Correlatos valorativos de crenças em teorias da conspiração

Correlatos valorativos de creencias en teorías de conspiración

Values Correlates of Beliefs in Conspiracy Theories

Alessandro Teixeira Rezende
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Valdiney Veloso Gouveia
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Anderson Mesquita do Nascimento
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Roosevelt Vilar
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Karen Guedes Oliveira
Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Correlatos valorativos de crenças em teorias da conspiração

Avances en Psicología Latinoamericana, vol. 37, núm. 2, 2019

Universidad del Rosario

Recepção: 07 Agosto 2018

Aprovação: 19 Fevereiro 2019

Resumo: As teorias da conspiração podem ser conceituadas como crenças que servem para explicar comportamentos e ações de grupos ou organizações secretas. O presente estudo buscou investigar a relação entre valores e teorias da conspiração. Contou-se com a participação de 205 estudantes universitários (M idade = 21.7; 56.6% do sexo feminino), os quais responderam a Escala de Crenças Gerais Conspiratórias, o Questionário dos Valores Básicos e perguntas demográficas. Os resultados indicaram que tais crenças estão associadas, principalmente, com os valores humanitários como representados por aqueles de experimentação, suprapessoais e interativos, mas também com os valores de realização. Concluiu-se que os valores podem ser uma variável importante para explicar o endosso à crenças em teorias da conspiração, sobretudo valores que promovem maior abertura à mudança e justiça social, não se limitando a fontes e explicações convencionais de fatos complexos. Finalmente, limitações e potenciais aplicações são discutidas.

Palavras-chave: crenças, teorias, conspiração, valores humanos.

Resumen: Las teorías de la conspiración pueden ser conceptuadas como creencias que sirven para explicar comportamientos y acciones de grupos u organizaciones secretas. El presente estudio buscó investigar la relación entre valores y teorías de conspiración. Los participantes han sido 205 estudiantes universitarios (M edad = 21.7, 56.6% mujeres), quienes han contestado a la Escala de Creencias Generales Conspiratorias, el Cuestionario de los Valores Básicos y preguntas demográficas. Los resultados han indicado que las creencias conspiratorias se asociaron, principalmente, con los valores humanitarios o abstractos, como representados por aquellos de experimentación, suprapersonales e interactivos, pero también con los valores de realización. Se ha concluido que los valores pueden ser una variable importante con el fin de explicar el endoso de las personas a las creencias en teorías de conspiración, sobre todo valores que promueven una mayor apertura a las experiencias y la justicia social, no limitándose a fuentes y explicaciones convencionales de hechos complejos. Finalmente, se discuten las limitaciones y las aplicaciones potenciales.

Palabras clave: creencias, teorías, conspiración, valores humanos.

Abstract: Conspiracy theories can be conceptualized as beliefs that serve to explain behaviors and actions of secret groups or organizations. The present study sought to investigate the relationship between values and conspiracy theories. Participants were 205 undergraduate students (M age = 21.7, 56.6% female), who responded to the Conspiracy General Beliefs Scale, the Basic Values Survey and demographic questions. Results indicated that conspiracy beliefs are mainly associated with humanitarian or abstract values as represented by excitement, suprapersonal and interactive, but also with promotion values. In conclusion, values can be an important variable to explain the endorsement of beliefs in conspiracy theories, especially those that promote higher openness to experience and social justice; they do not limit to conventional sources and explanations of complex facts. Finally, we also discussed the limitations and potential applications.

Keywords: Beliefs, theories, conspiracy, human values.

Introdução

Nas três últimas décadas têm aumentado o interesse por um conjunto de fenômenos identificados sob a denominação de teorias da conspiração (TC). Certos eventos complexos, que são de difícil explicação (e.g., o ataque terrorista nos Estados Unidos em 2001, a recente crise financeira mundial em 2008, o acidente aéreo com o candidato a Presidente do Brasil, Eduardo Campos, em 2014), têm dado lugar a cenários político-sociais permeados de incertezas e desconfianças (Byford, 2014). Neste contexto, têm surgido várias especulações e opiniões, por vezes infundadas, produzindo “teorias da conspiração” que têm ganhado visibilidade em diferentes canais midiáticos (e.g., Facebook, Instagram, jornais, revistas).

Dentro de tal conjunta é possível constatar a disseminação das teorias da conspiração nos mais variados meios de redes sociais. A esse respeito, pode-se citar eventos como o atentado terrorista as torres gêmeas nos Estados Unidos em setembro de 2011 e a crença de que a guerra do Iraque foi arquitetada por um grupo de empresários. Face a esse contexto, as ideias conspiratórias são difundidas na realidade social, fazendo parte do vocabulário das pessoas.

Em termos gerais, estas teorias conspiratórias atuam como forma de se opor as forças do capitalismo e de empresas que detêm poder, permitindo assim ir contra as hierarquias socialmente estabelecidas, bem como desenvolver explicações não convencionais para eventos que ocorrem na realidade social (Sapountzis & Condor, 2013). Dentro dessa conjuntura, é possível pensar que indivíduos guiados por valores mais normativos, caracterizados por uma maior ênfase na preservação da cultura e a obediência à regras sociais, seriam contrárias à explicações baseadas em teorias conspiratórias (Gouveia, 2013).

