Avances en Psicología Latinoamericana
ISSN:1794-4724 | eISSN:2145-4515

O projeto Vigotskiano para uma psicologia científica: anotações sobre “O Significado Histórico da Crise da Psicologia”*

The Vygotskian Project for a Scientific Psychology: Notes on “The Historical Meaning of the Crisis in Psychology”

El proyecto vigotskiano para una psicología científica: apuntes sobre “El Significado histórico de la crisis de la psicología

Eduardo Moura da Costa, João Batista Martins

O projeto Vigotskiano para uma psicologia científica: anotações sobre “O Significado Histórico da Crise da Psicologia”*

Avances en Psicología Latinoamericana, vol. 36, núm. 3, 2018

Universidad del Rosario

Eduardo Moura da Costa **

Universidade Estadual Paulista —UNESP—, Brasil


João Batista Martins

Universidade Estadual Paulista —UNESP—, Brasil


Recepção: Agosto 23, 2017

Aprovação: Março 27, 2018

Resumo: O presente artigo tem como objetivo apresentar o desdobramento de algumas das principais formulações sobre o método da psicologia desenvolvidas por Vigotski no seu manuscrito “O significado histórico da crise da psicologia”, concluído em 1927 e publicado pela primeira vez em 1982. A partir da seleção e leitura de alguns textos escritos após o manuscrito, empreendemos uma análise comparativa para demonstrar que, apesar do manuscrito não ter sido preparado para publicação, várias de suas ideias essenciais estão contidas na produção subsequente. Seu prognóstico para a crise da psicologia vem da adoção da concepção materialista da realidade e do método analítico de cognição dos fatos. Apresentamos sua visão materialista dos fenômenos psicológicos, bem como as bases do método analítico e não descritivo desses fenômenos. Apontamos que o “método genético-experimental” é a base para suas pesquisas futuras. Por fim, pontuamos que sua obra deve ser lida historicamente, isto é, muitos princípios fundamentais apresentados no manuscrito já estavam presentes em pesquisas anteriores.

Palavras-chave Vigotski, crise da psicologia, método da psicologia.

Resumen: El presente artículo tiene como objetivo presentar el despliegue de algunas de las principales formulaciones sobre el método de la psicología desarrolladas por Vygotsky en su manuscrito “El significado histórico de la crisis de la psicología” concluido en 1927 y publicado por primera vez en 1982. A partir de la selección y lectura de algunos textos escritos después del manuscrito, emprendemos un análisis comparativo para demostrar que, a pesar de que el manuscrito no fue preparado para publicación, varias de sus ideas esenciales están contenidas en la producción subsecuente. Su pronóstico para la crisis de la psicología viene de la adopción de la concepción materialista de la realidad y del método analítico de cognición de los hechos. Presentamos su visión materialista de los fenómenos psicológicos, así como las bases del método analítico y no descriptivo de esos fenómenos. Apuntamos que el “método genético- experimental” es la base para sus investigaciones futuras. Finalmente, afirmamos que su obra debe ser leída históricamente, esto quiere decir que, muchos principios fundamentales presentados en el manuscrito ya estaban presentes en investigaciones anteriores.

Palabras clave: Vygotsky, crisis de la psicología, método de la psicología.

Abstract: The present essay aims to present the unfolding of some of the main formulations on the method of psychology developed by Vygotsky in his manuscript “The historical meaning of the crisis in psychology”, concluded in 1927 and first published in 1982. From the selection and reading of some texts written after the manuscript, we perform a comparative analysis to demonstrate that although the manuscript was not prepared for publication by the author, several of his ideas are contained in the subsequent production. His prognosis for the crisis of psychology comes from the adoption of the materialist conception of reality and from the analytic method of cognition of facts. We present what their materialist view of psychological phenomena consists of, as well as what constitutes an analytical and not descriptive method of these phenomena. We point out that the “genetic- experimental method” is the basis for their future research. Finally, we point out that his work must be read historically, that is, many fundamental principles presented in the manuscript were already present in previous research.

Keywords: Vygotsky, crisis of psychology, method of psychology.

Introdução

Dificilmente um pesquisador que se propõe a discutir questões referentes ao método da psicologia vigotskiana não o faz sem, ao menos, mencionar o texto “O Significado Histórico da Crise da Psicologia” 1 (a partir de agora SHCP). Isto porque este manuscrito contém os alicerces filosóficos e metodológicos do projeto de psicologia científica proposto por Vigotski, conhecido posteriormente como Psicologia Histórico-Cultural. Por sua importância, existem inúmeras publicações que o tomam como objeto de estudo (por exemplo, Dafermos, 2014; Hyman, 2011; Lordelo, 2011). Essas publicações focalizam a situação da crise da psicologia. Neste trabalho buscamos outro caminho, qual seja, discutir os desdobramentos metodológicos formulados no manuscrito “O Significado Histórico da Crise da Psicologia”, que foram fundamentais para o desenvolvimento do seu projeto de uma psicologia científica.

Segundo Iaroshevsky e Gurgenidze (2004), as contribuições de Vigotski não se limitam à formulação da teoria histórico-cultural em psicologia, mas procedem da sua orientação metodológica. Seu mérito, segundo os autores, foi utilizar a dialética —em sua perspectiva marxista— como instrumento para transformar, a partir de dentro, a investigação dos fenômenos psicológicos. Isso teria possibilitado ao autor descobrir certas facetas da realidade psíquica que seriam impotentes a outros procedimentos de obtenção de conhecimento.

Esse novo método do conhecimento, denominada também em filosofia de epistemologia, surgiu, como salienta González Rey (2013), de sua nova definição ontológica, isto é, de uma nova concepção do fenômeno psicológico, o qual era entendido, em sua época, através do reducionismo mecanicista. Esse reducionismo compreendia que a psique era um mero efeito de outros processos “objetivos”, sejam eles corporais ou ambientais. A nova definição ontológica desenvolvida por Vigotski já no seu primeiro livro, “Psicologia da arte”, compreendia a psique não através do reducionismo mecanicista, mas como um fenômeno de natureza social e histórica. Contudo, ainda segundo González Rey (2013), tal concepção não se manteve na produção seguinte, regredindo na “fase instrumental” a uma concepção mecanicista. Isso pode ser explicado porque a nova definição ontológica exigiu um novo método do conhecimento e uma nova metodologia de pesquisa, as quais foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas na medida em que se realizavam as pesquisas empíricas. É justamente sobre as elaborações sobre o método, suscitadas pela concepção ontológica, que versa o presente artigo. Nosso objetivo será discutir a criação de um novo método do conhecimento ou epistemologia, para suprir as exigências do novo estatuto ontológico da psique.

