10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.15964
AVANCES (TEMA ABIERTO)
Valci Regina Mousquer Zuculoto1
Luis David Padilha2
Anderson Luiz Condor Baltar3
Arnaldo Zimmermann4
1 Universidade Federal de Santa Catarina, (Brasil)
valzuculoto@hotmail.com
0000-0002-2453-3990
2 Universidade Federal de Santa Catarina, (Brasil)
luisdavidpadilha@gmail.com
3 Universidade Federal de Santa Catarina, (Brasil)
andersonbaltar@email.com
https://orcid.org/0009-0005-5816-9065
4 Universidade Federal de Santa Catarina, (Brasil)
arnaldozimmermann@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-7128-6857
Artigo recebido: 10 de novembro de 2025
Artigo aprovado: 9 de março de 2026
Data de pré-publicação: 24 de abril de 2026
Para citar este artigo: Zuculoto, V. R. M., Padilha, L D., Baltar, A. L C, & Zimmermann, A. (2026). Webrádio universitário no Brasil: a historia de 25 anos da pioneira Rádio Ponto UFSC e suas coberturas especiais. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones", 19(2). https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.15964
RESUMO
A Rádio Ponto UFSC, webemissora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil, completou 25 anos de história em 2024. Pioneira no segmento do rádio universitário em ambiente web, realiza coberturas especiais de eventos nacionais e internacionais de destaque, ancoradas nas teorias, técnicas e práticas jornalísticas, bem como no experimentalismo e na experimentação. Este artigo, exploratório e em perspectivas histórica, descritiva e analítica, tem o objetivo de relatar e analisar essas coberturas evidenciadas em reconstituição da trajetória da estação, com foco na produzida em dois eventos relevantes em 2024: a greve geral das instituições federais de ensino superior no Brasil e as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, em uma das maiores catástrofes socioambientais desse estado brasileiro. O percurso metodológico está baseado na revisão bibliográfica, na análise documental e na observação participante. Principais resultados mostram que a Rádio Ponto UFSC tem buscado contribuir para a formação dos estudantes, para o jornalismo sonoro e, em especial, para o radiojornalismo universitário em momentos de relevância histórica nacional e internacional.
Palavras-chave: história da mídia sonora; rádio no Brasil; webrádio universitário; Rádio Ponto UFSC; coberturas radiofónicas especiais.
RESUMEN
Rádio Ponto UFSC, la radio web del curso de Periodismo de la Universidad Federal de Santa Catarina, Brasil, celebro sus 25 años en 2024. Pionera en el segmento de la radio universitaria en un entorno web, ofrece cobertura especial de importantes eventos nacionales e internacionales, basada en teorías, técnicas y prácticas periodísticas, así como en la experimentación. Este artículo exploratorio, desde una perspectiva histórica, descriptiva y analítica, busca reportar y analizar estas coberturas, evidenciadas en una reconstrucción de la trayectoria de la emisora, centrándose en las producidas en dos eventos relevantes de 2024: la huelga general de las instituciones federales de educación superior en Brasil y las inundaciones que azotaron Rio Grande do Sul, una de las mayores catástrofes socioambientales de ese estado brasileño. El enfoque metodológico se basa en la revisión bibliográfica, el análisis de documentos y la observación participante. Los principales resultados muestran que Rádio Ponto UFSC ha buscado contribuir a la formación de estudiantes, al periodismo sólido y, en particular, al periodismo radial universitario en momentos de relevancia histórica nacional e internacional.
Palabras clave: historia de los medios sonoros; radio en brasil; radio web universitaria; Rádio Ponto UFSC; cobertura radiofónica especializada.
ABSTRACT
Rádio Ponto UFSC, the web radio station of the Course of Journalism at the Federal University of Santa Catarina (UFSC), Brazil, celebrated its 25th anniversary in 2024. A pioneer in the online university radio segment, providing special coverage on important national and international events, anchored in journalistic theories, techniques, and practices, as well as experimentation. This exploratory article, from a historical, descriptive, and analytical perspective, aims to report and analyse these coverages, evidenced in a reconstitution of the station's trajectory, with its focus on those produced during two relevant events in 2024: the general strike of federal higher education institutions in Brazil and the floods that hit Rio Grande do Sul, one of the biggest socio-environmental catastrophes in that Brazilian state. The methodological approach is based on bibliographic review, document analysis, and participant observation. The main results show that Rádio Ponto UFSC has sought to contribute to the training of students, to sound journalism, and especially to university radio journalism, during moments of national and international historical relevance.