Desta forma, tais teorias atribuem determinados eventos sociais e políticos importantes às ações de grupos considerados poderosos, malévolos e, por vezes, secretos (Uscinski & Parent, 2014). Este fenômeno, que tem sido recorrente para explicar a realidade social, tem despertado o interesse de diversos pesquisadores, que vêm empreendendo esforços para medi-lo, possibilitando uma compreensão mais adequada e precisa acerca de como se apresenta, inclusive permitindo que se conheçam os seus correlatos (Cichocka, Marchlewska & Zavala, 2016; Douglas, Sutton, Callan, Dawtry & Harvey, 2016; Swami & Furnham, 2012).

Neste contexto, Byford (2014) enfatiza que a adesão à explicações baseadas em ideias conspiratórias pode ser entendida a partir de diferenças individuais, tais como vieses de processamento de informação (Swami, Voracek, Stieger,Tran & Furnham, 2014), estratégias de manutenção de identidade (Uscinski & Parent, 2014) e características de personalidade (Swami, Chamoro-Premuzic & Furnham, 2010). A propósito, este autor ressalta a pertinência de ter em conta outros construtos que possam auxiliar no entendimento do endosso às teorias conspiratórias, sugerindo que se considere o papel de variáveis de cunho social. Dentro do campo da Psicologia Social, especificamente, as pesquisas apontam que variáveis sociais auxiliam no entendimento de porque as teorias da conspiração parecem mais atraentes para os indivíduos que sentem que sua imagem pessoal está sendo ameaçada (Cichocka et al., 2016), para aqueles que têm uma grande necessidade pessoal de singularidade (Lantian, Muller, Nurra & Douglas, 2017) ou para os indivíduos que procuram ordem e entendimento em seu ambiente (Umam, Muluk & Milla, 2018). Nesta direção, os valores humanos podem ser um candidato importante, sobretudo por guiarem o comportamento dos indivíduos no meio social e apresentar estreita relação com o processo de socialização e contexto social (Gouveia, Vione, Milfont & Fischer, 2015), sendo central no sistema cognitivo do indivíduo (Maio, 2016; Rokeach, 1973).

Portanto, o estudo em questão buscou averiguar em que medida da conspiração estão relacionadas com os valores humanos. Neste sentido, inicialmente, procura-se a seguir, tratar as teorias da conspiração, oferecendo uma definição deste construto, identificando as necessidades psicológicas subjacentes à tais crenças e seus correlatos. Posteriormente, consideram-se os valores humanos, descrevendo brevemente o panorama dos estudos a respeito desde a perspectiva psicológica, dando ênfase ao modelo emergente que vem se consolidando, isto é, a teoria funcionalista dos valores humanos (Maio, 2016). Por fim, apresenta-se o estudo empírico propriamente.

Crenças em Teorias da Conspiração

Na atualidade, os indivíduos constantemente se defrontam com eventos ou fatos que colocam em risco a estabilidade social. Esses eventos servem de base para o desenvolvimentos de teorias da conspiração. Tais teorias podem ser conceituadas como crenças que servem para explicar comportamentos e ações de grupos ou organizações secretas (Zonis & Joseph, 1994). A partir disso, as teorias da conspiração estão relacionadas a argumentos não “convencionais” ou “ilusórios” para eventos que normalmente vão contra a uma interpretação já oficial e politicamente correta de um dado acontecimento (van Prooijen & Acker, 2015). Bessi et al. (2015) elencam que indivíduos que endossam tais teorias, são em geral, mais pessimistas em relação as explicações que são dadas por instituições ou pessoas poderosas.

Douglas, Sutton e Cichocka (2017), revisando estudos da literatura, sugerem que a adesão à explicações baseadas em teorias da conspiração satisfazem necessidades psicológicas importantes, que podem ser identificadas como epistêmicas (e.g., desejo de compreensão, precisão e certeza subjetiva), existenciais (e.g., desejo de controle e segurança) e sociais (e.g., desejo de manter uma imagem positiva do eu ou do grupo). Estes autores ressaltam que sua taxonomia é útil para classificar as motivações associadas ao endosso de crenças conspiratórias.

Encontrar explicações causais para eventos é parte fundamental da construção de uma compreensão estável, precisa e internamente consistente do mundo social (Heider, 1958). Deste modo, a motivação epistêmica inclui a necessidade de reduzir a incerteza e o desconforto do indivíduo, frente à informação que não está disponível, proporcionando significado e sentido aos eventos. Neste sentido, as teorias da conspiração fornecem explicações amplas e internamente consistentes, que possibilitam que as pessoas preservem suas crenças diante de situações que envolvem incerteza e contradição. De fato, a crença em teorias da conspiração é mais forte quando os eventos são especialmente grandes ou significativos e deixam as pessoas insatisfeitas com explicações superficiais (Leman & Cinnirella, 2013), ou quando elas experimentam ansiedade como resultado de eventos que não possuem respostas oficiais claras (Marchlewska, Cichocka & Kossowska, 2018). Portanto, tais crenças podem satisfazer necessidades epistêmicas, como proteção de acontecimentos que geram incerteza, estando associadas com níveis mais baixos de pensamento analítico (Swami et al., 2014) e escolaridade (Douglas et al., 2016), assim como à tendência a superestimar a probabilidade de acontecimentos que não existem (Brotherton & French, 2014).