Como relata Zavershneva (2012), o manuscrito do SHCP foi escrito entre 1926 e 1927 e sua importância vem do fato de que representa um ponto de virada no pensamento do autor, uma vez que, desde meados da década de 1920, ele já vinha se afastando das concepções reflexológicas e reactológicas. Vale lembrar que, já em 1925, o autor apontava os limites da reflexologia (Vygotski, 1925/1997c; 2 Martins, 2010). Contudo, como teremos oportunidade de mencionar, o princípio do reflexo condicionado foi utilizado por ele até o início da década de 1930.

Zavershneva (2012) também aponta uma dificuldade em se datar o documento. Existia a crença de que ele havia sido escrito quando Vigotski estava internado no hospital de Zakharino, enquanto se tratava de uma crise de tuberculose, em 1926. Essa ideia teve início com o testemunho de Alexander Luria, seu companheiro do Instituto de Psicologia de Moscou, mas não encontra base documental. Segundo a autora, nesse período, Vigotski teria escrito apenas algumas notas preliminares ao que seria o SHCP. Ou seja, o manuscrito foi concebido no hospital, mas escrito depois de sair dele. Soma- se a essa hipótese evidências de que, no final da primavera de 1926, Vigotski ainda estava terminando o livro “Psicologia da arte” e elaborando material adicional para ele. As referências contidas no manuscrito também corroboram a tese de que foi escrito entre 1926 e 1927. Além disso, há evidências que Vigotski ministrou uma palestra interna para o seu grupo de pesquisa sobre a crise da psicologia no início de 1927, fato que acaba por reforçar a tese da autora.

Para Veresov (2010), existiriam duas razões para estudarmos o legado de Vigotski: uma histórica, e a outra, metodológica. A razão histórica é que já no meio da década de 1920 ele fez uma profunda análise da crise em que se encontrava a psicologia. Do ponto de vista metodológico, a importância do seu legado vem do fato dele ter desenvolvido princípios metodológicos para tentar superar tal estado de crise. Ainda conforme o autor, as criações metodológicas de Vigotski ou permanecem desconhecidas na psicologia hegemônica contemporânea ou foram mal compreendidas. Isso ocorreu porque esses conceitos não eram compreendidos dentro da totalidade da produção do autor nem eram respeitados os fundamentos filosóficos que deram origem a eles. Veresov (2010) indica, como exemplo das principais concepções teórico-metodológicas de Vigotski, que foram mal compreendidas, simplificadas ou fragmentadas (descontextualizadas do sistema conceitual), a lei genética geral do desenvolvimento cultural e o conceito de zona de desenvolvimento proximal.

O texto SHCP é um acerto de contas com a psicologia de sua época, tanto com relação ao que se produzia na URSS como no ocidente. Em carta enviada a Luria em 5 de março de 1926, portanto antes do manuscrito SHCP, Vigotski (2007) expressa sua preocupação com a “causa”, qual seja, o esforço coletivo para reformular a psicologia, fato que outros, como Kornilov, não estavam dispostos a pensar.

Vigotski percebeu a situação de crise da psicologia e fez uma análise detalhada de suas causas. No entanto, a ideia de crise da psicologia não era nova, nem Vigotski foi o primeiro a diagnosticá-la. Entretanto, a originalidade de sua análise deu-se com a criação de uma proposta histórico-cultural como alternativa para a crise. Assim, ele buscou elaborar, juntamente com seus colaboradores, uma abordagem dos fenômenos psicológicos que captasse as formas mais desenvolvidas das funções psicológicas humanas, isto é, um método que fosse capaz de analisar a interconexão entre mente e cérebro, interconexão esta inscrita e produzida nas relações sociais, pautada, sobretudo, no método explicativo e não somente descritivo (Vygotski, 2000b [1931]). Adiante trataremos dessa diferenciação, mas podemos adiantar que para o autor explicar significa estabelecer conexão entre vários fatos, isto é, ir além do fenômeno observado. Nesse processo, o pesquisador se vê obrigado a situar os fenômenos observados num contexto mais amplo do que o da disciplina particular (Vigotski, 2004a [1982]).

O SHCP, tal como conhecemos hoje, somente veio à tona em 1982, com o início da publicação das obras escolhidas de Vigotski na Rússia. Vigotski não preparou o texto para publicação, apesar das ideias contidas no manuscrito aparecerem em outros textos, tais como: “A ciência da psicologia” (Vygotsky, 2012 [1928]), “A psique, a consciência e o inconsciente” (Vigotski, 2004b [1930]), “Psicologia estrutural” (1930) e “Eidética” (1930) (estes dois últimos indicados por Zavershneva, 2012). Além dessas publicações, as ideias apresentadas no SHCP também aparecem em praticamente todos os textos que discutem os problemas de método da psicologia, tais como “História do desenvolvimento das funções psicológicas superiores” (Vygotski, 2000a [1931]), Prefácio ao livro de Leontiev “O desenvolvimento da memória” (Vigotski, 2004c [1931]), “A questão da pedologia e as ciências vizinhas” (no prelo [1931]) e a monografia “Teoria das emoções” (Vigotsky, 2004d [1933]).

Apesar da importância do SHCP para a história da psicologia e para a teoria desenvolvida por Vigotski, sua primeira publicação em russo não obteve o cuidado que uma obra dessa envergadura mereceria. Consequentemente, as traduções dessa edição para o inglês, espanhol e português possuem os mesmos problemas encontrados na publicação original. Soma-se a isso às falhas decorrentes do processo de tradução.

