Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones"
eISSN:1856-9536

O IMAGINÁRIO, IMAGINAÇÃO E NARRATIVAS: ESBOÇO PARA UMA TEORIA DAS IMAGENS

El Imaginario, imaginación y narrativas: esbozo para una teoría de las imágenes

Imagery, Imagination, and Narratives: Draft for a Theory of Image

Osvando José de Morais

O IMAGINÁRIO, IMAGINAÇÃO E NARRATIVAS: ESBOÇO PARA UMA TEORIA DAS IMAGENS

Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones", vol. 13, núm. 2, 2020

Universidad del Rosario

Osvando José de Morais

Universidade Estadual Paulista, Brasil


Recepção: 29 Setembro 2019

Aprovação: 01 Fevereiro 2020

Publicado: 07 Julho 2020

Resumo: Propomos refletir ensaisticamente sobre imagens no século XXI e analisa-las a partir das propostas de Italo Calvino para este século, concebidas por ele nos anos 1980 como seis grandezas ou qualidades essenciais às narrativas em seus vários sentidos, mas fundamentais para entender o audiovisual nos ‘media’ atuais. Enfatizamos neste trabalho que discutir e analisar estas especificidades presentes na obra do autor italiano e mais ainda fundamenta-las nos conceitos de Imagem, Imaginação e Imaginário de Jean-Paul Sartre adquire uma dimensão especial que já se constitui metodologicamente como pesquisa teórica, cujo resultado forma uma base sólida e fundamental para a construção e criação de narrativas aplicadas às imagens portadoras de histórias, adaptáveis a quaisquer suportes. Como resultado imediato neste artigo, constatou-se que o conceito de imagem como consciência de alguma experiência, objeto central das reflexões de Sartre, dialoga e completa filosoficamente as grandezas narrativas e literárias de Calvino. Finalmente, constatamos que as teorias e conceitos de Calvino e Sartre subsidiam de maneira ampla os estudos aplicados à produção e criação dos textos narrativos literários e também os roteiros técnicos instrumentais, intermediários às narrativas com imagens, independentes de suportes.

Palavras-chave: narrativas, literaturas, imagens, Italo Calvino, Jean-Paul Sartre, roteiros.

Resumen: Proponemos reflexionar ensayísticamente sobre imágenes en el siglo XXI y analizarlas a partir de las propuestas de Ítalo Calvino para este siglo, concebidas por él en los años 1980 como seis grandezas o cualidades esenciales a las narrativas en sus varios sentidos, pero fundamentales para entender lo audiovisual en los ‘media’ actuales. Enfatizamos en este trabajo que discutir y analizar estas especificidades presentes en la obra del autor italiano y más aún fundamentarlas en los conceptos de Imagen, Imaginación e Imaginario de Jean-Paul Sartre adquiere una dimensión especial que ya se constituye metodológicamente como investigación teórica, cuyo resultado forma una base sólida y fundamental para la construcción y creación de narrativas aplicadas a las imágenes portadoras de historias, adaptables a cualquier soporte. Como resultado inmediato en este artículo, se constató que el concepto de imagen como consciencia de alguna experiencia, objeto central de las reflexiones de Sartre, dialoga y completa filosóficamente las grandezas narrativas y literarias de Calvino. Finalmente, constatamos que las teorías y conceptos de Calvino y Sartre subsidian de manera amplia los estudios aplicados a la producción y creación de los textos narrativos literarios y también los guiones técnicos instrumentales, intermediarios a las narrativas con imágenes independientes de soportes.

Palabras clave: narrativas, literaturas, imágenes, Ítalo Calvino, Jean-Paul Sarte, guiones.

Abstract: Through this study, we reflect on images of the 21st century and analyze them based on Ítalo Calvino’s proposals for this century that is understood by him in the 1980s as six elements of grandeur or qualities essential to narratives in their various senses but fundamental to understanding the audiovisual aspect of today’s “media.” We discuss and analyze these specific characteristics in the Italian author’s works, and through the concepts of image, imagination, and imaginary by Jean-Paul Sartre, we focus on a special dimension that is already methodologically constituted as theoretical research. This results in forming a solid and fundamental basis for constructing and creating narratives applied to images that carry stories and are adaptable to any medium. Through the study results, it is deduced that the concept of image as the awareness of some experience, the central object of Sartre’s reflections, converses with and philosophically completes Calvino’s narrative and literary greatness. Finally, we find that the theories and concepts by Calvino and Sartre broadly subsidize studies applied to producing and creating literary narrative texts and technical instrumental scripts, intermediaries to narratives with independent supporting images.

Keywords: Narratives, literature, images, Italo Calvino, Jean-Paul Sartre, scripts.

Considerações iniciais

Analisar as imagens é buscar repostas atuais no contexto do século xxi sobe o que são e em que se constituíram. Jean-Paul Sartre propõe três definições para as imagens: imagens pensamento ou mentais, imagens puras, e um mundo de fatos-imagens, relacionados indiretamente a um pensamento. A ideia central do filósofo é responder, e ao mesmo tempo atualizar os conceitos sobre o que são e como são formadas psicologicamente as imagens. Algumas questões fundamentais: o que são as imagens? São ou não coisas? Suas indagações apontaram para definições fenomenológicas de um universo de representações das próprias coisas sensíveis aplicadas às culturas e também às narrativas.

Pensar as narrativas neste resgate das imagens, em seus vários sentidos, principalmente como narrativas, complementa o trabalho, por meio das seis propostas de Italo Calvino, pensadas na década de oitenta do século passado como possibilidades narrativas, que são os seis valores, qualidades ou especificidades: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.