As explicações baseadas em pensamentos conspiratórios também atendem a necessidade que as pessoas têm de se sentirem seguras e exercerem controle sobre o meio ambiente (Swami et al., 2014). Por exemplo, aquelas que sentem esse controle ameaçado costumam ter em conta as teorias conspiratórias como forma de rejeitar narrativas oficiais e criar explicações alternativas, reduzindo o sentimento de ameaça e instabilidade (Bost & Prunier, 2013). Além disso, estudos indicam que as pessoas aderem às teorias conspiratórias quando se sentem ansiosas (Grzesiak-Feldman, 2013), impotentes (Abalakina-Paap, Stephan, Craig & Gregory 1999) e percebem falta de controle sociopolítico (Bruder, Haffke, Neave, Nouripanah & Imhoff, 2013).

As explicações baseadas em ideias conspiratórias ainda são motivadas por necessidades sociais, a exemplo do desejo de pertencer a um grupo e manter uma imagem positiva tanto de si quanto do grupo. Por exemplo, tem sido sugerido que as teorias de conspiração valorizam o eu e o grupo ao permitir que a culpa de resultados negativos seja atribuída a outros (Douglas et al., 2017; Marchlewska et al., 2018). Neste sentido, pode-se esperar que as teorias da conspiração sejam particularmente atraentes para pessoas que consideram que a imagem de si ou do grupo esteja sendo ameaçada (Cichocka et al., 2016). Neste marco, estudos experimentais sugerem que membros de grupos que têm status baixo devido a sua etnia (Crocker, Luhtanen, Broadnax & Blaine, 1999) ou renda (Uscinski & Parent, 2014) são mais propensos a aderir à teorias da conspiração, estando estas também associadas ao preconceito contra grupos percebidos como inimigos (Kofta & Sedek, 2005) e poderosos (Imhoff & Bruder, 2014). Tais descobertas sugerem que estas teorias podem ser utilizadas para aliviar o grupo de uma sensação de posição desfavorecida (Bilewicz, Winiewski, Kofta & Wójcik, 2013).

Mesmo apesar do crescente interesse da Psicologia (Douglas et al., 2017; Imhoff & Bruder, 2014; Swami et al., 2014), sobre as teorias da conspiração, ainda se faz necessário a realização de novas pesquisas que contribuam para conhecer de maneira mais aprofundada as crenças nas teorias conspiratórias. Diante disso, o estudo em questão teve como objetivo principal investigar o quanto os valores humanos estão associados ou predizem as crenças conspiratórias endossas pelas pessoas. Os valores têm sido considerados uma das variáveis psicológicas importantes no marco dos estudos sobre crenças, atitudes e traços de personalidade (e.g., Araújo, 2016; Medeiros, Sá, Monteiro, Santos & Gusmão, 2017), podendo de algum modo contribuir neste contexto.

Valores Humanos

Desde a obra clássica, The Nature of Human Values (Rokeach, 1973), tem sido crescente o interesse pelos valores humanos, que se consolida como um tema central em psicologia social, da personalidade e transcultural, por exemplo (Maio, 2016). Considerados como centrais na seleção e no julgamento de atitudes e ações humanas (Rokeach, 1981), eles têm sido objeto de diversos desenvolvimentos teóricos, elaborando-se modelos que os explicam nos âmbitos individual/pessoal e grupal/cultural. Entretanto, nesta oportunidade se considera apenas a perspectiva psicológica, que trata o indivíduo como elemento básico de análise (KuKlick, 2002). Toma-se em conta especificamente a teoria funcionalista dos valores humanos (Gouveia, 1998; Gouveia, Milfont, & Guerra, 2014).

A presente teoria estabelece pressupostos básico, sendo eles: (1) a natureza humana é benévola; (2) os valores têm base motivacional, expressando cognitivamente necessidades humanas; (3) eles são princípios-guia de comportamentos, isto é, são categorias que orientam as condutas dos indivíduos em meio social; (4) possuem um caráter terminal, representando um propósito em si; e, por fim, (5) têm condição perene, admitindo-se que os valores são aproximadamente os mesmos no tempo e no espaço, variando em razão de papéis sociais assumidos (Gouveia et al., 2015).

Gouveia (2013) em sua teoria postula que os valores humanos apresentam duas funções principais: (1) guiar o comportamentos os indivíduos no meio social, sendo visto como tipo de orientação e (2) e expressar cognitivamente as necessidades humanas, sendo tido de motivador. Diante disso, a primeira função psicológica dos valores é representada por três tipos de orientação: pessoal, central e social, enquanto que a segunda é composta por dois tipos de motivadores principais: materialista (pragmático) e idealista (humanitário).