Somente recentemente foi possível termos conhecimento das condições físicas do manuscrito, da natureza do seu conteúdo, bem como dos problemas de sua primeira publicação. Segundo Zavershneva e Osipov (Zavershneva, 2012; Zavershneva & Osipov, 2012), fica evidente que o texto não chegou a ser preparado para publicação em razão das seguintes condições: sua escrita é apressada, pois não há sinais de edição e não há referências; também existem alguns problemas nas citações. Além desses sinais, há notas críticas nas margens do texto de autoria não identificada e o fato de que a última página do manuscrito é uma cópia feita à caneta, datada de meados do século XX.

Existem enormes discrepâncias entre a publicação do SHCP de 1982 e o manuscrito original como atestam Zavershneva e Osipov (2012). Uma das divergências é a referência a textos de Lenin, Marx, Pavlov e outros, que somente foram publicados posteriormente à escrita do texto. Ademais, a parte final do manuscrito não corresponde à edição publicada. Isso certamente ocorreu em razão das inúmeras referências a Trotsky. Provavelmente, as referências a Trotsky em outro texto, “Psicologia pedagógica”, também foram a razão para que as obras de Vigotski não fossem publicadas durante os vinte anos seguintes a sua morte (Fraser & Yasnitsky, 2016). Além desses aspectos mais visíveis, uma análise pormenorizada evidencia outros problemas mais graves, tais como omissões de termos como pedologia, remoção da maioria das observações críticas ligadas a Engels, erros de edição como a confusão entre Kant e Comte, remoção de indicações a citações, abreviação de citações, substituições (por exemplo, tem-se a substituição de “negativo” por “positivo” e de “pedologia” por “psicologia infantil”). Em resumo, os autores identificam inúmeros erros de edição, sendo os principais a remoção de referências a autores, publicações ou termos, erros de substituições, e o mais grave, adições. Nesta última categoria se encontra a adição de um parágrafo na última página que não está no manuscrito. Portanto, os problemas apresentados na publicação russa ainda expressam o contexto histórico marcado pelo stalinismo 3 .

Dada a importância do SHCP para a compreensão da obra de Vigotski e para a história da psicologia, faremos a seguir uma breve apresentação das suas principais formulações epistemológicas que se desdobraram ao longo do processo de construção da teoria histórico-cultural. Elegemos essas formulações baseando-nos na aparição delas em produções subsequentes ao manuscrito, o que reflete, de certa forma, o amadurecimento das ideias contidas no SHCP.

Crise da psicologia e o caminho para sua superação

Um dos núcleos de toda a teorização, empreendida por Vigotski no SHCP, aponta para o fato de que a crise da psicologia reside na existência de duas grandes tendências teóricas que caracterizariam as várias escolas psicológicas, que são representadas pela orientação idealista e materialista. Essa discussão forma a base do texto publicado com o título de “Ciência da Psicologia”, em 1928. Este artigo expressa de forma concisa a discussão sobre a crise advinda do que ele mesmo classifica como “guerra” entre essas duas tendências de pensamento.

Cabe registrar que a tensão entre os idealistas e os materialistas não é contemporânea à Vigotski, pois já era enunciada no período pré-revolucionário, por exemplo, por autores como Ivan Sechenov (1829-1905). Nesse sentido, Dupont (2009) nos esclarece que Sechenov desenvolveu um programa de pesquisa no campo da atividade nervosa superior que influenciou Pavlov. O famoso texto de Sechenov “Quem deve desenvolver a psicologia e como fazê-lo” foi uma marca na psicologia soviética porque é um manifesto materialista contra a psicologia “idealista”.

A conclusão que atravessa todo o SHCP e que também aparece no artigo de 1928 4 é que o caminho para a superação da crise entre idealismo e materialismo não seria a adoção de uma terceira via, mas sim a criação de uma psicologia de base marxista, ou seja, fundada no materialismo dialético. Como argumento para justificar sua formulação, Vigotski aponta, tanto no manuscrito quanto no artigo de 1928, que são as aplicações práticas da psicologia que iriam colocá-la a prova e levá-la ao caminho da verdade objetiva. Essa preocupação aparece já no primeiro parágrafo do SHCP, uma vez que o autor anuncia que os problemas colocados à psicología geral não vêm dos filósofos e nem dos psicólogos teóricos, mas dos psicólogos práticos, psiquiatras e psicotécnicos (Vigotski, 2004a [1982], p. 203).

Vigotski não foi o primeiro autor a constatar a separação da psicologia em duas grandes tendências. Ele próprio aponta vários autores, como Bretano, Stern, Natorp, Dilthey e Münsterberg, que constataram tal situação. A ideia de uma psicologia unificada também não foi uma proposta exclusiva de Vigotski, antes dele outros autores, como Bretano, já falavam sobre a necessidade de criação de tal psicologia (Vygotsky, 2012 [1928]). Para Vigotski, essas duas posições se misturaram ao longo dos séculos, desde a filosofia grega, e delinearam todo o desenvolvimento da psicologia.

No artigo de 1928, Vigotski parte do processo histórico da psicologia na Rússia (algo que não aparece sistematizado no SHCP) para construir sua perspectiva para a psicologia. O desenvolvimento da psicologia na Rússia teria seguido a tendência pendular que se processou no ocidente. Ela se desenvolveu através das discussões sobre a alma, fato que suscitou seu polo oposto, o surgimento de sua negação, dando origem a uma psicologia sem alma por meio da psicologia experimental e, aos poucos, voltou a incorporar elementos especulativos antes da Revolução de 1917. Somado a isso, Chelpanov, em 1914, teria discursado na inauguração do Instituto de Psicologia de Moscou na direção de unificação dessas duas formas de produção de conhecimento.

Pavlov, com sua descoberta do reflexo condicionado, foi o primeiro a desenvolver uma teoria do comportamento baseada na ciência natural, na Rússia. De acordo com Vigotski (2012 [1928]), antes da revolução, os psicólogos estudavam os fenômenos mentais e os fisiologistas estudavam as atividades nervosas. Após a revolução, as ideias de Pavlov ganharam força por conta do seu parentesco com as ideias revolucionárias. Na avaliação de Vigotski, a teoria do reflexo condicionado associava- se à concepção darwiniana da origem hereditária da organização dos animais com a concepção sobre a influência do meio no comportamento, ou seja, Pavlov demonstrou que a origem de todos os processos mentais tem origem “terrestre”.