Keywords: History of Sound Media; Radio in Brazil; University Web Radio; Rádio Ponto UFSC; Special Radio Coverage.
A Rádio Ponto UFSC é uma emissora virtual pioneira no cenário do webrádio universitário brasileiro, vinculada ao curso de graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com participação ativa também do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da instituição. Completou 25 anos em 2024, tendo sido implantada em 1999, a partir do trabalho de conclusão de curso das então alunas Fabiana de Liz e Sabrina D'Aquino, sob orientação do professor Eduardo Meditsch (Zuculoto et ai, 2019b). Desde seus primeiros anos, consolidou-se como um projeto de extensão que se integrava com atividades curriculares do curso de graduação, sobretudo de práticas laboratoriais de ensino. Ao longo de sua trajetória, a estação passou também a se apoiar especialmente na pesquisa aplicada, desenvolvida na pós-graduação em Jornalismo da universidade (Zuculoto et al, 2013).
A emissora transmite conteúdo informativo, educativo, esportivo e cultural, em programas regulares — semanais e quinzenais —, além de coberturas especiais ao vivo e gravadas. Destacam-se as tradicionais coberturas da Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação da UFSC (Sepex), das eleições brasileiras e das Copas do Mundo de Futebol (feminina e masculina), entre outras. A grade de programação regular da Rádio Ponto UFSC, reorganizada semestralmente, conta com a produção dos núcleos esportivo, cultural e informativo.
No esportivo, em 2024, produziram-se os programas regulares Bola na Trave, sobre futebol, de responsabilidade exclusiva de alunos ingressantes; Grid de Largada, com tema automobilístico, e Ponto de Encontro, de debate esportivo. Do cultural, integraram Cine Ponto (notícias sobre filmes, séries e cinema), Fora da Bolha (que aborda temáticas variadas), Insira a Ficha (focado em jogos eletrônicos) e Pontuando (sobre literatura e histórias em quadrinhos). Já a produção do informativo contou com os tradicionais Senta que Lá Vem Notícia e O Som da Notícia — programas também produzidos pelos estudantes ingressantes, como práticas laboratoriais da disciplina de Áudio e Radiojornalismo, e que veiculam notícias da UFSC. Além destes, a estação irradiou dezenas de programas especiais resultantes dos trabalhos de conclusão das matérias das disciplinas — reportagens ou documentários chamados "tematiquinhos" e "temáticos" — e coberturas de eventos. Da disciplina de Radioteatro, obtiveram-se reportagens audiodramatizadase radionovelas.
A webemissora, assim, acolhe iniciativas de disciplinas e projetos da graduação, bem como a participação de estudantes do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. Expande as atividades na área da pesquisa, em especial, com o Grupo de Investigação em Rádio, Fonografía e Áudio (Girafa-UFSC-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq]). Com isso, constrói uma trajetória que busca a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Voltada ao interesse público, a programação da Rádio Ponto pretende garantir o direito da sociedade à informação ética, plural e qualificada, promovendo a educação, a cultura e o exercício da cidadania. No geral, suas produções procuram se distinguir da mídia comercial, para construir alternativas à audiência, principalmente ao oferecer noticiário sobre a produção de conhecimento da UFSC e informações sobre o ensino superior no Brasil.
Em sua trajetória, a emissora também realiza edições extraordinárias de grandes coberturas jornalísticas, como a da pandemia de covid-19, em 2020, o falecimento do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, em 2017, movimentos grevistas e ocupações estudantis na universidade, além de cobrir recorrentes fenómenos climáticos, sobretudo enchentes, que atingem o estado de Santa Catarina, pautas abordadas pela estação desde a década de 1990. Essas produções especiais têm conferido à Rádio Ponto UFSC papel referência no webrádio universitário brasileiro.
Com base nessa contextualização introdutória, este artigo, exploratório e sob perspectivas histórica, descritiva e analítica, relata e reflete a cobertura especial extraordinária realizada pela Rádio Ponto UFSC durante dois eventos de grande relevância em 2024: a greve geral das instituições federais de ensino superior no Brasil e as enchentes que atingiram a maior parte do estado vizinho a Santa Catarina, o Rio Grande do Sul, afetando mais de 2,4 milhões de pessoas (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, 2025).