A combinação das funções tipo de orientação (social, central e pessoal) e tipo de motivador (materialista e humanista) dá origem a uma estrutura circumplex 3x2, formada por seis subfunções valorativas, a saber: (1) experimentação (pessoal-humanitário) diz respeito a satisfação das necessidades fisiológicas, sendo composta pelos marcadores valorativos prazer, emoção e e sexualidade; (2) realização (pessoal-materialista): inclui os marcadores valorativos êxito, poder e prestígio, compreendendo as necessidades de autoestima; (3) existência (central-materialista), está relacionada a satisfação das necessidades mais básicas, onde o indivíduo prioriza aspectos relacionados a saúde, sobrevivência e estabilidade pessoal; (4) suprapessoal (central-humanitário), caracteriza indivíduos que priorizam a estética e cognição, sendo formado pelos marcadores valorativos de conhecimento, maturidade e beleza; (5) interativa (social-humanitário), caracterizado por indivíduos que endossam as necessidades de pertença, amor e filiação pelos seus pares; e (6) normativa, que compreende o respeito pelas normas e tradição da cultura, sendo representada por religiosidade, tradição e obediência (Gouveia, 2016).

Esta teoria reúne evidências de sua adequabilidade psicométrica, mostrando-se relevante em diversos contextos e para explicar uma série de variáveis, que incluem atitudes, crenças, interesses e condutas, por exemplo (Gouveia, 2016). Além disso, suas hipóteses de conteúdo (lista de valores específicos e número de valores básicos) e estrutura (representação espacial dos valores) têm sido testadas em mais de 90% dos estados brasileiros (Araújo, 2016; Gouveia et al., 2014, 2015; Medeiros, 2011), abrangendo, ainda, mais de 40 países (Gouveia, 2013; Soares, 2015). Portanto, justifica-se o seu emprego na presente pesquisa.

Método

Delineamento e Hipóteses

Tratou-se de um delineamento correlacional, considerando medidas de autorrelato (e.g., valores humanos, crenças em teorias da conspiração). Tendo em conta o que tem sido descrito na literatura acerca das necessidades epistêmicas, existenciais e sociais das teorias da conspiração e os fundamentos da teoria funcionalista dos valores humanos, elaboraram-se três hipóteses principais: (1) as pessoas que pontuam alto em valores de experimentação endossarão mais crenças em teorias da conspiração. Essa hipótese foi formulada tendo como princípio a ideia de que pessoas guiadas pela subfunção experimentação, dão ênfase à promoção de mudanças e inovação na sociedade, não se conformando facilmente com normas sociais, buscando assim informações que possibilitem o enfrentamento de hierarquias socialmente estabelecidas (Sapountzis & Condor, 2013); (2) pessoas que pontuam alto em valores suprapessoais endossarão mais crenças em teorias da conspiração. Essa segunda hipótese teve como subsídio a premissa de que pessoas orientadas pela subfunção suprapessoal expressam as necessidades de estética e cognição, buscando equilíbrio e coerência cognitiva, estabelecendo assim correspondência com as necessidades epistêmicas das crenças em teorias da conspiração (Douglas et al., 2017); (3) pessoas que pontuam alto em valores interativos endossarão mais crenças em teorias da conspiração. Por fim, para formulação da terceira hipótese, considerou-se a ideia de que o endosso às teorias conspiratórias está atrelado à necessidade social de manter uma imagem positiva de si e do grupo de pertença (Uscinski & Parent, 2014).

Em termos gerais, o fundamento destas hipóteses é que pessoas que priorizam valores idealistas costumam estar mais abertas à experiências, promovendo maior justiça social e acolhendo opiniões de terceiros (Gouveia, 2013). Nesta direção, os valores de experimentação, interativos e suprapessoais, que compartilham um tipo de motivador idealista, funcionam como um condão de promover mudanças, de modo que as pessoas que os priorizam buscam experiências diversas, estando abertas a conhecer e pensar acerca de formas diferentes de entender a realidade (Freires, Gouveia, Bertolotti & Ribas, 2014). Portanto, isso parece coerente com elaborar e endossar crenças em teorias conspiratórias.

Participantes

Participou do estudo uma amostra não probabilística, composta por 205 estudantes universitário de instituição pública de João Pessoa. Estes tinham idades que variam de 18 a 49 anos (M = 21.7; DP = 5.14), sendo a maioria do sexo feminino (56.6%), solteira (92.2%), católica (35.6%) e heterossexual (78%), autodeclarando-se de classe socioeconômica média (54.6%).

