chamadas Cortes de Lisboa" (Lustosa como citado em Colombo, 2022, § 25).

De todo modo, ainda em muitos livros e obras, dom Pedro I permanece retratado a partir de representações que buscam consolidar sua imagem de líder forte e visionário — a exemplo do famoso quadro "Independência ou Morte", pintura de Pedro Américo que simboliza a Proclamação da Independência, atualmente exposto no Museu do Ipiranga, em São Paulo.

Contexto sociopolítico: dom Sócrates e as Diretas Já

Em abril de 1984, o Brasil vivia um momento de intensa mobilização política e social. O país ainda estava sob a Ditadura Militar, governado pelo presidente João Figueiredo, mas o movimento Diretas Já ganhava força, com milhões de brasileiros exigindo eleições diretas para presidente. Durante esse período, ocorreram grandes comícios em várias cidades, reunindo milhões de pessoas em apoio à proposta da emenda Dante de Oliveira, que buscava garantir o voto direto e seria votada no final do mês. A sociedade clamava pela abertura política, enquanto o regime militar enfrentava forte pressão popular. Esse cenário refletia um Brasil em transição, com a população buscando mudanças políticas e sociais significativas.

Nesse contexto, o Corinthians vivenciava a Democracia Corinthiana e estava profundamente envolvido na campanha pela redemocratização brasileira. O interesse não era apenas político, mas também financeiro. Empenhado em atrair novos patrocinadores, Washington Olivetto, garoto de ouro da publicidade brasileira e então vice-presidente de marketing do Corinthians, apoiado pelo diretor de futebol e sociólogo Adílson Monteiro Alves, passou a estampar faixas e mensagens nas camisas dos jogadores durante os jogos, como "Dia 15 vote", "Democracia Corinthiana" e "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia" (Olivetto, 2018).

Para Fiorenzano (2009), o movimento não surgiu de forma espontânea, mas resultou do processo histórico que vinha se desenrolando no conjunto da sociedade brasileira. A experiência, desenvolvida de 1981 a 1985, instituiu no clube um modelo de gestão menos autoritário, voltado à abertura de espaços de deliberação coletiva (Martins & Reis, 2017).

Com o apoio da diretoria e da presidência, jogadores e funcionários passaram a ter participação em decisões do dia a dia, como contratações, escalações, questões salariais e regras internas, que começaram a ser votadas e definidas em conjunto. Liderado por jogadores como Wladimir, Sócrates e Casagrande, o movimento reivindicava uma maior participação dos atletas nas decisões, tanto dentro como fora de campo.

Além de sua dimensão interna, a Democracia Corinthiana assumiu forte caráter político e social. Seus principais porta-vozes posicionaram-se publicamente em defesa de pautas democráticas, como o direito ao voto direto para presidente, e articularam-se a movimentos populares que pressionavam pela abertura política. Assim, a iniciativa ultrapassou os limites do clube e converteu-se em símbolo das aspirações por liberdade, participação e transformação social.

Nesse contexto de transição democrática, a mídia esportiva também não se manteve neutra. A revista Placar, conforme demonstram estudos recentes, assumiu posicionamento editorial ativo durante o período, ampliando a visibilidade de pautas democráticas e interpretando acontecimentos esportivos à luz das tensões políticas nacionais (Barenco, 2025).

Inaugurada em 20 de março de 1970, a Placar já havia completado sua primeira década e se consolidado como uma das principais publicações esportivas do Brasil, tornando-se referência para os amantes do esporte, em especial os do futebol. Sua redação, chefiada pelo jornalista e cientista social Juca Kfouri, assumia abertamente posições alinhadas ao processo de abertura democrática e crítica ao regime militar.

O engajamento político da Placar, contudo, foi anterior à emergencia da própria Democracia Corinthiana ou mesmo das Diretas Já. A publicação vinha sendo marcada por um ethos crítico que se revelou, por exemplo, na histórica reportagem sobre a máfia da lotería esportiva, publicada em outubro de 1982 (edição 648), quando a revista denunciou um esquema nacional de manipulação de resultados — investigação que lhe rendeu o Premio Esso e consolidou sua credibilidade como veículo capaz de tensionar os limites impostos pelo regime e pelo próprio campo esportivo (Corrêa & Xavier Filho, 2025).