Evidencia-se como a Rádio Ponto UFSC operou durante essa cobertura, descrevendo o planejamento e as rotinas de produção, bem como o trabalho voluntário e colaborativo entre estudantes de graduação e pós-graduação, além da transmissão, veiculação e circulação de cada edição do programa. Buscou-se refletir, a partir de uma reconstituição da trajetória histórica da Rádio Ponto e de suas coberturas, sobre as fases dessa programação especial, verificando se e como houve alinhamento ao papel do rádio universitário, à função do jornalismo e, sobretudo, aos objetivos da própria Rádio Ponto UFSC. Entre estes, destacam-se a produção de programação educativa, cultural e informativa, voltada ao interesse público e à promoção da cidadania, articulando ensino, pesquisa e extensão.
Durante a cobertura de 2024, entre maio e julho, a programação da Rádio Ponto UFSC foi temporariamente substituída pelo Repórter UFSC Especial, programa ativado em acontecimentos extraordinários. A produção envolveu mais de 50 estudantes de graduação e pós-graduação em Jornalismo da UFSC — entre bolsistas, monitores(as), extensionistas voluntários(as) —, bem como professores(as), pesquisadores(as) e servidores(as) da universidade, que, naquele período, tiveram o semestre letivo suspenso pela greve nacional nas instituições federais de ensino superior. Ao todo, foram ao ar 26 edições do programa, transmitidas entre 10 de maio e 26 de julho de 2024. Com a retomada das atividades letivas em julho, a cobertura foi integrada à disciplina de Áudio e Radiojornalismo, dirigida a estudantes do primeiro semestre do curso de graduação em Jornalismo.
Breve contexto histórico da Rádio Ponto e de suas coberturas
A história da Rádio Ponto UFSC começa ainda antes da sua criação. Atividades precursoras de articulação entre ensino (teoria e prática), pesquisa e extensão no contexto do radiojornalismo já eram desenvolvidas em projetos anteriores do curso, como o Universidade Aberta. Esse projeto consistia em um site atualizado diariamente e em tempo real, com noticiário da UFSC e do ensino superior no Brasil (Frighetto et al., 2005). Além disso, eram produzidas reportagens que, na falta de uma estação própria, veiculavam em emissoras comerciais da cidade, como a Rádio CBN Diário, hoje CBN Floripa, uma das principais estações de Florianópolis (Padilha, 2024).
Em 1994, o Laboratório de Radiojornalismo da UFSC, atuando ainda como produtora e participante do projeto Universidade Aberta, integrou a cobertura da 46a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Tais reuniões ocorrem desde 1949, agregando autoridades, cientistas e gestores na discussão do avanço em ciências e políticas públicas em diversas áreas do conhecimento (SBPC, 2025). Essa cobertura pioneira ocorreu na cidade de Vitória, no Espírito Santo (Zuculoto et al., 2013), e inaugurou uma formação de rede de emissoras e projetos radiofónicos universitários que se repetiu nos 10 anos seguintes, sempre para cobriras Reuniões Anuais da SBPC. Esses grandes e tradicionais eventos da SBPC ocorriam sempre em julho, e suas coberturas eram realizadas em uma parceria de emissoras e cursos de universidades, transmitindo a reunião em uma rede nacional educativa e universitária de rádios. Na década de 1990, as grandes coberturas pela área de rádio do Jornalismo da UFSC foram se ampliando, abrangendo eventos diversos e de grande impacto para a sociedade. Já neste período, coberturas especiais eram realizadas e um dos exemplos que pode ser apontado foi o da greve nacional das universidades federais no ano de 1998. Com a paralisação dos professores e trabalhadores, ela foi realizada na Universidade Federal de Santa Catarina, colaborando via telefone e internet com demais instituições de ensino superior (Padilha, 2024).
No decorrer dos anos 1990, previamente à criação da Rádio Ponto UFSC e no âmbito do projeto Universidade Aberta, ocorreram as primeiras grandes coberturas especiais — entre elas, a eleição para reitor da UFSC —, que se tornaram referência para a programação futura da webemissora (Padilha & Zuculoto, 2024).