Instrumentos

Além de perguntas demográficas (como idade, sexo, orientação sexual e estado civil), que foram introduzidas ao final, os participantes responderam um questionário composto pelas seguintes medidas:

Escala de Crenças Gerais Conspiratórias. Originalmente elaborada por Rezende et al. (2018, no prelo), esta escala é composta por 15 itens distribuídos em cinco componentes: manipulação farmacêutica (e.g., Experiências envolvendo novos medicamentos são realizados nos cidadãos sem seu consentimento; α = 0.74), conspirações globais (e.g., Alguns atos de violência são financiados pelo próprio governo; α = 0.80), manipulação de grupos secretos (e.g., Grupos anônimos controlam a política mundial; α = 0.80), encobrimento de contato extraterrestre (e.g., Missões espaciais são forjadas para que os cidadãos não descubram a existência de alienígenas; α = 0.92) e controle de informações (e.g., O governo esconde da população geral muitos segredos importantes; α = 0,60). Após ler cada item, o respondente indica seu grau de concordância/discordância em escala tipo Likert, variando de 1 (Discordo totalmente) a 5 (Concordo totalmente). Este instrumento apresentou indicadores de ajustes considerados aceitáveis [e.g., CFI = 0.96, RMSEA = 0.06 (90% IC = 0.043-0.078)] para o contexto brasileiro.

Questionário dos Valores Básicos. Reúne 18 itens ou valores específicos, cada um apresentando dois descritores (e.g., Apoio social. Obter ajuda quando a necessite; sentir que não está só no mundo), sendo respondidos em escala de sete pontos, variando de 1 (Totalmente não importante) a 7 (Totalmente importante). Este instrumento apresentou indicadores de ajustes aceitáveis [e.g., GFI = 0.92, RMSEA = 0.07 (90% IC = 0.07-0.08)] na realidade brasileira, além de indicadores de consistência interna que, no conjunto, são adequados: os alfas de Cronbach das subfunções (valores básicos) variaram de 0.48 (interativa) a 0.63 (normativa), enquanto os índices de homogeneidade (correlação média inter-itens) ficaram entre 0.24 (interativa) e 0.38 (normativa) (Medeiros, 2011).

Procedimento

A coleta de dados teve lugar em uma universidade pública, de acordo com as seguintes etapas: (a) levantamento de e-mails de docentes responsáveis pelas disciplinas; (b) envio de mensagem solicitando a disponibilização de turmas para a coleta de dados e definição de horário de conveniência; e (c) coleta de dados propriamente dita. Neste caso, os aplicadores se apresentavam aos participantes e explicitavam os objetivos da pesquisa, ressaltando o anonimato da participação, informando-lhes sobre a possibilidade de desistirem da participação sem qualquer ônus. Apesar de ter ocorrido em uma ambiente coletivo de sala de aula, as respostas dos participantes ocorreram de forma individual. Levou-se em consideração os procedimentos éticos de acordo com a resolução 510/16, com a devida aprovação do comitê de ética (CAAE: 76972917800005188). No geral, os participantes levaram cerca de 20 minutos para o término do estudo.

Análise dos Dados

Para análise dos dados utilizou-se o Software estatístico SPSS (versão 21). Inicialmente foram realizadas estatísticas descritivas (medias de tendência central, dispersão e frequência) a fim de caracterizar o perfil demográfico da amostra. Posteriormente foram realizadas correlações de r de Pearson para verificar a relação entre as crenças em teorias da conspiração e as subfunções valorativas. Por fim, empregou-se a análise de regressão múltipla (método de stepwise) para verificar o poder preditivo dos valores nas crenças conspiratórias.

Resultados

Inicialmente, com a finalidade de testar as hipóteses deste estudo, computou-se a pontuação total para a medida de crenças em teorias da conspiração, somando-se os 15 itens da escala. Posteriormente, calcularam-se as pontuações específicas desta medida, isto é, para cada um de seus cinco componentes, conforme indicado em instrumentos. Calculadas as pontuações totais de cada subfunção/valor básico, procurou-se correlacioná-las com aquelas de crenças em teorias da conspiração. Os resultados podem ser observados na tabela 1 a seguir.

No que diz respeito às três hipóteses deste estudo, todas foram corroboradas. Especificamente, as correlações das crenças em teorias conspiratórias, como avaliadas a partir da pontuação total da medida correspondente, foram todas positivas e significativas (p < 0.05) com as subfunções de valores idealistas ou humanitários: experimentação (r = 0.23), suprapessoal (r = 0.22) e interativa (r = 0.14). Ressalta-se, ainda, que a pontuação no valor realização se correlacionou nesses mesmos termos com tais crenças (r = 0.16). Quanto aos componentes específicos da medida de crenças, observou-se o seguinte:

Tabela 1
Correlatos entre Valores Humanos e Crenças em Teorias da Conspiração
Correlatos entre Valores Humanos e Crenças
em Teorias da Conspiração

Nota. *p < 0.05; **p < 0.001.

Manipulação farmacêutica. Esta dimensão se correlacionou com quatro das seis subfunções valorativas, repetindo o mesmo padrão observado para a pontuação total, isto é, os valores idealistas (experimentação, suprapessoais e interativos), além daqueles de realização.

Conspirações globais. Estas crenças se correlacionaram exclusivamente com os valores que representam um motivador humanitário, isto é, valores idealistas, destacando-se com maior magnitude aqueles de experimentação, embora também os suprapessoais e interativos tenham sido significativos.