Na mesma década, a Placar manteve postura propositiva ao apoiar debates sobre a reorganização institucional do futebol brasileiro, envolvendo-se nas discussões que levaram à formação do Grupo dos 13 e à defesa da Copa União como alternativa ao modelo federativo vigente, iniciativas que, embora de natureza estrutural, dialogavam com demandas mais amplas por autonomia, transparência e democratização do futebol — temas centrais no processo de abertura política nacional e frequentemente revisitados pela revista.

Assim, a Placar não apenas registrou a participação de atletas nos comícios das Diretas Já, mas também produziu enquadramentos discursivos que atribuíram ao futebol a condição de agente político, projetando sobre ídolos como Sócrates e Pelé significados associados à luta democrática. Como apontam Accorsi et al. (2017), a revista atuou como "ator comunicacional da campanha", contribuindo para inserir o futebol no debate público sobre cidadania e participação política.

Foi nesse contexto que, na edição 727, de 27 de abril de 1984, a Placar estampou a célebre capa de Sócrates representado como dom Pedro I, acompanhada de editorial assinado por Kfouri e de entrevista de três páginas no miolo da revista. O mote da edição era a promessa feita por Sócrates no comício das Diretas Já, realizado no Vale do Anhangabaú 11 dias antes — episódio que se tornou símbolo máximo da convergência entre futebol, mídia e mobilização política no período.

Figura 3. Editorial assinado por Juca Kfouri, publicado na edição 727 da revista Placar, p. 3


Figura 4. Entrevista com Sócrates publicada na edição 727 da revista Placar, pp. 37-40


No tópico a seguir, analisamos os textos à luz da teoria de Ducrot, buscando evidenciar os ditos e os implícitos no discurso da Placar.

Análise discursiva: posto, pressuposto e subentendido

A análise baseia-se na análise do discurso de linha francesa, com ênfase nas categorias argumentativas de Ducrot (1987). Para operacionalizaroexamedos mecanismos linguísticos, adotamos a categorização proposta por Moura (1999, p. 13), que distingue três níveis de informação presentes no enunciado: 1) posto — a informação contida no sentido literal das palavras de uma sentença; 2) pressuposto — as informações que podem ser inferidas da enunciação dessas sentenças; e 3) subentendido — certos enunciados que não estão marcados na frase, mas que se explicam no processo interpretativo.

Iniciamos pela chamada de capa, que traz a imagem de Sócrates em trajes áulicos de gala2, acompanhada da manchete em destaque: "Se o Brasil mudar, eu fico" (Placar, 1984); seguimos para o editorial "Dom Sócrates e as eleições Diretas Já" (Placar, 1984, p. 3); e, por fim, destacamos trechos da entrevista concedida pelo jogador à revista (Placar, 1984, pp. 37-40).

Foto de capa

•  Dito: Sócrates vestido de casaca com insígnias e honrarias.

•  Pressuposto: Sócrates representa o papel do imperador dom Pedro I.

•  Subentendido: Sócrates é nobre e, assim como dom Pedro I, luta pelo Brasil.

É importante perceber que, na edição analisada, a imagem não é empregada como recurso meramente ilustrativo da linguagem jornalística. Ela significa, isto é, também se constitui em discurso, ultrapassando uma simples função complementar, de cenário ou ilustração.

Como mecanismo discursivo, a imagem carrega uma série de conotações impregnadas de sentidos em função de sua referencialidade e representatividade. Ao vestir Sócrates de dom Pedro I, o texto extrapola seu sentido literal e constitui-se em discurso, o que promove a interdiscursividade entre personagens e momentos históricos distintos.

Dessa relação, emerge um ethos discursivo, conceito proposto por Maingueneau (2008). Conforme Leite (2014), "o ethos se constitui na perspectiva socioideológica pela qual se projeta" (p. 92). O ethos gera uma simpatia que é incorporada pelo leitor/consumidor e que acaba por persuadi-lo. Em outros termos, seria o "processo mais geral de adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva" (p. 89).