Meditsch e Frighetto (2015) destacam que, nos anos iniciais, o projeto Universidade Aberta, assim como a Rádio Ponto UFSC, definiu a linha editorial com assuntos relacionados à UFSC e à educação superior no país. Nesse contexto, atuava como fonte de informação para a população local e para a comunidade universitária sobre os serviços do Hospital Universitário, além de atuar na divulgação de palestras, eventos e pesquisas realizadas na UFSC, abordar a segurança do campus e em seus arredores e, evidentemente, acompanhar greves e eleições.
No início dos anos 2000, as coberturas especiais continuaram sendo produzidas. No ano de 2004, por exemplo:
[...] foram realizadas diversas coberturas jornalísticas especiais. Uma delas foi a cobertura do projeto de Reforma Universitária. No começo do ano de 2004, o Governo Federal anunciou que iria enviar um projeto de lei ao Congresso promovendo mudanças no ensino superior. Professores, servidores técnico administrativos, alunos e a comunidade em geral começaram a debater o assunto e o "Unaberta Online" fez uma extensa e aprofundada cobertura sobre o tema. Além das matérias diárias e factuais [...] foram realizadas reportagens especiais sobre a Reforma. Durante a cobertura, tanto a posição do Ministério da Educação como a posição das entidades ligadas à educação foram ouvidas. Outra cobertura especial foi a greve dos servidores técnico-administrativos. (Frighetto et al., 2005, p. 5)
Em 2002, a webemissora realizou a sua primeira cobertura da Sepex da UFSC, hoje denominada "Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação", um dos maiores eventos académicos universitários da região. De forma ininterrupta até a atualidade, a rádio produz essa cobertura com dezenas de alunos voluntários e bolsistas.
Quando o projeto Universidade Aberta foi encerrado, em 2007, a Rádio Ponto UFSC passou a cobrir sozinha esses eventos. Porém, o aprendizado e o legado do projeto predecessor deram subsídios para a realização das grandes coberturas especiais posteriores e para torná-las o "carro-chefe" de sua programação até o presente.
Nessa perspectiva de programações de referência, em 2010, a Rádio Ponto produziu a sua primeira cobertura de Copa do Mundo de futebol, a da África do Sul, mesmo já havendo realizado uma cobertura-teste no evento da Alemanha, quatro anos antes, passando a abarcar várias competições esportivas, incluindo os Jogos Olímpicos de 2024. Em 2012, inaugurou as coberturas especiais de eleições, produzindo cerca de 20 horas de transmissão ininterrupta daquele pleito municipal. Com uma grande equipe, orientada pelos professores Eduardo Meditsch e Valei Zuculoto, transmitiu boletins especiais de vários pontos de Florianópolis, operando via estúdio na universidade e atualizando as principais informações de outras capitais do país (Zuculoto et al., 2013).
Outra cobertura eleitoral municipal de grande destaque foi a de 2016, que fortaleceu a atividade, interligando o exercício e atividade profissional com o caráter pedagógico do projeto.
Além dos conteúdos jornalísticos, a equipe preparou também um Manual de Planejamento e Produção de Cobertura que foi previamente enviado a todos os alunos e professores envolvidos no projeto. O documento contemplou as informações contextuais sobre as eleições, as orientações gerais para a produção de conteúdo jornalístico e as orientações específicas para as atividades que seriam realizadas. A cobertura incluiu os dois turnos das eleições. [...] Participaram alunos dos diferentes semestres do curso de graduação e alunos da pós-graduação, também outros professores do Departamento de Jornalismo. (Zuculoto et al., 2019a, p. 54, grifo dos autores)
Em 2018 e 2022, houve a cobertura das eleições nacionais, acompanhando as votações para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais em todo o país. Na eleição de 2018, todos os veículos do curso de Jornalismo da UFSC se envolveram, além de professores de outras universidades, convidados especiais e demais colaboradores, incluindo alunos em intercâmbio no exterior, com transmissão ao vivo e em diferentes mídias (Paulino et al., 2019).
Nessa cobertura de 2018, desenvolveu-se outra experiência inovadora, o #JorConvergente, que é a integração de diversos projetos e mídias do Jornalismo da UFSC — à época, TJUFSC (telejornalismo), Rádio Ponto UFSC (radiojornalismo), Jornal Laboratório Zero (jornalismo impresso) e FotoLivre (fotojornalismo), entre outros grupos também de pesquisa. Todos produzindo com suas respectivas expertises e convergindo pelo Progressive Web Apps para o aplicativo #JorConvergente. Lançada pela Google em 2015, essa tecnologia contempla 10 aspectos: ser progressivo, responsivo, independente de conectividade, semelhante a aplicativos, atual, seguro, descobrível, reenvolvente, instalável e linkável (Paulino et al., 2019).