Manipulação de grupos secretos. Este componente apenas se correlacionou com dois valores, sendo os menos congruentes na estrutura valorativa, correspondendo àqueles de experimentação e normativos. Porém, com estes últimos, as crenças em teorias conspiratórias se correlacionaram mais fortemente.

Encobrimento de contato extraterrestre. Dois, dos três valores básicos idealistas, correlacionaramse diretamente com as pontuações de crenças em teorias conspiratórias, correspondendo aos valores de experimentação e suprapessoais. Porém, além deles, observou-se correlação significativa e na mesma direção com o valor realização.

Controle de informações. Este último componente de crenças em teorias da conspiração, correlacionou-se apenas com os valores interativos, reproduzindo o padrão e a magnitude observados para a pontuação total dessas crenças.

Como último passo, buscou-se verificar o poder preditivo das subfunções valorativas na explicação das crenças conspiratórias. Para cumprir tal objetivo, adotou-se a análise de regressão linear múltipla, especificamente, o método stepwise, a fim de dirimir o efeito de multicolinearidade entre as variáveis. A partir disso, a pontuação total das crenças conspiratórias foram tidas como variável critério, e as subfunções valorativos como variáveis explicadoras. Os resultados correspondentes são mostrados na tabela 2 a seguir.

Tabela 2
Regressão linear da crença em teorias da conspiração, tendo os valores como preditores
Regressão linear da crença em teorias da
conspiração, tendo os valores como preditores

Notas. * p < 0.05; **p < 0.001

Os resultados indicaram que duas únicas subfunções (suprapessoal e experimentação) lograram explicar a variação em tais crenças [F (2, 202) = 8.22, p < 0.001; R² ajustado = 0.06]. Especifica-mente, estes valores contribuíram de forma positiva para a pontuação na dimensão geral de crenças em teorias da conspiração [suprapessoal (β = 0.22) e experimentação (β = 0.23)].

Discussão

O estudo em questão buscou analisar a relação entre valores humanos e as crenças em teorias da conspiração. Acredita-se que este objetivo tenha sido alcançado. No geral, os valores têm um papel importante em explicar tais crenças, reforçando a importância e centralidade desse construto no sistema cognitivo dos indivíduos (Gouveia, 2016; Rokeach, 1973). Não obstante, as crenças em teorias da conspiração não podem ser reduzidas aos valores humanos; outros fatores explicadores precisarão ser explorados, incluindo aqueles de ordem pessoal (e.g., traços de personalidade, estados afetivos), social (e.g., representações sociais, crença no mundo justo) e macrossocial (e.g., indicadores de desenvolvimento humano, estabilidade político-social). Porém, cabe discutir aqui os principais achados deste estudo.

Levando-se em consideração os postulados da teoria funcionalista dos valores humanos (e.g., Gouveia, 2013, 2016; Gouveia et al., 2014, 2015), os valores têm funções que permitem explicar como atuam em dado contexto e influenciam certas variáveis. Uma dessas funções compreende o tipo de motivador, existindo dois tipos principais: humanitário, também nomeado como abstrato e idealista, e materialista, que pode ser descrito ainda como concreto e pragmático. Enquanto que pessoas que adotam valores humanitários costumam ser mais abertas ao novo, a experimentar ideias e opiniões diferentes, convivendo e aceitando diferenças (Freires et al., 2014; Gouveia, 2016), aquelas que priorizam os valores materialistas costumam ser mais rígidas, aceitando com mais facilidade a hierarquia nas relações interpessoais e se identificando com grupos tradicionais (Gouveia, 2016; Gouveia, Albuquerque, Clemente & Espinosa, 2002). Portanto, os resultados deste estudo foram na direção esperada, indicando que quem prioriza valores humanitários tende a ser mais provável concordar com crenças em teorias da conspiração. Cabe considerar, entretanto, cada valor básico por separado.

No que concerne a subfunção experimentação, observou-se uma relação positiva e significativa com as crenças em teorias da conspiração. Tal resultado pode ser fundamentado a partir das características que compõem essa subfunção, tais como a não conformação com regras socialmente estabelecidas (e.g., tradição, obediência) e a busca de novas ideias que contestem as normas e explicações convencionais sobre os fatos (Gouveia, 2016). Tais resultados mostram conformidade com estudos que indicam que a mentalidade conspiratória está associada a atitudes negativas em relação ao governo (Brotherton & French, 2014), desconfiança política (Jolley & Douglas, 2014), ações desfavoráveis contra indivíduos e grupos que ocupam altos cargos de poder e autoridade (Imhoff & Bruder, 2014), reinvindicação por transparência política (Swami & Coles, 2010) e contestação de estruturas sociais dominantes (Sapountzis & Condor, 2013).

Em paralelo com estes resultados, Aloha (2017) em um estudo que tinha como objetivo verificar a associação entre valores humanos e a prontidão para questionar pontos de vista de especialistas, mostrou que os indivíduos que endossavam valores hedonistas (modelo de Schwartz), dimensão que apresenta conteúdo similar com os valores de experimentação, tenderam a contestar em maior medida o ponto de vista dos especialistas, indo em busca de informações alternativas que justificasse seu ponto de vista contrário.