Chamada de capa

•  Dito: "Se o Brasil mudar, eu fico".

•  Pressuposto: A permanência de Sócrates no Brasil está condicionada à mudança do país.

•  Subentendido: A emenda Dante de Oliveira precisa ser aprovada para que Sócrates  permaneça no país.

Editorial

•  Dito: Em junho do ano passado, a pesquisa PLACAR/Gallup, revelou que são 6,5 milhões os corintianos maiores de 18 anos no país. Este respeitável contingente eleitoral tem mais um motivo para fiscalizar a atuação dos parlamentares que decidirão, dia 25 próximo, se o Brasil terá eleições diretas já. Não bastasse a vontade expressa nos comícios de norte a sul, o maior ídolo do futebol brasileiro condicionou a sua permanência no país à aprovação da emenda Dante de Oliveira. Sócrates está tão interessado nela que, para divulgá-la, ainda mais, não teve dúvida em assumir o papel de dom Pedro I, transformando-se na capa desta edição.

•  Pressuposto: Sócrates é a favor da emenda Dante de Oliveira e condicionou sua permanência no Brasil à sua aprovação. Os corintianos, imenso contingente eleitoral e interessados na permanência de Sócrates no país, devem fiscalizar a atuação dos parlamentares na votação da emenda.

•  Subentendido: Os parlamentares devem votar de acordo com a vontade do povo, representada pela massa corintiana e por seu ídolo maior.

Tanto a chamada decapa quanto o editorial deixam clara a intencionalidade do discurso da Placarão induzir seus leitores a apoiarem, ou até mesmo exigirem, a aprovação da emenda Dante de Oliveira, elemento-chave do processo de abertura política e redemocratização. Este é o objetivo implícito, a real intenção do locutor: mesmo sem dizerem palavras, a revista diz.

Segundo Orlandi (2006), o implícito consiste naquilo que não está dito, mas que também está significando. O efeito é produzido a partir de uma construção enunciativa argumentativa.

Entrevista (lead e sub lead)

•  Dito: Adata de 9 de janeiro de 1822celebrizou o Dia do Fico de dom Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o primeiro imperador brasileiro.

Dia 18 de junho de 1983 marcou para Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira o seu primeiro Dia do Fico, ao recusar a proposta do Roma que queria levá-lo para a Itália (PLACAR n° 683).

•  Pressuposto: Paralelismo entre dom Pedro I e Sócrates, seja pela extensão de seus nomes, seja pela decisão de ficar no Brasil.

•  Subentendido: Sócrates e dom Pedro I possuem personalidade, honra e determinação, e colocam os interesses da nação acima de seus interesses individuais.

Novamente, a partir de uma construção semântica, a Placar relaciona Sócrates a dom Pedro I sem precisar dizer explicitamente. Para isso, basta observar a forma como os elementos linguísticos se combinam para criarsignificado.

O trabalho de interpretação, neste caso, não se limita à estrutura linguística das frases. É preciso ler nas "entrelinhas", isto é, ler aquilo que não foi dito, mas que é significativo para a interpretação do texto.

Entrevista (3o parágrafo)

•  Dito: Agora, provavelmente na próxima segunda-feira, dia 30, ele poderá ter sua permanência definitiva no país assegurada. Para tanto, bastará que a emenda Dante de Oliveira seja aprovada na Câmara dos Deputados dia 25 e ratificada no Senado em seguida. Pelo menos foi isso que o rei dos corintianos prometeu no último dia 16, diante de quase 2 milhões de pessoas, na histórica passeata/comício do Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

•  Pressuposto: Caso a emenda Dante de Oliveira seja aprovada, Sócrates permanecerá no Brasil.

•  Subentendido: 2 milhões de pessoas querem a permanência de Sócrates no Brasil.

Entrevista (1a pergunta)

•  Dito: PLACAR — Para quem jogou a Copa da Espanha, vista quase pelo mundo inteiro, dá para comparara emoção de um gol como o contra a Itália, por exemplo, ao delírio da multidão quando você anunciou que ficaria no país caso a Dante de Oliveira seja aprovada?
SÓCRATES — Agrande diferença é que na Copa eu era o artista. No comício eu era um dos participantes, o que dá muito mais responsabilidade. Estávamos todos lutando pelo mesmo ideal.