O #JorConvergente buscou a aproximação de diversas áreas do curso de Jornalismo da UFSC em um único produto, ainda que cada área mantivesse suas especificidades de produção e publicação. Cada mídia do curso prosseguiu com suas publicações e veiculações específicas, mas partilhou pautas, equipes de reportagem e produção, convergiu e concentrou em um único ambiente por meio da tecnologia PWA, o que possibilitou a visibilidade da totalidade da cobertura das eleições (Paulino et al., 2019). A experiência de 2018 foi destacada nacionalmente em 2020 com o recebimento de menção honrosa no Prémio Adelmo Genro Filho (PAGF), categoria Pesquisa Aplicada.
O PAGF é conferido anualmente pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo e considerado a maior premiação brasileira do campo académico jornalístico.
Em 2020, aconteceu uma nova cobertura, que se mostrou bastante desafiadora. Desde 17 de março até julho, foi produzido o Repórter UFSC no combate ao coronavírus, mesmo sem acesso aos estúdios da estação.
A equipe própria da estação e da área de rádio do Jornalismo UFSC [...] rapidamente planejou uma cobertura especial e passou a produzir o podcast "Repórter UFSC" [...]. Denominada "Repórter UFSC no combate ao coronavírus!", a cobertura, ao mesmo tempo em que foi pautada e executada, buscou a ampliação da reduzida equipe, abrindo-se à integração de voluntariado, como é tradicional nas coberturas especiais produzidas pela webemissora. (Zuculoto et al., 2020, p. 3)
Com os alunos trabalhando em formato home office, voluntários da graduação e pós-graduação, além dos bolsistas, produziram boletins, matérias e reportagens. O material foi editado e, posteriormente, publicado nas redes sociais da webemissora, assim como em seu perfil no Spotify e em demais redes de streaming. Nesse período, as atividades foram realizadas por meio de smartphones e computadores pessoais, com envio, edição, decupagem e veiculação de forma totalmente remota. A equipe se comunicava por meio de e-mails e pelo WhatsApp.
A partir dessas experiências acumuladas por décadas, em 2024, novamente realiza uma cobertura extraordinária. Desta vez, sobre o desastre socioambiental no Rio Grande do Sul, ocorrido de forma concomitante com a greve nacional nas universidades e institutos federais do país.
Rádio Universitário no Brasil — um rápido traçado
Neste artigo, ao empregarmos o termo "rádio universitário", compreendemos o cenário brasileiro, que inclui, além das emissoras radiofónicas universitárias do país (estações de antena e virtuais), programas, serviços e/ou produtos desenvolvidos em instituições de ensino superior.
O atual panorama da radiodifusão universitária no Brasil se encontra em expansão, em especial quando observamos os movimentos das outorgas de canais educativos e da percepção de sua relevância social e cultural, para se constituir em meio comunicacional que consegue dialogar com diversos públicos de interesse que as instituições de ensino superior possuem (Kischinhevsky et al., 2019).
Como afirmam Marta-Lazo e Martín-Pena (2013), nas emissoras universitárias, reside um modelo diferenciado de se fazer rádio e isso se deve às suas próprias características. Entre elas, o contexto em que atuam, os agentes que delas participam, as temáticas abordadas, o perfil do público a que se destinam e a função de promover a transferência de conhecimento para a sociedade. Dessa forma, essas emissoras cumprem um papel essencial de integração entre a Academia e a comunidade.
Além disso, Rubio (2014) destaca que falta ao rádio universitário o poder de se contagiar com a juventude, o que permite que a criatividade das novas gerações chegue aos microfones e, ao lado de profissionais mais experientes, combine a experiência e o conhecimento com a vontade de realizar coisas novas.
A partir de experiências empíricas, observa-se, no Brasil, que as estações universitárias não ancoradas em interesses comerciais costumam oferecer outro tipo de discurso, estando mais próximas de uma ideia coletivista, dos movimentos sociais e culturais, além de experimentação de novos formatos, prática pouco desenvolvida na mídia tradicional (Vázquez-Guerrero, 2021). Outro aspecto relevante diz respeito ao modelo de financiamento das rádios universitárias, que não envolve a gestão de recursos provenientes da venda de espaços publicitários, de patrocínios ou de qualquertipo de produto comunicacional (Carrión, 2018).