Ao mapear o que outros autores disseram sobre a crise da psicologia, Vigotski (2004a [1982]) constatou que alguns a negaram e outros a perceberam, no entanto, estes deram um valor subjetivo a ela. Chelpanov e a maioria dos russos da velha escola negaram a crise. Watson, por exemplo, admitiu sua existência, mas via as outras teorias como erradas e a dele como a mais correta. Outros mais sentiram a crise do que compreenderam. Ainda em sua análise, foi Ebbinghaus quem definiu a crise com maior exatidão. O sentido da crise seria que existiam muitas psicologias que, ao tentarem se definir como uma psicologia geral, acabaram cada qual criando uma psicologia particular (Vigotski, 2004a [1982]).

Ainda no SHCP, Vigotski aponta para o desenvolvimento contraditório da psicologia, sobretudo, na sua tendência em tornar-se uma ciência natural. Vigotski deixa claro que não podemos confundir ciência natural com ciência biológica. A psicologia pode ser uma ciência natural sem ser biológica. Segundo ele, a contradição estaria no fato de que a psicologia desejava ser uma ciência natural, baseada na “empiria”, porém, ocupando-se de coisas completamente distintas das que se ocupam as ciências naturais (Vigotski, 2004a [1982]).

No SHCP, Vigotski demonstra que a busca por uma terceira via, fundindo, subordinando ou suprimindo uma delas, acabaria por evidenciar a crise da própria psicologia. Quanto a essa terceira via, Vigotski (2004a [1982]) comenta que os cegos ou ecléticos adotavam uma ou outra posição quando lhes convinham. Para o autor, as principais teorias que buscaram a terceira via foram a psicologia da Gestalt, o personalismo e a psicologia marxista mecanicista. O caminho para superação da crise não seria uma questão de acordo, mas, de ruptura, isto é, não culminará numa terceira psicologia, além das duas em luta, mas se faria sobre uma delas.

Tanto no manuscrito quanto no artigo de 1928, a psicologia marxista é compreendida como o caminho para a superação da crise e para o desenvolvimento da psicologia como ciência natural. Essa necessidade de aplicação do marxismo na psicologia seria uma ideia defendida por autores como Kornilov, Struminskii, Blonski e outros. Segundo Vigotski (2012 [1928]), a psicologia materialista se esforçava para ser uma psicologia social em primeiro lugar. Essa ideia já estava presente na discussão sobre o método da psicologia no livro “Psicologia da arte”, no qual Vigotski diz que a psicologia seria antes de tudo uma ciência social (Vigotski, 1999 [1925]). Criticando as teorias empiristas que compreendem o social como reunião de indivíduos, Vigotski afirma que o psiquismo de um indivíduo é socialmente condicionado. Portanto, o autor completa dizendo que seria o psiquismo desse indivíduo particular o que constitui o objeto da psicologia social. 5

Segundo avaliação de Vigotski (2004a [1982]), apresentada no manuscrito, o que se tinha feito até o momento era aplicação escolástica, lógico-formal ou verbal do materialismo dialético na psicologia. Para ele, os problemas que a psicologia iria se defrontar não poderiam ser encontrados nos textos de Marx, Engels ou Plekhanov, porque esses problemas não estavam dados para esses autores. Sendo assim, o que se devia buscar nos clássicos não era a solução de uma questão ou as hipóteses de trabalho, mas o método de construção ideal do fenômeno que se apresenta na realidade. Isso porque a questão do método, para ele, era o núcleo da crise. Como prognóstico para o desenvolvimento de uma psicologia marxista, o autor aponta

[…] que a única aplicação legítima do marxismo em psicologia seria a criação de uma psicologia geral cujos conceitos se formulem em dependência direta da dialética geral, porque essa psicologia nada seria além da dialética da psicologia; toda aplicação do marxismo à psicologia por outras vias, ou a partir de outros pressupostos, fora dessa formulação, conduzirá inevitavelmente a construções escolásticas ou verbalistas e a dissolver a dialética em pesquisas e testes; a raciocinar sobre as coisas baseando-se em seus traços externos, casuais e secundários; à perda total de todo critério objetivo e a tentar negar todas as tendências históricas no desenvolvimento da psicologia; a uma revolução simplesmente terminológica. (Vigotski, 2004a [1982], p. 392)

Diferentemente de autores como Binswanger e Kant, Vigotski aponta no SHCP que são as exigências da própria realidade que determinam os caminhos a serem percorridos pela ciência, isto é, diferentemente dos dois primeiros, não é a razão ou os métodos de conhecimento que determinam a realidade, mas é a realidade que determina o objeto e o método da ciência. Nesse sentido, seria totalmente impossível estudar os conceitos de qualquer ciência prescindindo das realidades representadas por esses conceitos (Vigotski, 2004a [1982]). Amparado em Engels, Vigotski diz que para a lógica dialética a metodologia das ciências é o reflexo da metodologia da realidade. Nesse sentido, os conceitos não seriam simplesmente abstrações, mas esquemas da realidade.

Para o autor, existiriam três fatos que sustentam que o germe da futura psicologia estava na psicologia aplicada. Em primeiro lugar, a prática obriga a psicologia a reestruturar seus princípios de forma que possam ser colocados à prova pela prática. Além disso, seria a prática que exige uma metodologia da ciência. O método seria um meio de cognição ou investigação, que seria determinado pelo objeto a ser investigado e pelos objetivos que o conduz. E nesse sentido, a prática reestrutura toda a metodologia da ciência. Por último, o autor atesta que a psicotécnica incita a ruptura e formaliza a psicologia real. A psiquiatria, da mesma forma, supera a psicologia idealista, pois para podermos tratar os doentes e curá-los não podemos nos basear na introspecção (Vigotski, 2004a [1982]).