•  Pressuposto: Participar do comício pela emenda Dante de Oliveira foi um momento de grande importância coletiva, comparável, em intensidade, às emoções vividas durante um evento esportivo significativo, como marcar um gol na Copa do Mundo.

•  Subentendido: Sócrates valoriza a luta coletiva por ideais e reconhece a responsabilidade cívica que transcende sua posição como atleta, o que demonstra seu compromisso com a sociedade e com as causas democráticas.

Entrevista (6a pergunta)

•  Dito: PLACAR — O Pelé posou para PLACAR com a camisa das Diretas. Isso surpreendeu você?
SÓCRATES — Eu não o conheço profundamente, não sei o que ele pensa. Independentemente disso, no entanto, eu acho ótimo que ele tenha se engajado, porque é hora de todo mundo participar, nem que seja por conveniência.

•  Pressuposto: Pelé, ao posar com a camisa das Diretas Já, demonstrou apoio ao movimento, o que reforça a importância de figuras públicas se engajarem em causas políticas e sociais.

•  Subentendido: Sócrates sugere que Pelé esteja agindo por conveniência, porém entende que o impacto coletivo é o que realmente importa.

Entrevista (14a pergunta)

•  Dito: PLACAR — A emenda do governo prevê Diretas para 1988 e alguns analistas avaliam que, fruto de uma negociação, é possível antecipar para 1986. Você não acha isso razoável?
SÓCRATES — Mas esperar o quê? Porque não já? Se as Diretas são um desejo unânime, porque não já?

•  Pressuposto: Sócrates defende a urgência das eleições diretas para presidente.

•  Subentendido: A aprovação das eleições diretas é amplamente desejada pela população brasileira, sendo vista como uma prioridade que não deveria ser adiada.

Entrevista (fechamento da matéria)

•  Dito: PLACAR — E as Diretas? Quando, Doutor?
SÓCRATES — Diretas já, diretas ontem.

•  Pressuposto: Sócrates clama pelas Diretas e defende sua necessidade urgente.

•  Subentendido: A resposta enfática de Sócrates demonstra sua impaciência com a demora na implementação das Diretas, o que reforça seu compromisso com a democracia e com a vontade popular.

Os trechos destacados, extraídos da entrevista concedida por Sócrates à Placar, giram em torno da aprovação da emenda Dante de Oliveira. Os textos enfatizam o futebolista como uma figura pública que transcende o esporte, utilizando sua visibilidade e influência para mobilizar a população em prol das Diretas Já.

Com o objetivo de explicitar a sistemática de análise, apresentamos, a seguir, um quadro-síntese que organiza os fragmentos examinados segundo sua classificação discursiva.

Tabela 1. Classificação dos enunciados analisados

Fragmento

Dito

Pressuposto

Subentendido

Foto de capa

Sócrates trajado com insígnias e honrarias.

Sócrates representa dom Pedro 1.

Sócrates é nobre e atua pelo Brasil, como o imperador.

Chamada de capa

"Se o Brasil mudar, eu fico."

A permanência depende da mudança do país.

A aprovação da Emenda Dante de Oliveira é condição para que ele fique.

Editorial

Texto enfatiza o peso eleitoral dos corintianos e a posição de Sócrates.

Sócrates apoia a emenda e condiciona sua permanência à sua aprovação.

Os parlamentares devem votar conforme a vontade popular representada pela massa corintiana.

Entrevista (lead)

Paralelo entre "Dia do Fico" (dom Pedro 1 e Sócrates).

Há equivalência simbólica entre ambos.

Ambos colocam interesses da nação acima dos pessoais.

Entrevista (3° parágrafo)

Sócrates pode ficar se a emenda for aprovada.

A aprovação garante sua permanência.

Milhões de pessoas desejam sua permanência no Brasil.

Entrevista (Ia pergunta)

Comparação entre emoção do gol e comício.