Assim, percebemos o rádio universitário como um espaço plural, integrado no campo público da comunicação, não visando ao lucro e inserido na realidade da universidade, aqui tendo como foco a horizontalização entre as práticas laboratoriais de ensino radiofónico, a pesquisa, especialmente a aplicada, e a extensão. Isso possibilita a elaboração de produções voltadas ao ensino-aprendizado e a veiculação de programação diferenciada de jornalismo sonoro, como alternativa à audiência e contribuição ao desenvolvimento do rádio universitário brasileiro.
Como Casajus e Vázquez-Guerrero (2014), entendemos que esse tipo de conformação oportuniza espaço privilegiado para os rádios universitários, especialmente a partir do seu perfil participativo, plural, alternativo e aberto a uma constante experimentação no contexto educativo universitário.
Vázquez-Guerrero (2021) destaca que o rádio universitário se insere como um meio institucional dedicado à oferta de produtos sonoros de interesse público, com conteúdos especializados e diversificados. De modo geral, sua principal função é difundir o conhecimento para a sociedade e, simultaneamente, refletir em sua programação os propósitos que assume enquanto parte de um sistema de ensino, conforme os estatutos e regulamentos vigentes em cada país.
Papel do rádio em cobertura jornalística de eventos climáticos
O meio "rádio", historicamente, desempenha papel fundamental em coberturas de situações extremas, como desastres socioambientais, compreensão que adotamos para referir-nos a catástrofes que derivam de eventos climáticos, mas que não podem ser naturalizadas como decorrentes apenas de fenómenos naturais. Suas causas são também sociais, políticas e económicas, com consequências que atingem esses mesmos contextos. Segundo Alves et al. (2020), há um conjunto de fatores que envolvem a interferência humana e a vulnerabilidade social que não devem ser dissociados da ocorrência do desastre em si. Dessa forma, enchentes como as enfrentadas pelos municípios do Rio Grande do Sul, no Brasil, em 2024, revelam a fragilidade da população em um sistema social abalado por mudanças climáticas, ocupações humanas desordenadas e baixa capacidade de gerenciamento de riscos. Para Mattedi et al. (2009), os fenómenos socioambientais convertem a fragilidade natural em vulnerabilidade social. Assim, desastres classificados como socioambientais conjugam a ação humana com a resposta da natureza.
A tradição do rádio nessas coberturas de calamidades e tragédias socioambientais é marcada por sua característica de mobilidade e autonomia em relação à energia elétrica, facilitando deslocamentos durante as produções e conexão em tempo real com o público. Dentro da nova sonosfera, contudo, somam-se ferramentas contemporâneas utilizadas pelos radiojornalistas e pela audiência a partir de smartphones e de outros equipamentos. A importância do rádio diante da eclosão de desastres evidencia o uso desses novos aparatos, que se assemelham aos antigos e pequenos rádios portáteis, porém com o incremento da internet e da recepção e manipulação de imagens, textos e vídeos. A cultura da portabilidade (Kischinhevsky, 2009) se torna emergente e necessária em momentos em que a energia elétrica e o sinal de internet estão ativos, como também nas ocasiões de escassez e de interrupções prolongadas, evitando o total isolamento informativo da população.
Em uma perspectiva histórica, o rádio sempre foi considerado um meio de comunicação popular, de alto grau de interatividade com seus ouvintes e de elaboração facilitada do relato jornalístico durante eventos climáticos, garantindo simultaneidade no processo informativo, no que Meditsch (2007, p. 210) denomina "vivo em quarto grau", com a isocronia dos tempos do acontecimento, da produção, da enunciação e da recepção. A aplicação dessa simultaneidade em coberturas de fatos inesperados, como os desastres, coloca o público em um alto grau de sensorialidade (Ortriwano, 1985), gerando forte efeito de realidade a partir da fusão de contextos em tempo real.
Desastres socioambientais como o registrado no Rio Grande do Sul em 2024 estão cada vez mais presentes e em maiores proporções em nosso cotidiano. Além das perdas humanas e da destruição material, são episódios que impõem alterações bruscas na rotina do público, exigindo que os meios de comunicação e seus profissionais aliem antigas habilidades com novas ferramentas no exercício da cobertura jornalística (Zimmermann, 2012).