O cerne dessa discussão se encontra na interpretação materialista da história, legada pelo marxismo que Vigotski adota no SHCP. Dado o fato de que a atividade científica é uma atividade do homem social dentre outras, os fatores externos, da vida social, também determinam o destino de uma ideia científica. No artigo de 1928, essa ideia surge quando Vigotski aponta que a vitória ou derrota das duas psicologias em litígio foi determinada pela ascensão ou queda de ondas sociopolíticas e que foram alimentadas por humores progressistas ou reacionários em cada período histórico (Vygotsky, 2012 [1928]). Em outras palavras, são as necessidades materiais, objetivas, de cada período histórico que movem a adoção de uma ou outra concepção psicológica, porém, de maneira dialética, é o seu sucesso ou fracasso, do ponto de vista prático, que irá determinar o grau de objetividade e verdade de uma dada teoria.

Compreender historicamente o desenvolvimento humano significa reconhecer que ele ocorre em saltos revolucionários, marcado por reviravoltas, e não pela linearidade. Nessa direção, Vigotski estabelece os limites da reflexologia, ou seja, apesar da sua importância para compreendermos a base biológica do comportamento animal, seria insuficiente para explicar o comportamento do homem civilizado, consciente. É sob essa perspectiva que Vigotski (2004a [1982]) critica o fato de Pavlov seguir o caminho de estudo do animal ao homem, e não do mais desenvolvido —o homem— para o menos desenvolvido —o animal—, conforme princípio metodológico estabelecido em Marx.

Nesse sentido, fica claro que a tarefa de Vigotski foi a de articular a dimensão biológica à histórica na compreensão do desenvolvimento humano, e tendo com eixo uma linha vertical. Em referência a Adler, no texto “O defeito e a compensação”, Vigotski (1997b [1927]) diz que a teoria dos reflexos condicionados traça a posição horizontal do homem, e, na sua visão, a teoria da supercompensação marcaria sua posição vertical. Em outros termos, Vigotski aponta que a linha horizontal é a linha que traça a continuidade entre nós, homens, em relação aos animais. Já a linha vertical representaria aquilo que eleva o homem de simples ser biológico, para ser social.

De forma resumida, a visão materialista histórica da psicologia, para Vigotski, advinda do entendimento da psique enquanto expressão da relação que o homem estabelece com o meio social e não como simples reflexo, baseia-se na internalização das relações sociais, isto é, na reconstrução interna de uma operação externa (Vygotski & Luria, 2007 [1984]). Tal posição é antagônica ao idealismo, uma vez que os idealistas estudavam os fenômenos psicológicos sem nenhuma relação com a base material da existência humana (Vigotski, 2004c [1931]). Portanto, Vigotski não só não negou a mente como acreditava ser possível estudá-la, compreendê-la como expressão da existência histórica e material do homem.

Sobre o método de análise dos fenômenos psicológicos

Como anunciamos anteriormente, a questão do dualismo da psicologia é um dos núcleos da discussão empreendida por Vigotski no SHCP. A forma de produção do conhecimento sobre o fenômeno psicológico também expressaria o dualismo ontológico, que, derivados da disputa entre concepções materialistas e idealistas sobre o fenômeno psicológico geram o método analítico e fenomenológico de acesso a esse fenômeno.

No artigo de 1928, Vigotski aponta que, apesar das diferentes interpretações sobre a crise, o fundamental é que existem duas formas de abordar a “vida mental”, e disso decorre a confusão do método e a própria cisão da psicologia. Em uma das formas podemos ver os fenômenos mentais como um dentre outros fenômenos e estudá-lo usando métodos científicos gerais. Para essa abordagem, o fenômeno seria visto como uma “cadeia objetivante”, determinada de causas e efeitos, que possuem leis que os regem e que seu objetivo final é a previsão e o domínio desse processo. A outra abordagem da vida mental parte do ponto de vista interno, subjetivo. O objetivo principal seria compreender o fenômeno como ele ocorre dentro de nós mesmos. Para tanto, se realizaria uma descrição dele, para se chegar mais próximo da experiência imediata. Nessa concepção, a mente seria independente das conexões com o mundo físico, como um mundo “autocontido”. Em síntese, uma visão é natural, materialista, psicologia objetiva, e a outra é metafísica, idealista ou psicologia subjetiva (Vygotsky, 2012 [1928]).

Para o autor, um dos principais problemas da psicologia diz respeito ao desprezo pelas consequências epistemológicas derivadas das concepções ontológicas. Vigotski (2004a [1982]) demonstra que a confusão entre o método analítico e o método fenomenológico advém da confusão entre o problema gnoseológico e ontológico. Na psicologia teria se confundido o fenômeno com a existência, isto é, identificavam o subjetivo com o psíquico (Vigotski, 2004a [1982]).

No SHCP, o tratamento do método de análise surge principalmente da crítica aos autores da sua época, tanto empiristas quanto idealistas, que tinham como base estudos que envolviam a percepção direta do fenômeno. Contrariamente, Vigotski (2004a [1982]) compreendia que o conhecimento e a percepção direta não coincidem em absoluto. O caminho para podermos estudar aquilo que não aparece diretamente é a reconstrução do fenômeno, isto é, a elaboração do objeto recorrendo ao método de explicar ou interpretar seus vestígios e influências. Este princípio contido no SHCP formou a base do que posteriormente Vigotski denominou como “método genético-experimental”.

Vigotski evidenciou que o método clássico estudava as formas de comportamento estáveis, já o método genético-experimental combinava as duas linhas de desenvolvimento humano, a linha biológica e a linha histórica. Tal método era objetivante, pois se centrava nas estruturas internas ocultas à observação direta (Vygotski & Luria, 2007 [1984]). A psicologia deveria ir além da experiência imediata, ultrapassar a ideia de que os fatos “dizem por si mesmos”. A interpretação não seria apenas uma necessidade, mas um modo de conhecimento libertador (Vigotski, 2004a [1982]).