Dos seis valores literários ou modos de narrar que deveriam ser preservados e exercitados no século xxi, apenas o último, consistência, não foi encontrado ou escrito. Calvino deixou anotações e espaços para alterações. Poeticamente, podemos apenas tratar de suas sugestões gerais e seguir alguns vestígios do que seria ‘’consistência’’ e também das outras grandezas narrativas.

Discutimos sobre o audiovisual no atual século, melhor dizendo, na última década, tendo em conta as ideias de Italo Calvino, reveladoras e antecipadoras do que se considera fundamental em sua proposta à futura construção de narrativas.

Para entender um pouco do audiovisual nos ‘media’ hoje deve-se retomar experiências acumuladas ao longo de dezenas de séculos de história da literatura. É o que faz Italo Calvino, que essencialmente revista as literaturas gregas, romanas, ingleses, francesas e italianas seu grande guia.

Esta é a base sólida como modelo para a narrativa audiovisual na atualidade, praticada, testada, constatada e sustentada pelo cinema, televisão e internet, independente das constantes metamorfoses nas narrativas com imagens.

São estes os principais modelos de que trataremos: imagens leves, rápidas e aladas. Objetivamos compreender estas imagens, no sentido hermenêutico e como se organizam nas narrativas. Esta, é, talvez seja, a grande questão do século xxi. Fizemos a transição do século passado para o atual, mas ainda estamos experimentando os efeitos da evolução das tecnologias que continuam evoluindo de maneira mais acelerada, com intervalos mais curtos, provocando imediatismo e simbioses estranhas. Nesta múltipla e ininterrupta atividade de repensar e atualizar os conceitos, estão aqueles que buscam alguma saída.

A articulação das grandezas narrativas nas literaturas é pensada por Italo Calvino como perspectivas para o atual milênio (Calvino, 1990). Cada um dos seis valores se relaciona diretamente às narrativas audiovisuais, principalmente nas últimas duas décadas do século xxi, mesmo que Calvino tivesse como centro de suas atenções o destino da literatura e do livro na era tecnológica pós-industrial, as imagens no audiovisual obedecem aos mesmo preceitos, no que diz respeito à dimensão narrativa que às imagens visuais e acústicas tem para contar histórias, ou nas articulações entre imagens portadoras de história (Jiménez, 1993).

A essência do pensamento de Calvino está na organização de um pensamento sobre as narrativas. Não importa se com palavras, imagens e sons, elas devem ser livres, ageis e voar rapidamente. Literalmente aladas, velozes como o tempo, fluir.

São saberes literários que se aplicam às imagens fílmicas, radiofônicas e televisivas. Estes valores genéricos remetem a um sistema de significação específico e adaptável na construção de imagens narrativas. É neste sentido que leveza para Calvino (1990) está associada à precisão e determinação, nunca ao que é vago ou aleatório.

Nesta construção de narrativas por imagens, há elementos sutis e imperceptíveis: despojamento de linguagem que constrói uma consistência rarefeita. Invenções que se impõem à memória, mais pela sugestão do que pela descrição verbal, mas com alto grau de abstração (Calvino, 1990).

Os exemplos de leveza são abundantes. São invenções que se impõem também ao repertório do autor. São sugestões verbais que serão verdadeiros guias.

Calvino faz um passeio por obras de vários autores, fazendo citações diversas que sugerem um universo leve e ágil: Boccacio, Cervantes, Shakespeare, Lucrécio e muitos outros.

Neste universo de autores, há uma mistura entre as linguagens e as referências metafóricas. É através dos heróis míticos que Calvino constrói seu universo de leveza. Seu propósito é mostrar narrativas carregadas de imagens rápidas e leves, provocar uma reflexão através delas, no atual século. Ele conhecia a realidade do leitor do século xx e esse saber permitia com muita cautela e diversos alertas fazer previsões de como seria o leitor de textos verbais ou não verbais no século xxi. A força do cinema e o domínio da televisão forneciam argumentos e base sólida para imaginar como seria esse futuro leitor. Para esse leitor as imagens deveriam ser rápidas como aquelas que descrevem os heróis da literatura. Esses heróis voam através do espaço, em um cavalo alado, como um pássaro, com os pés ou sandálias aladas ou num tapete voador. Calvino queria o século xxi com a mesma leveza e a mesma rapidez. Esta rapidez literária e imaginária é uma referência direta e inspirada nos modos de vida do século xx. É neste sentido que o texto literário oferece as possibilidades e características de um modelo de narrativa audiovisual, um roteiro técnico mediador nos processos de realização para os media. Trata-se, primeiramente de uma velocidade mental, como a consciência de alguma coisa, colocando a própria coisa como imagem, sejam signos concretos, sentimentos e sensações (Sartre, 1996). Assim, a narrativa audiovisual do atual século, ao aproveitar a tradição literária, exemplificada na rapidez, modelo ou capacidade de adaptação, como acontece nos transportes e nas informações.

Imaginário e imaginação

Este ensaio tem como objetivo principal pensar as imagens. Esta é quase a proposta metodológica de Jean-Paul Sartre. Há muitos entraves em função de correntes teóricas da psicologia, da fenomenologia e ainda a diversidade de análises feitas por Sartre: imagem e consciência são duas ideias que se complementam.