0 comício tem importância coletiva.

Sócrates prioriza a luta democrática acima do espetáculo esportivo.

Entrevista (6a pergunta)

Pelé posou com a camisa das Diretas.

Pelé apoiou o movimento.

0 engajamento pode ter sido por conveniência, mas ainda assim fortalece a causa.

Entrevista (14a pergunta)

Crítica ao "voto de confiança" dado ao governo e à espera prolongada por mudanças.

Esperar pela abertura tem sido improdutivo.

A postura do governo é lenta e insuficiente; é preciso pressão imediata pela democratização.

Entrevista (fechamento)

"Diretas já, diretas ontem."

Sócrates defende a urgência da aprovação.

0 atraso frustra expectativas e reforça a vontade popular.


Conclusão

A imprensa, estando entre as instituições que regulam e disseminam os saberes que circulam na sociedade, desempenha um papel fundamental na construção de sentidos que se consolidam como verdades amplamente aceitas. Esse fenómeno representa uma estratégia de poder, pois possibilita a orientação de percepções coletivas e a formação de narrativas que influenciam diretamente o imaginário social. Além de refletirem os valores de seus autores, esses discursos possuem o poder de instaurar sentidos, moldando comportamentos e crenças.

Ao contrário do que é admitido pelo senso comum sobre a prática jornalística — e já amplamente debatido entre pesquisadores do discurso e da mídia — a imparcialidade do discurso é uma ilusão (Silva & Hashiguti, 2013). Afinal, como ensinam Pêcheux (1993 [1969]) e Foucault (2008), não existe neutralidade no discurso: toda enunciação mobiliza filiações ideológicas, posições de sujeito e regimes de verdade que a tornam politicamente situada.

Nesse sentido, conforme Ducrot (1988): "embora, quando falamos, pensemos dizer o que as coisas são, na realidade, contentamo-nos com colocá-las a serviço das nossas argumentações. Falar é construir, e tentar impor aos outros uma espécie de apreensão argumentativa da realidade" (p. 14).

Ler um texto, portanto, é diferente de estruturar palavras e frases. Entender o texto como discurso é atribuir-lhe um sentido do ponto de vista social e ideológico, e não apenas proceder à descrição dos seus elementos. Desse modo, a interpretação pressupõe também a relação com a cultura, com o histórico e com a formação social dos sujeitos (Souza, 2015).

[...] o sujeito, mais especificamente o sujeito discursivo, deve ser considerado sempre como um ser social, apreendido em um espaço coletivo; portanto, trata-se de um sujeito não fundamentado em uma individualidade, e um "eu" individualizado, e sim um sujeito que tem existência em um espaço social e ideológico, em um dado momento da história e não em outro. A voz desse sujeito revela o lugar social; logo, expressa um conjunto de outras vozes integrantes de dada realidade social; de sua voz ecoam as vozes constitutivas e/ou integrantes desse lugar sócio-histórico. (Fernandes, 2005, p. 34)

Com base nesses pressupostos e nos postulados de Ducrot (1988,1987,1977), foi possível demonstrar como a revista constrói seu discurso por meio de mecanismos linguísticos que operam sobretudo no plano implícito. Em grande parte, a leitura não se dá apenas no dito, mas, principalmente, no não dito — aquilo que é sugerido, ativado pelos pressupostos e subentendidos. Os enunciados, tanto verbais quanto não verbais, ganham sentido não por sua literalidade, mas pelo conjunto de efeitos argumentativos que instauram, constituindo um "texto oculto", ainda que operativo.

A Placar vestiu Sócrates como dom Pedro I, estabelecendo um paralelo simbólico entre o jogador e o Dia do Fico. A capa não foi apenas uma escolha estética: ela dramatizou visualmente o engajamento político de Sócrates, situando-o como protagonista de um novo gesto de afirmação nacional — agora não pela independência do Brasil, mas pela defesa do voto direto e da democracia durante o movimento das Diretas Já.