Vigotski (2004a [1982]) aprofunda a discussão do método de análise quando passa para a crítica das teorias que optaram pela terceira via. O tratamento dessas teorias levou o autor a uma exposição mais detalhada do método analítico na crítica ao método fenomenológico de Husserl. A diferença entre o método analítico e o método fenomenológico seria que no primeiro se estuda um fenômeno como representante típico de uma série e a partir dele se deduz princípios para toda a série (Vigotski, 2004a [1982], p. 367). Diferentemente de descrever cada objeto como sendo único, como faz a fenomenologia, isto é, em seus traços externos e imediatos, a psicologia deveria conquistar o direito de considerar o singular, isto é, a partir da análise experimental de um indivíduo generalizar para toda uma classe. Como exemplo dessa premissa, Vigotski cita a teoria do reflexo condicionado de Pavlov, dizendo que ele captou de forma genial o comum no individual. É possível perceber a utilização desse preceito em toda a sua produção posterior ao SHCP, como no estudo da utilização de instrumentos como processo fundamental para o desenvolvimento humano (Vygotski & Luria, 2007 [1984]), na pesquisa sobre a educação de crianças deficientes (Vygotski, 1997a [1924]), na aprendizagem da linguagem escrita (Vygotski, 2000c [1931]), na relação entre pensamento e linguagem (Vigotski, 2009 [1934]), dentre outros estudos.

No manuscrito SHCP, Vigotski anuncia ainda que havia realizado esse procedimento no livro “Psicologia da arte” (Vigotski, 1999 [1965]), que consistiu na sua busca por deduzir as leis psicológicas relacionadas à recepção estética da arte por meio da análise de uma fábula, um romance e uma tragédia. Contudo, ele não analisou qualquer obra, mas sim as mais desenvolvidas. Esse princípio foi derivado de Marx, pois para este o estudo do mais desenvolvido seria a chave para o menos desenvolvido. Vigotski chega a repetir as palavras de Marx ao dizer que a anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco.

Ainda diferenciando o método analítico do descritivo, fenomenológico, Vigotski (2004a [1982]) salienta que o primeiro é indutivo, isto é, está orientado ao conhecimento da realidade, enquanto o segundo está orientado para “possibilidades ideais”. O método analítico seria um caso particular do conhecimento experimental, real, enquanto o método fenomenológico seria apriorístico, não sendo uma variedade do experimento ou do conhecimento real. Além disso, o método analítico chega a novas generalizações a partir de novos fatos individuais, somados aos anteriores, mas que tem fronteiras e graus de aplicação, limites e exceções. Por outro lado, o método fenomenológico estaria à margem da realidade, não levando ao geral, mas às essências (Vigotski, 2004a [1982]).

A questão que Vigotski (2004a [1982]) coloca como fundamental para a psicologia é: devemos estudar os fenômenos enquanto tais ou como nós os representamos? Vigotski diz que o materialista, diante dessa pergunta, reagiria sem pensar e diria que é o fenômeno objetivo em si, enquanto o idealista diria que é sua percepção do fenômeno. Esses dois caminhos expressam a essência do problema gnosiológico da psicologia. Os fatos deveriam ser tomados tal como existem, e não como parecem ser. Amparado em Lênin, ele afirma que a única propriedade da matéria é ser uma realidade objetiva, isto é, fora da nossa consciência.

Segundo a visão materialista adotada por Vigotski, a matéria existe independente de nossa consciência e é refletida por ela. É o cérebro e nossa consciência que, enquanto produto da própria natureza sócio-histórico-cultural, refletem a realidade (Vigotski, 2004a [1982]). Isto seria a pedra angular do materialismo. No entanto, não há uma relação direta entre realidade e consciência, pois a psique seria um sistema gerador, logo há sempre a atribuição de sentido a realidade gerada, isto é, há sempre um modo de apropriação específico, singular da realidade, ainda que social e historicamente produzido. Vale apontar ainda que para a filosofia marxiana, segundo Kopnin (1978), reflexo não é a cópia da realidade pela consciência, pois o pensamento objetivo se relaciona com a atividade do sujeito e a subjetividade, portanto não é criação do objeto enquanto tal, mas apenas a imagem ideal do mesmo. Além disso, segundo o autor, o reflexo é representado em grau variado de plenitude, ou seja, é uma adequação que busca penetrar na sua essência.

Vigotski (2004a [1982]) está totalmente em sintonia com a filosofia de Marx quando diz que se essência e manifestação coincidissem, a ciência seria desnecessária. Isso quer dizer que o fenômeno a ser estudado é muito mais do que sua forma externa, ou seja, todo fenômeno possuiria mecanismos internos inacessíveis à observação direta. A ciência seria mais do que o registro, pois para ele deveríamos conhecer a realidade para além de como ela nos possa parecer.

A principal ferramenta do método analítico para conhecer a realidade é a abstração, que são os esquemas da realidade (Vigotski, 2004a [1982]). Já mencionamos no item anterior o papel determinante da realidade frente às abstrações conceituais, como um princípio de método em Vigotski, anunciado no SHCP. Esse princípio foi desenvolvido de maneira aprofundada em toda sua obra posterior (Vygotski, 2000a [1931]; Vygotski, 1996 [1932-1934]; Vigotski, 2009 [1934]). É possível constatar que no momento da escrita do SHCP, isto é, entre 1926 e 1927, Vigotski estava fortemente influenciado por Engels, a partir do seu livro inacabado “Dialética da natureza”. A questão da abstração é central para ambos os autores no processo de produção de conhecimento. A abstração e a generalização, propiciado pelos conceitos, são o que permite que se vá para além das aparências e se chegue à essência dos objetos. Isso é fundamental no método analítico, pois a abstração permite captar o comum no individual, isto é, conhecer os traços gerais dos fenômenos por meio das suas condições específicas.