As imagens podem ser compreendidas a partir de teorias psicológicas, fenomenológicas, filosóficas e àquelas literárias a fornecerem elementos de conhecimento, justificando pensar sobre os aspectos intrincados e abstratos dos conceitos de Imaginação e Imaginário (Sartre, 1996) e ainda sobre as grandezas das imagens e os modos de torná-las concretas e organizá-las como mensagens, no atual século, referência às “Seis propostas para o próximo milênio” de Italo Calvino (1990).

Discutir ideias relacionadas à imagem como processo complexo inclui, na dinâmica das culturas questões cognitivas, espirituais, emocionais e interativas, em sua produção. É o que mostra Calvino.

Pensar as imagens no contexto do século atual, centrado nas ideias de Jean-Paul Sartre e Italo Calvino é nosso propósito, com a finalidade de melhor entender as fases de uma narrativa, antes mesmo de se constituírem em produto, literário ou audiovisual. Há muitos teóricos da imagem. No entanto, optamos ter como centro Calvino e Sartre por trazerem discussões mais pertinentes e nem sempre usuais. São reflexões acerca dos fenômenos que envolvem processos psicológicos e que de maneira sutil e imperceptível interferem nas narrativas, e que nas estratégias de abordagens do objeto como imagem, exigem atenção e tratamento especiais aos problemas.

Kant (2001) dizia que a filosofia é a ciência da relação de todos os conhecimentos com os fins essenciais de razão humana. O pressuposto é que as imagens, em especial nas narrativas, podem e devem ser compreendidas também como questão filosófica, pois os eventos e as ações são elementos centrais no processo narrativo, construído, essencialmente, por imagens em um sentido mais amplo. Alguns elementos que as compõem seriam imperceptíveis por sua condição subjacente às relações sociais, combinando aspectos culturais, temporais e subjetivos.

Importante dizer que a partir da revolução industrial, pensada em seus vários estágios, ao inserir técnicas de produção e reprodução de imagens com suas máquinas mediadoras, foi possível perceber a erupção de outras formas de construção de culturas, outros condicionamentos, outras capacidades de significações, tanto no contexto social como no político e econômico. É neste sentido que entendemos as imagens, como sistemas de cultura para representar uma das finalidades mais importantes deste século: narrativas com imagens.

A dificuldade de se definir imagem está na constatação de que são processos subjetivos delicados de percepção, instigou-nos a repensá-la como imaginação autogeradora de sentidos sígnicos indeterminados e imprevisíveis, provocando, inclusive, rupturas nos conceitos, suscitando e exigindo uma abordagem do mundo mental que seria parte de outro mundo diverso do percebido que silencia-se no universo solitário e particular, circunscrito ao agente da imaginação (Sartre, 1996).

Neste universo, a principal contribuição de Calvino, que consiste na ideia de que a produção de imagem e sua organização, leveza e rapidez, por exemplo, pode ser concretizada na linguagem que atua constantemente como tradutora e mediadora das experiências humanas. Para Italo Calvino, a imagem na literatura se funde na tentativa de transferência de conhecimento para o outro, mas também na participação imediata de Um no Outro, pois só assim é possível perceber o que se exprime, pondo-se de acordo com a linguagem, como acontece nas imagens como “consciência de alguma coisa” sartreanas.

De maneira geral, a produção de imagem é abarcada pela imaginação, indica tomada de consciência e, por isso mesmo, impõe pensar sobre as condições em que se realizam. No entanto, tenta-se evitar tanto o empirismo simplista como o racionalismo radical e dogmático.

Toda imagem como o equivalente de consciência, pressupõe a construção de sentido único e específico, sem ligações com o “real”. É nesse ponto que incluímos os valores e grandezas literárias de Italo Calvino, preconizando a necessidade sine qua non do domínio de uma mesma linguagem tanto na produção como na apreensão. Mesmo assim, leveza como valor significa ao traduzir circunstancialmente, usando a linguagem como medium, em um processo de atualização espacial e temporal, que possibilita trocas, inclusive, também de consciências, além de muitas outras experiências entre os interlocutores. Mesmo que em determinado contexto e circunstância, o conceito de troca possa ser questionado, ele é essencial.

Outro sentido explorado na literatura por Calvino é o de despojamento da linguagem, implicando reações mais amplas entre os envolvidos. Este debate pode dar-se em várias etapas que envolvem decisões dedicadas de ambas as partes, implicando uma reiluminação, como ocorre entre duas pessoas, também entre os terceiros dessa conversação, dá-se o processo de imaginação que é mais que mera adaptação (Sartre, 1996).

Deste modo, pode-se dizer que a imagem é o medium universal e os media desenvolve, ordena e aprimora a própria linguagem, seja na forma escrita, oral ou por imagens. Assim, o processo de consciência como imagem é a sua reconversão em linguagem, Sartre classifica esse processo como “consciência compreensiva” realizada através do que foi percebido, incluindo a ideia da fala oral e de sua relevância nos meios massivos.

É importante lembrar que a palavra falada para Platão se constitui como o pensar verdadeiro e, portanto, como imaginação no sentido sartreano, surpreende pelo modo de falar, o tom, a cadência e esta não sofre da mesma debilidade do texto escrito que pode sucumbir a mal-entendidos. É na fala que se dá prontamente a imaginação e que fortalece o sentido do que foi dito (Platão, 1979).

Pensar e imaginar seria ater-se a um conjunto de intenções possíveis que se revelariam abissais, pois o que realmente foi pensado e imaginado, em sua essência, ficou discreto por redução a uma dimensão mental.