Ao aproximar Sócrates de dom Pedro I, a revista heroiciza a imagem de ambos, mobilizando uma estratégia recorrente no jornalismo esportivo: a construção de figuras épicas como forma de captar atenção e ampliar sua audiência. Essa operação narrativa não apenas intensifica o valor simbólico da capa, mas também reforça a ideia de que determinados protagonistas — no campo esportivo ou político — podem ser convertidos em personagens míticos capazes de representar desejos coletivos, seja a independência no século 19, seja a luta pelas eleições diretas no final da Ditadura.

A análise da edição 727 permitiu demonstrar que o discurso da Placar opera por meio de implícitos que convocam o leitor a aderir a uma posição política específica — o apoio às Diretas Já. A revista transforma uma figura esportiva em operador simbólico de mobilização, reforçando que o discurso jornalístico, inclusive o esportivo, participa ativamente da construção de sentidos políticos em contextos de disputa.

Na edição analisada, a Placar posiciona-se através de Sócrates: usa sua voz e popularidade como instrumento de influência e mobilização pública em um momento decisivo da história brasileira. Ao fazê-lo, também assume papel central na construção da imagem de Sócrates como jogador politicamente engajado, símbolo de coragem e de luta democrática — uma representação que perdura no imaginário coletivo.

Não obstante, é importante reconhecer as limitações deste estudo. A opção metodológica por analisar uma única edição justifica-se pelo caráter singular e altamente expressivo da representação de Sócrates como dom Pedro I, cuja excepcionalidade a torna um acontecimento discursivo particularmente produtivo para investigar, em profundidade, os mecanismos de produção de sentido mobilizados pela revista.

Ainda que esse número se configure como um documento privilegiado para compreender o posicionamento político-editorial da Placar e a representação de Sócrates como jogador politicamente engajado, ele constitui apenas um recorte dentro de um ciclo mais amplo em que a revista desempenhou papel relevante na articulação entre esporte e política. Investigações futuras poderão ampliar esse escopo, examinando outras edições, de modo a identificar continuidades, deslocamentos e variações discursivas.

Por fim, situar esses achados no contexto sociopolítico das Diretas Já revela que o discurso da Placar não pode ser compreendido isoladamente. Pelo contrário: ele se insere em um ambiente marcado por mobilizações populares, desgaste do regime militar e crescente pressão por abertura democrática. Assim, a revista não apenas refletiu esse momento histórico, mas interveio ativamente nele, contribuindo para produzir sentidos políticos que articularam esporte, cidadania e participação popular. Nesse sentido, sua atuação confirma que o jornalismo esportivo — frequentemente percebido como espaço de entretenimento — também desempenha outros papéis, especialmente em contextos de disputa simbólica.


Notas

1 A estética do universo futebolístico ao retratar seus jogadores frequentemente combina elementos de força, habilidade e carisma. Os jogadores são apresentados como figuras heroicas, com foco em sua capacidade atlética. Isso pode incluir imagens que destacam movimentos dinâmicos, como chutes e dribles, ou momentos de celebração que capturam a emoção do esporte. Além disso, há uma tendência de associar os jogadores a valores como trabalho em equipe, determinação e paixão, criando uma narrativa visual que os conecta ao público.

2 Conforme Volpi, em seu estudo sobre os trajes de gala usados pelo imperador dom Pedro I nas cerimónias de aclamação, sagração e coroação em 1822, as indumentárias áulicas, símbolo do poder imperial, não eram ocasionais, mas tinham um propósito bem definido como expressão de uma identidade própria da nação brasileira durante um importante período de transição política: "A adoção de novas cores — verde e amarelo — em detrimento das portuguesas — azul e vermelho —, os novos riscos de bordados aplicados aos mantos imperiais, à farda do imperador e ao vestido da imperatriz, como o carvalho, o trigo e as palmeiras, de grande carga simbólica, são alguns aspectos dos trajes do Império do Brasil que rompem com o modelo português, mas ainda estão inseridos no contexto vestimentar da época. Além disso, aspectos da indumentária de Pedro I cujos detalhes não têm precedentes no repertório áulico europeu evidenciam estratégias que desvinculassem o jovem império brasileiro de sua matriz portuguesa" (Volpi, 2015, p. 257).


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