Os valores suprapessoais, em razão das necessidades em que se fundamentam (e.g., cognitivas, autorrealização; Gouveia, 2013), são a própria essência das crenças em teorias da conspiração, que procuram informações atualizadas e diversas sobre eventos presentes (Bessi et al., 2015; van Prooijen & Acker, 2015). Ademais, estima-se que acreditar em teorias da conspiração pode ajudar a fornecer um senso de estrutura e resposta aos eventos que ocorrem no meio social (Oliver & Wood, 2014; van Prooijen & Jostmann, 2013), coerente com os que endossam valores suprapessoais, que espera ter uma visão mais ampla e integrada do mundo, comumente evidenciando maior maturidade (Gouveia et al., 2015).

Coerente com os estudos da literatura, os resultados da presente pesquisa convergem com a ideia de que pessoas guiadas pela subfunção suprapessoal apresentam maior necessidade de cognição (Gouveia, 2013).A esse respeito, Newheiser, Farias e Tausch (2011), tomando como base as necessidades epistêmicas, pontuam que o desejo dos indivíduos de entender o mundo social está intimamente relacionado com a necessidade de ter controle sobre o seu meio ambiente. Além disso, estudos mostram que fenômenos que estão intimamente associados à ameaça de controle, tais como ansiedade da morte (Newheiser, Farias & Tausch, 2011), incerteza cognitiva (van Prooijen & Jostmann, 2013), ambivalência atitudinal (van Harreveld, Rutjens, Schneider, Nohlen & Keskinis, 2014) e ameaça de controle social (van Prooijen & Acker, 2015), exercem influência significativa no endosso a teorias da conspiração.

Em direção similar, Moulding et al. (2016) verificaram que pensamentos conspiratórios estiveram positivamente correlacionados com a intolerância à incerteza, evidenciando que a necessidade de explicar um fenômeno que é considerado “inexplicável” faz com que os indivíduos sustentem ideias conspiratórias para amenizar o sentimento de incerteza. Isso sugere que pessoas com baixa tolerância para ambiguidade ou com alta intolerância à incerteza, podem preferir explicações simplificadas engendradas por crenças conspiratórias (Galliford & Furnham, 2017).

Por fim, quanto aos valores interativos, a literatura tem indicado que buscar explicações pautadas em teorias da conspiração pode ter sustentação em necessidades sociais (Douglas et al., 2017; Sapountzis & Condor, 2013; Uscinski & Parent, 2014). É possível que se busque manter uma imagem positiva de si mesmo, mas também de seus pares. A propósito, Cichocka et al. (2016) mostraram que as teorias da conspiração buscam a valorização do eu e do grupo, atribuindo a culpa dos resultados negativos aos exogrupos, que são considerados ameaçadores (Bilewicz, Cichocka & Soral, 2015), poderosos (Kofta & Sedek, 2005) e malévolos (Imhoff & Bruder, 2014). Este aspecto, por certo, também contribui para explicar a relação de tais crenças com outro valor social, como se discute a seguir.

A subfunção normativa, em princípio de forma inesperada, também se correlacionou com as crenças em teorias da conspiração. Concretamente, sua correlação se deu com o componente de crenças denominado como manipulação de grupos secretos. Entretanto, há que se considerar a especificidade do conteúdo deste componente (e.g., Grupos anônimos controlam a política mundial; um grupo secreto de pessoas é responsável por tomar todas as decisões mundiais importantes). Portanto, parece ressaltada a dimensão de identidade grupal ou social, contrastando o grupo de pertença (e.g., nós, nosso grupo, a gente) com um exogrupo (e.g., eles, o grupo secreto, esse povo estranho), que é sempre desvalorizado e responsabilizado por tudo de ruim (Uscinski & Parent, 2014; Zonis & Joseph, 1994). Os valores normativos (e.g., tradição, obediência, ordem social) são marcadores importantes de identidade social, isto é, pessoas que os priorizam costumam se identificar mais com grupos próximos (Gouveia et al., 2002).

O fato de os valores de realização se correlacionarem positivamente com as crenças em teorias da conspiração, embora não previsto, pode encontrar explicação no tipo de orientação destes valores. O foco é intraindividual, isto é, o indivíduo por ele mesmo (Gouveia et al., 2014), o que pode indicar alguma disposição a agir com independência de grupos ou pessoas convencionais, sobretudo quando os próprios interesses são ameaçados (manipulação farmacêutica), ou o indivíduo se sente em situação de incerteza, privado de informações sobre assuntos que fogem ao seu controle (encobrimento de contato extraterrestre). Em qualquer caso, haveria que replicar esses achados; não se descartam flutuações em razão de características amostrais.