Organizar a imaginação como possibilidade mediadora por meio das especificidades é o que torna concreto o próprio sentido. Por isso, pode-se dizer que por mais eficaz que a consciência imaginativa seja, ela nunca será exata. Apenas parte das intenções seria plenamente atingida. Os processos mentais de ordenação e seleção gerariam possibilidades em grau infinito (Calvino, 1990).

É possível ressaltar neste processo, a imagem nos jornais, rádio e televisão, incluindo, a complexidade da telefonia móvel, com todas as suas potencialidades, e da Internet que se impõe como base de convergência, ocupando um espaço importante nos estudos da imagem como fenômeno.

Portanto, é neste ponto que poderíamos aproximar, por exemplo, as teorias de Sartre e Calvino, que não reduzem a imaginação a uma simples troca de saberes, mas tentam entendê-la como Fenômeno de Interação, que na percepção o conhecer é lento, mas na imagem é imediato e não seria uma mera transferência, mas pode ser vista, também, como mistério ou como fenômeno inexplicável. Mesmo diante de argumentos teóricos sólidos conceitua-se, ainda, a imagem como alguma coisa impregnada de muitos sentidos, de uma infinidade de faces.

Independentemente de a imagem ser referência universal para as narrativas verbais ou não verbais, o modelo de Calvino amplia as discussões do conceito para justificar e compreender problemas relacionados às narrativas, entendidas como atos sintéticos. Este autor argumenta e pensa no modo como a narrativa acontece e a enfatiza não como fenômeno físico, mas como fenômeno articulado às múltiplas dimensões e funções ou protocolos. Lembremo-nos que Calvino, pensa e emprega as imagens tiradas da literatura, da música e das artes plásticas. Seu objetivo principal especificamente é antever o futuro das imagens no século xxi, independente do conteúdo (Calvino,1990). Desse modo, acreditamos que as teorias da Imaginação e do Imaginário de Sartre devem estar situadas mais apropriadamente como uma atitude reflexiva diante das imagens, como é vista na psicologia, muito embora tenha seu lugar, também, no modelo fenomenológico.

Independente de quaisquer protocolos, a imagem está relacionada à percepção da “realidade”, aos valores das ações e interações, à construção de histórias que cada um faz sobre si mesmo e do mundo, além de buscar um sentido, mesmo que seja a concretização de uma intuição (Eco, 1994).

As imagens se constituem em processos de imaginação que são também seletivos, isto é, são constituídas como seleção, vale dizer, como consciência de alguma coisa. Portanto, os atos de perceber, conceber e imaginar estão interligados. A distinção entre eles está em três tipos diferentes de consciência. É neste sentido que é mais seguro afirmar que a imaginação só é possível como processo de consciência perceptiva, pois o ato de imaginar, imaginação e percepção são três processos irredutíveis um ao outro.

Faz-se necessário, neste sentido, ainda, discutir a Imagem a partir do conceito de sociedade da imagem que permeia as relações sociais, econômicas, interpessoais e afetivas. Assumir que a transmissão de conhecimento se dá por imagem traz novas perspectivas de pensar os media e estes como seus produtos. Neste contexto, surgem vários modelos para explicar fenômenos humanos diversos como, por exemplo, o funcionamento da mente humana e do sistema nervoso central; o caráter genético da individualidade dos seres humanos, entre outros. Novas formas de representação, memorização e mimese podem ser repensadas ao mesmo tempo como consciência e como imaginação. Torna-se fundamental saber, por exemplo, aspectos das estruturas psíquicas que designam um conjunto de particularidades abstratas. Melhor dizendo, o que foi imaginado e o que não foi e ainda o significado de tudo isto.

A imaginação no século xxi não está dissociada da indústria de tecnologia da informação. E, a ampliação da potencialidade humana, como causa e efeito, mudou o modo de entender as complexidades dos processos sociais no qual a imagem ganha relevância extraordinária. Há um controle total das imagens, da informação e das pessoas. De maneira planejada, as pessoas são submergidas cotidianamente em um mundo de imagens que portam informações em quantidade acima de seus limites. Alegam-se o direito de gerar e também o de difundir imagens de todos os modos e formatos. Há ainda o direito de recebê-las, mas há também o de não recebê-las. É neste sentido que uma teoria da Imagem não poderia se reduzir aos processos mentais, perceptivos e psíquicos, mas também às relações econômicas e sociais implícitas. No sentido cultural, pode-se também argumentar sobre a possibilidade de se fazer uma teoria da imagem no contexto das produções artísticas coletivas que ficam fora de quaisquer imposições econômicas, mas também daquelas imagens que atuam no mercado que tem leis, além de direitos, ambos estabelecidos pelas instituições. Por isso mesmo é que recorremos às teorias de Sartre para afirmar que a imagem, como processo de consciência, deve ser repensada e reavaliada devido a sua natureza processual e pragmática.

É nas imagens visual e mental que os atos narrativos ganham formas e sentidos. Italo Calvino faz uma distinção entre imaginar o presente e imaginar para o futuro, classificando as imagens em valores ou qualidades como valor de sobrevivência. E é esta multiplicidade que a torna culturalmente forte, resistente à retificação mercantil, indo além de qualquer lógica econômica, institucional ou técnica. Neste sentido, as imagens elaboradas com finalidade específica para os media, criam vínculos, impõem limites, mostram divergências. No entanto, existe uma dinâmica na criação de regras para formato, tempo, espaço e estética, rompendo continuamente com os limites (Calvino, 2000).