O instrumento para abstração é a linguagem. Esta, por sua vez, possibilita a abstração em forma de conceitos. Para Vigotski (2004a [1982]), a confusão no uso da linguagem reflete a confusão da própria ciência, isto é, as palavras utilizadas pelos psicólogos em suas teorias refletiriam a doença geral da ciência. Para ele, a palavra faz a ciência avançar na medida em que corresponde ao estado objetivo das coisas e generaliza o mundo objetivo. Ele diz ainda que o emprego de um conceito implica em uma crítica dos próprios conceitos, pois é somente sob a perspectiva dos fatos que se permite que os conceitos sejam modificados, porque se os conceitos já estivessem dados de antemão a ciência seria dispensável. Essa mesma ideia é retomada em “A construção do pensamento e da linguagem” (Vigotski, 2009 [1934]) quando ele trata de demonstrar que a palavra é a célula do pensamento e, enquanto abstração da realidade, já é a gênese da ciência. Vigotski salienta que a escolha de uma palavra já implica um método. Portanto, o estudo científico seria tanto o estudo dos fenômenos quando a forma de cognição desses fenômenos (Vigotski, 2004a [1982]).

No SHCP, observamos sua explanação do método analítico quando o autor critica as outras tendências de produção de conhecimento. Essa exposição é retomada e sistematizada na primeira parte do texto “História das funções psicológicas superiores” (Vygotski, 2000a [1931]), que trata do problema do método de investigação de tais funções. No capítulo três, intitulado “Análise das funções psíquicas superiores” (Vygotski, 2000b [1931]), vemos um encadeamento de argumentos que está muito próximo das ideias apresentadas na sessão quatorze do SHCP.

Seguindo a análise empreendida no SHCP, Vigotski (2000b [1931]) aponta que a velha psicologia ou se contrapõe à explicação ou se reduz à descrição e ao fracionamento das vivências. Ela seria incapaz de captar os nexos dinâmico-causais e as relações internas a alguns processos complexos. Dotada do método descritivo, o máximo que a velha psicologia (associacionista) pode fazer foi desenvolver uma visão atomista, isto é, indicar que as funções superiores seriam nada mais que a soma dos elementos isolados.

Como prognóstico para a psicologia se libertar do dogma da psicologia descritiva, que nega a possibilidade de explicar cientificamente os processos psíquicos, Vigotski (2000b [1931]) aponta que existem três momentos determinantes para análise das formas superiores de comportamento. A primeira diz que deve se diferenciar a análise do objeto da análise do processo. Até aquele momento, para a análise psicológica, o processo analisado quase sempre se confundia com o objeto. Entendia-se a formação psíquica como algo estável e sólido; a tarefa da análise consistia em reduzir a decomposição em partes isoladas. Analisar o processo consiste na focalização do desenvolvimento dinâmico de um dado fenômeno, nos seus momentos mais importantes e que fazem parte do seu desenvolvimento histórico (Vygotski, 2000b [1931]). Isso quer dizer que se deve utilizar o “método genético- experimental”, porque é preciso criar de forma artificial o processo genético do desenvolvimento psíquico. Pois se deve reestabelecer geneticamente todos os momentos do desenvolvimento do processo que se pretende investigar. Em outras palavras, a tarefa da análise é buscar compreender o processo em sua etapa inicial, isto é, converter o objeto em processo.

A segunda tese que baseia a análise consiste na contraposição das tarefas descritivas e explicativas de análise. Na velha psicologia, a análise coincidia com descrição e era contrária à explicação. A tarefa da ciência seria mostrar as relações e os nexos dinâmico-causais que constituem a base de todo fenômeno (Vygotski, 2000b [1931]). Vigotski compara essa situação da psicologia com o caminho percorrido por outras ciências. A própria biologia teria amadurecido passando da descrição para a explicação. A grande revolução na biologia teria ocorrido com Darwin. O ponto de vista genético seria fundamental para se alcançar a explicação de um dado fenômeno. Apoiado em de Kurt Lewin, Vigotski (2000b [1931]) diz que dois processos aparentemente iguais podem ser diferentes desde o ponto de vista “dinâmico-causal”. Como exemplo da diferença entre os pontos de vista fenotípico e genético, Vigotski (2000d [1931]) cita o caso da linguagem. A linguagem da criança pequena, em seu aspecto externo, se parece com a do adulto. Contudo, apesar da aparência, na realidade a criança e o adulto compartilham o mesmo signo, mas não o mesmo significado, pois o significado das palavras na criança ainda precisa evoluir, até chegar ao nível de complexidade do adulto.

A terceira tese do método explicativo é que a psicologia deve procurar os processos fossilizados. Eles se manifestariam no que Vigotski chama de processos psíquicos automatizados e mecânicos (Vygotski, 2000b [1931]). Esses processos perderiam seus aspectos primitivos e sua aparência externa não revela sua natureza interior. Para se estudar as formas superiores de comportamento, não existiria outra via que o desenvolvimento dinâmico do processo. Nesse sentido, não se deveria buscar o resultado acabado do desenvolvimento, mas no seu processo de aparecimento, em todo seu aspecto vivo. Poderíamos sintetizar esse princípio dizendo que a tarefa da psicologia, para Vigotski, seria analisar de maneira interpretativa o processo de desenvolvimento das funções psicológicas desde o seu nascimento, focalizando sua dinâmica interna, e não apenas na sua manifestação externa (Vygotski, 2000b [1931]).

O diagnóstico feito no SHCP foi que somente a partir da unidade dialética entre a método (enquanto uma diretriz filosófia), metodologia (ou seja, os instrumentos e estratégias para se acessar o fenômeno) e a prática (que seria o parâmetro de validade do conhecimento) seria possível desenvolver uma verdadeira psicologia científica. Além disso, o destino dessa ciência estaria na ruptura e na separação total entre as duas psicologias em disputa, em favor do desenvolvimento de uma psicologia materialista. Dessa ruptura se desenvolveria o método analítico da realidade psíquica.

Considerações finais

O trabalho com arquivos e manuscritos como o SHCP é de grande importância para a história da psicologia, pois podem ser úteis para reconstruirmos o desenvolvimento de uma dada teoria, sobretudo, no que diz respeito aos problemas e dilemas teóricos encontrados pelos autores ao longo de sua trajetória. Também servem como uma “fotografia” de um período específico de sua pesquisa, podendo servir tanto para compreender seus estágios anteriores quanto para constatarmos o destino de certos caminhos traçados. Além disso, podem conter opiniões e formulações íntimas que não seriam expostas publicamente, como a crítica severa a outros autores e certas visões políticas. O estudo do SHCP, uma vez que nele Vigotski apresenta algumas ideias iniciais em direção a uma nova psicologia, possibilita que constatemos todas essas questões, o que, de certa forma, localiza esse trabalho no processo de revisão da teoria vigotskiana que vem sendo desenvolvido por autores como Fraser & Yasnitsky (2016), Zavershneva (2012), Toassa (2015a, 2015b), dentre outros.