Em paralelo com a discussão acerca da flutuação dos dados devido à características amostrais, Hanel y Vione (2016), utilizando variáveis atitudinais e traços de personalidade, avaliaram em 59 países as possíveis diferenças entre amostras formadas por estudantes universitários e o público em geral. Os resultados indicaram que as diferenças entre essas amostras eram em geral parcialmente incoerentes e contraditórias quando comparadas com estudos anteriores. Além disso, os autores ressaltam que a generalização de dados provenientes de estudantes para o público em geral pode ser problemática, uma vez que estudantes universitários são mais homogêneos em relação à classe econômica e nível educacional, enquanto o público em geral é mais heterogêneo quanto a essas variáveis. Pensando na amostra do presente estudo, é possível especular que, caso a amostra fosse formada unicamente por indivíduos da população geral, haveria uma menor ênfase na subfunção realização e maior endosso na subfunção normativa, uma vez que indivíduos mais velhos priorizam em maior medida as normas sociais e a tradição. Todavia, como o presente estudo é formado por uma amostra exclusivamente de jovens universitários com uma média de idade de 21 anos, há uma ênfase maior na obtenção de estabilidade pessoal, como o término do curso superior e a busca por emprego na área de formação (Vione, 2012).

Os valores de existência não parecem apresentar qualquer contribuição para compreender a adesão às crenças em teorias da conspiração. Não obstante, neste ponto é importante ter em conta a natureza da amostra, formada por jovens estudantes universitários, que, em média, estima-se que gozam de melhores condições de vida do que as pessoas da população geral. Entretanto, talvez em contextos variados, isto é, se fossem consideradas pessoas que vivenciassem graus variados de escassez, os resultados poderiam ter sido outros, pois haveria maior variabilidade de endosso de existência (Fischer, Milfont & Gouveia, 2011). Neste contexto, talvez lições importantes possam ser tomadas de Kohn (1969), quando trata da dimensão autodireção-conformidade, e Inglehart (1977), quando se refere à dimensão materialismo-pós-materialismo. É possível que pessoas socializadas em contextos em que as ideias são importantes, sendo guiados pela autodireção e o pós-materialismo, a existência pode significar contestar o status quo, pensando em formas alternativas de ver o mundo; porém, aquelas socializadas em contextos em que precisam superar questões concretas, tendo que se conformar e pensar em termos materialistas, existência pode significar aceitar o que as autoridades afirmam. Contudo, estas conjeturas precisam ser analisadas, reunindo evidências empíricas que possibilitem testá-las.

Em síntese, os valores parecem ser uma base para crenças em teorias da conspiração, embora não sejam a única. A análise de regressão mostrou que dois são os valores básicos mais importantes para predizer tais crenças: experimentação e suprapessoal. Isso pode ter uma aplicação prática, evidenciando que as teorias da conspiração têm uma função ou cumprem uma necessidade não anunciada por Douglas et al. (2017), que é de autorrealização ou propriamente de crescimento, evolução das pessoas e formas de viver e se relacionar em sociedade.

Considerações finais

Apesar de alcançados os objetivos deste estudo, reconhecem-se limitações potenciais, inclusive como já referido, em relação à especificidade da amostra, que considerou apenas estudantes universitários. Porém, um outro aspecto que precisa ser ponderado é a natureza das medidas realizadas, que foram de autorrelato, podendo introduzir viés decorrente de desejabilidade social, o que poderia ser amenizado contando com medidas implícitas (Gouveia, Athayde, Mendes & Freire, 2012), mas se recomendaria também controlar o efeito deste viés de resposta (Soares et al., 2016). É importante ressaltar, ainda, que o delineamento da pesquisa não permite afirmações de causa e efeito (Pereira, Sindic & Camino, 2013), não sendo possível afirmar, por exemplo, que quem se guia por valores humanitários endossará crenças em teorias da conspiração. Neste sentido, estudos futuros precisarão replicar os achados aqui descritos, atestando sua adequação.

Por fim, quanto aos novos estudos, além de sanar os potenciais problemas previamente indicados, poder-se-á avaliar a influência do nível educacional no endosso de crenças de teorias da conspiração. A literatura da área indica uma relação negativa entre alto nível educacional e crenças em teorias da conspiração, tal relação se deve ao fato de que ao longo da trajetória educacional as pessoas aprendam a resolver problemas de forma independente, adquirindo habilidades sociais para influenciar seu ambiente, o que as faz mais ativas no controle de suas vidas, diminuindo, assim, o sentimento de impotência e, consequentemente, o endosso às teorias conspiratórias (Mirowsky & Ross, 2003; Whitson, Galinsky & Kay 2015). Poderá ser também interessante realizar estudos experimentais que comprovem o efeito da exposição a teorias da conspiração em comportamentos cívicos (e.g., engajamento político, preocupação ambiental). Estudos prévios sugerem que esta exposição provoca sentimentos de desconfiança com o governo (Kim & Cao, 2016), menor envolvimento em políticas de vacina (Stojanov, 2015) e redução do engajamento em comportamentos pró-ambientais (Jolley & Douglas, 2014).

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Informação adicional:

Para citar este artigo: Rezende, A. T., Gouveia, V. V., do Nascimento, A. M., Vilar, R., & Oliveira, K. G. (2019). Correlatos valorativos de crenças em teorias da conspiração. Avances en Psicología Latinoamericana, 37(2). 219-234. Doi: https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.7211