Para Calvino as seis qualidades de imagens são constituídas de técnicas narrativas que contemplam os indivíduos. Esta é uma necessidade do homem por histórias, como um ser social de seu tempo, seus comportamentos exigem Leveza que está associada à Rapidez e à Multiplicidade ligadas de maneira ilimitada à Exatidão. Por outro lado, o contexto, a cultura impõem a Consistência e a Visibilidade e todas juntas, ordenadas ou desordenadas, desempenham papel importante e fundamental: criam, transformam os contextos e projetam as relações entre contextos e cultura. É neste sentido que nos interessa discutir a Teoria da Imagem e incluindo nela a linguagem, aproximando-se do conceito de “prática” como um processo contínuo que evolui também de maneira contínua, criando novas possibilidades, dependendo de como as pessoas a praticam. A linguagem é ao mesmo tempo, portanto, de maneira abstrata, imposição consciente e intencionalmente, pois é composta de múltiplos jogos perceptivos e caracterizam múltiplas culturas e modos de vida do próprio homem. Compartilhar imagens é transmitir consciência. A imaginação só consegue atingir seus objetivos, por meio dos processos que naturalmente delimitam e regulam as práticas narrativas (Calvino, 2000).

Discutir a imaginação como simples consciência, obriga-nos a retomar o debate a respeito do momento crucial da imaginação como um ato mágico, um encantamento, caracterizado por fazer aparecer o objeto, independente dos contextos, sejam físico, espacial ou organizativo social. Nesta modalidade de ação, há uma interferência da cultura e do compartilhamento, principalmente, devido a seu caráter dinâmico, processual, provocando a multiplicação de pontos de vista e desdobramentos das imagens por associação.

E neste sentido, podemos afirmar que a imagem narrativa, coloca os seus participantes em estado de sincronismo ao criar uma identidade coletiva que os distingue de quem não participa. É no saber concreto e narrado que as imagens tomam forma, criam limites e sentidos. É esta uma ação que engloba pessoas na comunidade e não haveria limites e nem identidades como processo contínuo. Por isso mesmo, as imagens narrativas só têm sentido dentro de uma comunidade, pois criam ideias simultâneas e rápidas dirigidas à comunidade. Assim, as imagens, no entender de Calvino (1990), não somente criam, mas multiplicam as comunidades. Multiplicam, criam novas formas e ordenações de ações, como se pode observar, hoje, com o incremento das facilidades para interações entre os indivíduos, ainda que a priori sejam pertencentes a comunidades distintas.

Outros argumentos a essa mesma discussão, dizem respeito às produções imagéticas constituídas de individualidades. Nestas o espírito imaginativo se faz necessário para fazer do homem um ser social, dando forma a seus comportamentos, multiplicando ilimitadamente, desencadeando a imaginação em tudo que participa e dando forma a cada uma delas. São processos que criam, multiplicam, dão forma e podem ser classificados como imagens narrativas e se organizam com outras formas de consciência.

Das discussões acerca dos conceitos de imagem como informação, transferência, escuta, troca, compartilhamento, diálogo e interpretação podem vir contribuições teóricas e metodológicas para se pensar as produções visuais, hoje, com seus desdobramentos multidisciplinares, intertextuais e tecnológicos. É fundamental incluir aspectos relevantes nesta discussão a partir das ideias de Jean-Paul Sartre (2011) sobre as diferentes maneiras que o “Eu” e o “Outro” se fazem presentes nos processos que aproximam consciência e imaginação. Pode-se dizer que se trata de um sujeito diante de outro sujeito, em um processo contínuo de intersubjetividade. Conviver e viver com o outro, próximo ou distante, no tempo e espaço, são problemas essenciais no contexto atual. Conviver e viver ganham novas dimensões por meio do uso massivo das tecnologias de telecomunicação exemplificadas nas redes sociais. É destas relações que são travados novos tipos de trocas com consequências ainda imprevistas, envolvendo a intimidade, a impossibilidade e a pessoalidade como relações sociais. É esse “Eu” para um “Outro”, é esse “Outro” que sou eu mesmo que estabelecemos múltiplas mediações, principalmente através das obras que os sujeitos produzem e nela se reconhecem. A cultura é o reflexo do sujeito que age e interage consigo mesmo e com os outros. A cultura como sistema é o fim máximo da Razão. É neste sentido, como aponta Kant, que se faz necessário um duplo combate contra o empirismo puro e outro, tão intenso quanto, contra o racionalismo dogmático. A cultura deveria ser entendida em vários sentidos que completam as dimensões do humano: a cultura como astúcia, cálculo e desvio (Kant, 2001).

Nossas discussões centram-se também na importância que a experiência sensível representa para a imaginação. É no compartilhamento que a linguagem se manifesta, estabelecendo o encontro de dois mundos com desdobramentos imprevisíveis, transformadores e enriquecedores entre os participantes do processo de produção.

É na capacidade de troca que o Outro se faz presente ou se apresenta. Evocam-se aqui novamente as ideias de Sartre ao rastrear esse Outro ou Outros na convivência, na vivência entre próximos e distantes no tempo e no espaço. Em relação ao tempo, devemos levar em conta os antecessores como resgate, como dívida; pensa-se ainda nos sucessores, que como promessa, sofrerão as consequências das ações, decisões de cada iniciativa. Quanto ao espaço, fala-se dos contemporâneos, próximos e distantes, íntimos ou impessoais ou no anonimato como sendo relações intrincadas que aplicam à imaginação, e não considerar tais complexidades seria fazer uma análise simplista. Difícil seria não colocar o humano com suas buscas e questionamentos no centro. Na verdade, o humano traz de volta as relações sociais que poderiam ser traduzidas na trajetória sensível sartreana como puramente impressões sensíveis: o Outro que pode estar à nossa frente ou ao nosso lado. O Outro que está em nós. O Outro que somos nós mesmos. Nós mesmos que somos Outro. Esse Outro, diverso de nós mesmos, somos nós mesmos. O Outro, mas o mesmo. O mesmo, mas o Outro.