No caso do rádio, episódios que envolvem principalmente enchentes e enxurradas desafiam sua capacidade de resiliência, sobretudo por unir tecnologias acessíveis aos seus ouvintes-internautas com uma ampla tradição em conjugar informação, orientação e utilidade pública (Zimmermann & Zuculoto, 2024). Ferraretto (2024) observa que o foco principal das emissoras de rádio gaúchas durante a enchente de 2024 acabou sendo a prestação de serviços, mas que, em muitos momentos, o rádio assumiu o lugar da comunicação pública e da comunicação governamental ao informar a população e cobrar respostas das autoridades. Dessa forma, é a agenda pública que se sobressai à agenda institucional, o que representa novos desafios para os veículos de comunicação de massa e para as emissoras públicas e universitárias, especialmente em momentos de incertezas geradas pelas revelações do imprevisível, comuns em eventos climáticos.
Percurso metodológico
Com caráter exploratório e sob perspectivas histórica, descritiva e analítica, este artigo tem como objetivo geral evidenciar e analisar a cobertura especial realizada pela Rádio Ponto UFSC, apresentando como objeto empírico central a produzida pela webemissora entre maio e julho de 2024. Os dois eventos abordados foram a greve geral das instituições federais de ensino superior no Brasil — que mobilizou 62 universidades e institutos — e as enchentes que devastaram parte do Rio Grande do Sul.
O Repórter UFSC Especial é um programa da grade da emissora ativado em momentos de acontecimentos extraordinários. Na cobertura de 2024, toda a programação da Rádio Ponto UFSC foi temporariamente substituída pelo programa. A análise traz a descrição dessa produção, que envolveu mais de 50 estudantes de graduação e pós-graduação em Jornalismo da UFSC, além de professores(as), pesquisadores(as) e servidores(as) da universidade. Neste estudo, observamos 26 edições do programa durante três fases distintas da cobertura, que ocorreu entre 10 de maio e 26 de julho de 2024.
Como um dos objetivos específicos, revisitam-se os 25 anos da Rádio Ponto UFSC a partir do fio condutor das coberturas especiais. Reconstituição histórica necessária para compreender a cobertura contemporânea em foco e com o intuito de refletir sobre a forma como a emissora articula ensino, pesquisa e extensão — uma dinâmica de funcionamento que a consolida como referência no âmbito do rádio universitário. Nesse sentido, há uma dimensão universal explorada no estudo, que confere à própria trajetória da Rádio Ponto UFSC uma perspectiva histórica por meio de sua estruturação que agrega ensino, pesquisa e extensão.
Outro objetivo específico está relacionado diretamente com a cobertura especial das enchentes do Rio Grande do Sul e a greve geral nas universidades e institutos federais por todo o país em 2024. Tal objetivo busca descrever e analisar as fases operacionais jornalísticas adotadas pelas equipes durante esses dois acontecimentos de relevância nacional.
A pesquisa histórica está fundamentada, principalmente, nas contribuições teóricas de Marialva Barbosa (2019, 2021). Sob o aspecto histórico, observamos, em Barbosa (2020), a percepção de que nosso movimento é a própria dimensão histórica, em que a totalidade das coisas são transitórias e estão tanto permanentemente em construção quanto em reconstrução. Müller e Iegelski (2022) também pontuam sobre o pensar da discussão da história do tempo presente dentro de um contexto presentista, mas que requer elaborar diagnósticos de como chegamos até a contemporaneidade. Assim, corroboramos a proposta de Barbosa (2021), segundo a qual estudos históricos de qualquer natureza comunicacional são, por si, estudos da própria natureza histórica. Nesse sentido, tratar estudos da comunicação que abandonem a perspectiva processual leva a considerar o nosso tempo presente como absoluto; contudo, devemos pensar nas relações fundantes: passado, presente e futuro. Barbosa (2019) ainda nos diz que é de suma importância deter conhecimento sobre o passado, pois, sem ele, corremos o risco de ignorar as processualidades históricas, isto é, aquilo que vem do passado até o tempo presente.