A análise empreendida no presente artigo, mesmo que uma aproximação, propiciou compreender o desenvolvimento do método da teoria vigotskiana. Foi possível constatar como determinados princípios seguiram se desenvolvendo junto com a criação da teoria histórico-cultural. Como exemplo paradigmático, podemos citar o caso do método genético-experimental. Ele se tornou um princípio basilar para a pesquisa futura do autor e que possui suas raízes tanto no princípio materialista quanto no método analítico de acesso ao fenômeno que, como mencionamos, abarca a compreensão do objeto desde o seu nascimento.

Esse princípio foi sendo implementado por Vigotski até o fim de sua obra. É o que podemos constatar na análise que ele realiza em “A construção do pensamento e da linguagem” sobre as raízes genéticas da relação entre pensamento e linguagem. Além desses, outros princípios aparecem diluídos nesse trabalho, como a concepção de que os processos psíquicos superiores têm raízes históricas e o papel do método dialético para a criação da verdadeira psicologia.

É importante pontuar que é fundamental olharmos para o manuscrito como a concretização de muitas formulações desenvolvidas anteriormente. Como tivemos condições de mencionar, no seu estudo “Psicologia da arte” (Vigotski, 1999 [1925]), Vigotski já utilizava alguns princípios que posteriormente foram anunciados no SHCP. Outro exemplo são seus estudos em defectologia, realizados anteriormente à escrita do manuscrito. No seu texto “Defeito e compensação”, de 1924, Vigotski já discutia o limite das visões biológicas em analisar a personalidade de um ponto de vista estático. Nesse artigo já está contida sua visão sobre o desenvolvimento histórico e social da personalidade e a necessidade de compreender os fenômenos em movimento, dialeticamente.

Não podemos deixar de lembrar que esse trabalho se localiza na luta contra o mito da fundação, ou seja, Vigotski não criou a visão materialista de pensar a realidade psicológica, mas ele dialoga com a literatura psicológica e filosófica que o precedeu. Além disso, na superação das visões idealista, ele o faz sem sua negação, pois incorpora aquilo que esses autores avançaram no desenvolvimento da psicologia, sistematizando a filosofia materialista de compreensão da realidade e propondo sua aplicação ao estudo do psiquismo.

Por fim, lançamos a hipótese de que no período de escrita dos textos focalizados, o método do conhecimento estava mais desenvolvido do que a metodologia de pesquisa baseadas nele. Isto porque, apesar de pontuar os limites da reflexologia no manuscrito e em textos anteriores, Vigotski ainda se utilizou dessa metodologia até o início da década de 1930. Fato que explicaria o porquê de González Rey (2013) atribuir à segunda fase de sua obra um retorno à orientação mecanicista. No texto “Problema do desenvolvimento cultural da criança” (Vigotski, 1994 [1929]), no qual Vigotski apresenta o método instrumental, é dito com todas as letras que esse método é baseado no método do reflexo condicionado. Foi somente no último período de sua produção que o autor passa a desenvolver o método de “análise semântica” do estudo da consciência. Prova disso é o fato de que posteriormente, ao referir-se aos seus primeiros trabalhos, ele aponta que se ignorou que o significado é próprio do signo. Isto é, se deu atenção ao signo e não se levou em conta a unidade entre pensamento e linguagem, que é o significado. 6 Além disso, ele completa, dizendo que se partia da constância do significado e não em seu processo de desenvolvimento, como esclareceu posteriormente (Vygotski, 1997d [1933-1934]). Dado o caráter polêmico de tais discussões, julgamos que devam ser realizadas pesquisas futuras para que essas questões sejam esclarecidas.

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Notas

* Pesquisa realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

1 Utilizamos nesse estudo, na medida do possível, traduções do texto de Vigotski para o português. Quando estas não existiam utilizamos as traduções para o espanhol publicadas no conjunto das “Obras escogidas”. Somado a isso, cotejamos a tradução em português com as traduções inglesa e espanhola.

2 Em razão da importância que a data de produção dos textos tem para a presente pesquisa, adotaremos a seguinte orientação da American Psychology Association —APA— para citação de textos clássicos: A primeira data refere-se à primeira publicação e a segunda, à edição consultada. Quando o texto não foi publicado, apresentaremos ao longo do texto o período em que ele foi escrito.

3 Ver Van der Veer (2000) quanto às críticas de autores stalinistas dirigidas à Vigotski nos anos 1930.

4 Referimo-nos ao artigo “A ciência da psicologia”. A partir de agora essa será a forma de referência a ele.

5 Não acreditamos que o autor tenha tido a intenção de limitar o estudo da psicologia social ao estudo individual, mas sim que teve como objetivo reforçar a noção de que não há psicologia individual, já que todo individuo se constitui socialmente, pois a base de sua constituição, as formas de atividade humana mediada, expressa pelo signo, são produzidas e partilhadas socialmente.

6 Para Vigotski (2009 [1934]) o significado é apenas uma das dimensões do sentido, que em razão da necessidade de comunicação deve ser mais estável. Já na linguagem interior haveria o predomínio do sentido, o qual seria a soma de todos os fatos psicológicos.

Autor notes

** Correspondência a respeito deste artigo deve ser endereçada para Eduardo Moura da Costa, Universidade Estadual Paulista —UNESP—, Faculdade de Ciências e Letras, Assis. Correio eletrônico: eduardomcbr@yahoo.com.br

Informação adicional

Cómo citar este artículo: Costa, E. M. & Martins, J. B. (2018). O projeto Vigotskiano para uma psicologia científica: anotações sobre “O Significado Histórico da Crise da Psicologia”. Avances en Psicología Latinoamericana, 36(3), 537-551. DOI: http://dx.doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.6007

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