Neste jogo de imagens sobre o Outro, percebe-se um processo ativo e profundo da consciência transcendental. Impõe-se uma reflexão sobre todo o processo, que sem esse exercício, seria difícil pensar a essência fenomenológica da função de imaginar.

Os múltiplos sentidos gerados no processo de conscientização não iluminam os problemas dos objetos que afetam os nossos sentidos. As teorias de Sartre esclarecem as dúvidas. É no ato de concretizar as representações que esclarece o que se quis dizer. Como escolher entre os vários sentidos aquele que mais se aproxima da imaginação?

Nesta perspectiva há, primeiramente, a necessidade de entender o Outro, o humano que está presente em todo ato provido de significação verbal, oral, impresso e visual. É evidente que se pode mostrar ou imaginar algo e compreender as interpretações divergentes, porém, fazendo parte de um projeto que pressupõe intenções intercaladas em um jogo de informações explícitas e implícitas.

Encontrar significados divergentes diz respeito à autonomia da imagem. O que ela quis significar pouco importa. As informações organizadas e veiculadas na imagem desprendem-se das intenções, ganham autonomia. O que se tenta é dar significados, independe do autor. Lê-se o que está organizado como informação. Verifica-se se há um abismo entre os dois: o autor e a leitura do que foi produzido por ele. Não há controle das suas intenções sejam elas quais forem.

Deste modo, reconhece-se a diferença dos tipos diferentes de imagens e suportes. Na troca concreta, é possível esclarecer as dúvidas. Dizer com outras palavras, de outro modo. Já na escrita, o leitor interpreta a seu modo. A imagem está ali, organizada e aberta às boas e más leituras. A tarefa do participante é objetiva e ao mesmo tempo ativa. É ele que dá vida à imagem e a faz falar, a seu modo. E nesse falar pressupõem-se todas as brechas possíveis. Há uma troca. É a interação do leitor com a imagem. Há, portanto, uma briga entre os dois, estabelecendo uma relação de consciências. Por outro lado, pode-se prever a imposição do leitor da imagem que aproveita de sua suposta condição de ser agente.

Se a leitura de imagens, enquanto troca, acompanhasse as ações, os acontecimentos e as experiências humanas, seria imperioso tomar cuidado de não se fechar em apressadas conclusões de que tudo é leitura e, em decorrência do assim pensar que todas seriam válidas. Há forças, alheias ao objeto lido, que, ao se imporem, transformam tudo em verdadeiro jogo. A dimensão objetiva com seus elementos estruturantes transforma-se apenas em uma base, mas não é suficiente para fornecer segurança e validar as leituras. Neste ponto, pode-se falar de ideias autônomas presentes nos roteiros para audiovisuais: a do autor do roteiro e a do diretor com todas as nuances que o conceito requer. No entanto, a materialidade visual independente do medium, é base para a concretização como leitura.

O conceito de Imaginação faz parte do grande projeto teórico de Sartre que levanta discussões esclarecedoras quanto à atualização do conceito de uma consciência que pode imaginar. Isto quer dizer que seu pensamento é, na verdade, uma dinâmica sequencial envolvendo a imagem, abrindo caminho para um completo diálogo com a filosofia alemã, principalmente, formando a base para determinar a imaginação como tradução da consciência.

Na teoria sartreana está explícito um elo que engloba o imaginário e a consciência, sem esquecer objetivamente da tradição e da historicidade que estes conceitos comportam. Por exemplo, o contexto do século xx é rico em teorias e é justo o lugar ocupado pelo filósofo francês, pois conseguiu elevar a teoria da imagem a outros parâmetros que ultrapassaram a simples ideia de imagem, estabelecendo procedimentos metodológicos de abordagem de temas próximos ao racional e irracional. É, neste ponto importante afirmar, não haver nenhuma gramática universal da imagem que possibilite entender e compartilhar completamente os universos mentais. Deve haver sim, um esforço que supere as diferenças entre as abordagens. É neste sentido que a imaginação deve ser entendida e fundamentada na filosofia, como fizeram Sartre e Calvino.

Outra influência importante das ideias de Calvino ao difundir a narrativa como valor diferencial humano: sua proposta era fundamentar um processo rigoroso aplicado aos modos de narrar, adaptáveis aos novos tempos, ligando os vários universos, as várias culturas, as várias vivências, numa tentativa de supressão das distâncias numa prática de compartilhamento de experiências e de visão de mundo.

Deste modo, acreditamos que a importância do autor encontra-se em direcionar seu pensamento literário, centrando-o em uma tipologia da narração. Amparada em inúmeros autores, citações e análises, mostrando possibilidades e também um aprofundamento crítico dos modelos de narrativas e das imagens que as compõem. Calvino está preocupado com a literatura em múltiplos sentidos e faz antecipações em relação a uma realidade inevitável imposta pelos media à literatura. Esta é, na verdade, uma atualização do modelo de leitor, mas que marcará rotas e direcionará definitivamente outros caminhos teóricos.

Já as mudanças do pensamento filosófico de Sartre sobre o Ser-no-mundo terão importância fundamental na dinâmica da imaginação que se estabelece nessas teorias. O “Ser e o Nada” é uma questão existencial, é uma consciência “realizante”, mas que se faz existir, como um intruso no mundo, que se projeta no mundo como vivência e que faz o elo entre a imaginação e o imaginário.

Esta mesma projeção volta-se às estruturas prévias já sedimentadas e que fazem parte de uma realidade em mutação. Para Sartre a existência é um jogo com regras mutantes e o campo desse jogo é formado por elementos culturais, sígnicos e históricos.

É dessas ponderações que poderíamos aplicar a ideia de Sartre sobre a tipologia de existência do objeto, pois, envolve uma pluralidade de elementos que orientam a performance de objetos reais e objetos imaginados.

Difícil não associar todo esse processo à existência, pois, o sentido de percepção tão raro à imaginação se repete na necessidade de colocar a realidade como um conjunto sintético a ser apreendido, independente das tecnologias e do número de pessoas envolvidas.

Os horizontes, os universos culturais se misturam e se interpenetram. Por isso, faz-se necessário levar em conta os repertórios de vida, de acontecimentos e mundo que formam e determinam as modulações, obedecendo às condições particulares de cada realidade que se interceptam. Toda apreensão envolve as estruturas prévias que, na verdade, são indispensáveis para circunscrever e motivar ou participar do jogo.

Perceber mais elementos ou menos elementos da mesma imagem, por exemplo, já determina os limites do universo de cada uma das impressões sensíveis concretizadas nas imagens. É nesse esforço que entram no jogo as trocas repertoriais necessárias, o cogito cartesiano como modelo racional ganha espaço, o objetivo não descarta, mas ameniza o subjetivo. Embora seja necessário que se faça a distinção entre objetivo e subjetivo, é desse jogo consciente que surgem novas possibilidades de atualização, correção e autocorreção dos pressupostos conceituais.

Toda imagem, em sua circularidade, é uma realização própria e inesgotável das possibilidades de dar sentidos ao que se pretende extrair das impressões, incluindo as repetições incontroláveis que fazem parte do jogo da imaginação. O sentido como “consciência que permanece no mundo”, daquilo que precisa ser apreendido sensivelmente, é para Sartre uma imaginação finita que, porém, não se esgota e se revela apenas no imaginar momentâneo. É nesse sentido que as imagens ordenadas em narrativas carecem de Protocolos específicos, “tanto como ultrapassagem do real” de Jean-Paul Sartre quanto como “valores ou qualidades” de Italo Calvino, são questões abertas, evitando sequer pensar em qualquer tipo de arbitrariedade imaginativa. O que está em jogo é fazer emergir o que precisa ser apreendido, pensado e imaginado, não eliminando e superando o intuitivo, nem mesmo as distâncias temporal e espacial presentes no objeto pensado.

No sentido específico, a imaginação e imaginário de Sartre formam um tratado da percepção. Já Calvino faz uma proposta para este milênio para escapar da arbitrariedade da existência nos modos de apreensão das grandezas e valores, englobando, inclusive, a concepção da linguagem com seu caráter cultural circunstanciado a cada medium, para muito além do instrumental.

Caminho para as metodologias das imagens

Fazendo justiça ao célebre começo da Crítica da Razão Pura de Kant, já intensamente comentado, que associa diretamente conhecimento à experiência. Fica explícito que devemos buscar metodologias que acompanhem a ciência neste século, sem esquecer-se dos efeitos das teorias vinculadas aos media e ao desenvolvimento tecnológico do século xx que ainda sofremos.

Nesta segunda década do atual século, continuamos ainda em pleno trânsito, literalmente em passagem. As experimentações e teorias feitas até o final do primeiro milênio, por vários movimentos, muito contribuíram para novos projetos: teóricos, estéticos, políticos e sociais cuja práxis dividiu o planeta em duas ideologias. Constatação do óbvio: ainda estamos praticando as mesmas teorias, que ainda provocam as mesmas dúvidas em relação às justificativas e aplicabilidade. Retomar Kant, ao assumir que conhecimento e experiência revelam a essência do ser humano é caminhar em uma determinada direção em que há um saber adquirido, através da práxis, acumulado pelas vivências, verificado não só na herança cultural e na tradição, mas acima de tudo na necessidade de mais teorias e métodos. “O método é simples: produzir em nós as imagens, refletir sobre essas imagens, descrevê-las, isto é, tentar determinar e classificar seus traços distintivos” (Sartre, 1995, p. 16). Esta é a essência do método de Sartre que, racionalmente, diante das dificuldades e do saber subjetivo e instável, busca caminhos científicos “seguros” para um tipo de experiência que ainda se aplica em nosso contexto.

Não é possível avaliar em que dimensão poder-se-ia adaptar as teorias existentes ou, por outro lado, buscar novas que justifiquem a tentativa de delimitar os objetos, mesmo considerando ser interminável a tarefa do pesquisador que é a de circunscrever o objeto. No contexto contemporâneo, a práxis como aplicação da ciência, pressupõe também escolhas e decisões difíceis. O entrave maior está no caráter infinito da ciência que se contrapõe ao imediato da práxis. É neste sentido que a ciência não é mais a essência do saber sobre o humano e o mundo, pois parte da ciência moderna se traduz em experiência.

Considerações circunstanciais finais

Tornou-se necessário retomar algumas questões que tratam da história da ciência, pois os acontecimentos científicos colocados em sequência ou deslocados de seus contextos, crises e surgimento, exigem novas explicações e justificativas. No entanto, é importante salientar que a história da ciência não se constitui somente do acúmulo de práticas, de ideias e de teorias.

As questões filosóficas trazem à luz elementos que provam a importância da herança dos iluministas que, por sua vez, retomam Platão e Aristóteles ao proporem o uso livre da razão e do intelecto que viria a determinar a cultura do século xx, ressaltando o mundo da técnica com seus desdobramentos relacionados à informação, conhecimento e suas contradições.

Enfatizam-se o acréscimo da informação, o aumento do conhecimento, a inflação da informação e o que podem significar: por exemplo, “deflação do sentido”, crise que atinge o auge com os media, o computador e a internet. Estas discussões são necessárias para se pensar a imagem e os media nos dias de hoje, envolvendo, obviamente, os conceitos de digital, memória e inteligência artificial garantidas pelas tecnologias.

O tema da imagem como memória e apreensão de sentidos é pertinente na sociedade da informação, redes sociais com seus computadores. Estas máquinas de memória são vistas como capazes de registrar, transmitir e memorizar tudo. São insuperáveis, quando comparadas à Enciclopédie iluminista, que não conseguia uma atualização instantânea como fazem atualmente as redes sociais.

No entanto, todos os suportes materiais fazem e sempre fizeram esse mesmo papel: armazenar, prolongar e reter a memória humana, pois, diante da necessidade constante de atualização, se percebeu, inevitavelmente, os limites da memória humana, incluindo os objetos. Por exemplo, a arte com sua capacidade de reter, sensibilizar e transformar.

A proposta de se pensar as imagens como processos constantes de atualizações, trocas e compartilhamentos é também a tarefa de provocar interpretações em seus múltiplos sentidos e, mais ainda, instituir diálogos entre as artes e a tecnologia.

Sobretudo, resgatamos alguns pensadores como Italo Calvino e Jean-Paul Sartre que, ao fazerem colocações sobre suas propostas e teorias, deixam implícita a necessidade de isenção de preconceitos, nesta luta constante contra a generalização apressada, típica da natureza humana.

As observações de Calvino são fortes quando sugere muito cuidado e atenção especial às imagens que passam de um século a outro por meio das literaturas ou dos media que podem ser melhor recebidas se melhor adaptadas aos modos de apreensão, com especiais cuidados na precisão e no uso da linguagem. Por fim, chama atenção para a necessidade de se desenvolver experiências específicas para entender o novo século. Esta é a base de suas propostas.

Quando se discute as imagens e as teorias que as acompanham, Jean-Paul Sartre nega qualquer lógica na descoberta científica da Imaginação e Imaginário. Para ele, deve-se considerar tudo: insights, intuição, imaginário, imaginação, sensação, apreensão.

Neste sentido, é necessário fazer uma leitura atenta da profusão de teorias, discussões e metodologias como atividade constante rumo ao entendimento e conhecimento dos processos que envolvem a imagem. Metodologicamente, existe uma relação estreita entre imagem e cultura, ou mesmo tratar-se de uma imbricação perceptível nas práticas, nas trocas, e inclusive nos conceitos.

Por isso mesmo é que Sartre estabelece os estados de consciência relacionados diretamente aos conhecimentos e práticas formais, informais e técnicas que, por sua vez, se desdobram em efeitos que se ligam estreitamente a essas mesmas categorias, completando os vários sentidos nas relações humanas diretas como a própria essência da imaginação.

Desses estados, pensados como imaginação e cultura, é que se busca reunir as diferenças culturais divididas em países e regiões com suas especificidades como justificativas e atualização conceitual e teórica da imaginação, com todas as suas contradições observáveis no século atual.

Não se pode esquecer, por exemplo, do encontro frutífero das “Propostas” de Calvino com o “Imaginário e a Imaginação” de Sartre. Lembramos ainda dos caminhos sugeridos pelo autor italiano de que associou o pensamento do século xx e as grandezas e valores como uma tradução feliz para o século xxi.

Acrescente-se neste ensaio sobre as ideias dos dois autores, que foi possível estabelecer caminhos com vias diretas das filosofias francesa e alemã com a teoria da literatura. São discussões que já eram travadas no contexto do século xx e que seus reflexos teóricos e metodológicos ainda hoje são sentidos em relação às imagens e de sua produção e reprodução tecnológica como ferramenta inconstante. No atual universo das imagens, os objetos, os media, seus efeitos no Outro por meio das imagens são o centro contínuo de nosso interesse em reavalia-los e justifica-los como apreensão e seus muitos sentidos, valores, modos de produção e interpretação. É a relação do “Eu” com o “Outro” que na verdade é a essência da imaginação.

Referências

1. 1. Calvino, I. (1990). Seis propostas para o proximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras.

2. 2. Eco, U. (1994). Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras.

3. 3. Jiménez, J. G. (1993). Narrativa audiovisual. Madrid: Ediciones Cátedra.

4. 4. Kant, I. (2001). Crítica da razão pura. Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian.

5. 5. Platão (1979). Diálogos. São Paulo: Abril Cultural.

6. 6. Sartre, J. P. (1996). O Imaginário: Psicologia fenomenológica da imaginação. São Paulo: Editora Ática.

7.. 7. Sartre, J. P. (2011). Esboço para uma teoria das emoções. Porto Alegre: P&PM Pockt Plus.

Informação adicional

Para citar este artigo: De Morais, O. J. (2020). O Imaginário, imaginação e narrativas: esboço para uma teoria das imagens. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social “Disertaciones”, 13(2), 1-14. https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.8296

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