Há também uma dimensão particular, construída a partir do acumulado de conhecimento sobre suas práticas laboratoriais em coberturas históricas, estabelecendo elos de aprendizagem entre eventos anteriores e posteriores, como é o caso da tradição da webemissora em cobrir períodos de greves universitárias. Considera-se uma dimensão singular que, por sua essência, problematiza a presente pesquisa, ao analisar a cobertura de dois eventos específicos diante de desafios diversos, como manter e ampliar o conhecimento técnico da prática jornalística, mesmo em uma situação de greve, com riscos de perdas operacionais, e o distanciamento geográfico em relação ao local dos acontecimentos, no caso o Rio Grande do Sul com suas enchentes.
Foram adotadas, como estratégias metodológicas, a revisão bibliográfica (Martino, 2018), a análise documental como método e técnica (Moreira, 2005), com base nas dimensões e movimentos propostos por Cellard (2012), que incluem desde a seleção e pré-avaliação dos documentos a serem analisados até o seu exame e interpretação detalhada, além da observação participante, que, segundo Martino (2018), permite ao pesquisador ter uma experiência direta que nenhum outro método proporciona. A observação participante foi possível pelo fato de os autores do presente artigo terem atuado na cobertura: a professora Valei Zuculoto é a coordenadora da Rádio Ponto; o doutorando Luis David Padilha, do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo, ocupa a função de produtor-chefe; o doutorando Anderson Baltar, como editor-chefe; enquanto o pós-doutorando Arnaldo Zimmermann é colaborador com reportagens, comentários, pautas e outras contribuições jornalísticas. Todos integram o Girafa-UFSC-CNPq.
O uso dessas abordagens e procedimentos metodológicos deriva da compreensão de que a pesquisa histórica de fenómenos do passado deve englobar uma visão processual, a qual se desenvolve até a contemporaneidade e é percebida pelas ações do "homem" no mundo (Barbosa, 2019, 2021). Para atender às demandas do trabalho, o estudo debruça-se sobre os próprios documentos em áudio gerados pela Rádio Ponto UFSC durante a produção da cobertura da greve universitária e da enchente no Rio Grande do Sul, em 2024, em seus 26 episódios.
O Repórter UFSC Especial de 2024
O povo gaúcho — como se designa quem nasce no estado do Rio Grande do Sul — enfrentou, no ano de 2024, uma das maiores catástrofes de sua história. As inundações que tiveram início no dia 27 de abril e se estenderam por grande parte do mês de maio daquele ano atingiram 471 municípios do Rio Grande do Sul, o equivalente a 95% das cidades do estado. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia, maio de 2024 foi o mais chuvoso mês da história da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, desde 1910, com 539,9 milímetros registrados, muito superiores à média natural de 300 a 400 mm. Mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas e quase 80 mil ficaram desabrigadas. A tragédia registrou 183 mortos e 27 desaparecidos (Suarez et al., 2024).
A cobertura jornalística da catástrofe no Rio Grande do Sul em 2024 exigiu dos meios de comunicação atenção para um evento de proporções históricas. O grande volume de chuvas causou inundações em diversas regiões do estado, inclusive na região metropolitana de Porto Alegre, onde o nível do lago Guaíba chegou a 5,37 metros de altura, inundando completamente a região central e diversos bairros. Cidades como Canoas e São Leopoldo ficaram com diversas áreas submersas.
Por todo o país, aconteceram campanhas de arrecadação que destinaram ao Rio Grande do Sul toneladas de alimentos, roupas, colchões e materiais de higiene e limpeza. O Governo Federal aplicou quase R$100 bilhões em ações emergenciais e programas de reconstrução do estado.
Paralelamente, as universidades públicas federais brasileiras passavam por um intenso movimento grevista. Iniciada em 11 de março, a paralisação, no seu ápice, em maio e junho, atingiu 62 das 69 universidades e dezenas de institutos federais. Restrita em um primeiro momento aos(às) servidores(as) técnicos-administrativos, logo contou com a adesão dos docentes. Na UFSC, as aulas foram suspensas no dia 7 de maio. Dias depois, em apoio, os estudantes também pararam suas atividades. O movimento durou até o dia 24 de junho, quando os professores voltaram às salas de aula. Os(as) servidores(as) estenderam a greve até o dia 8 de julho.
Por conta da situação da UFSC, a Rádio Ponto, que transmite ao vivo pelo seu canal do YouTube e disponibiliza as produções em plataformas de streaming como o Spotify, suspendeu sua programação normal a partir de maio de 2024. Assim que as aulas foram interrompidas, todos os esforços da emissora se voltaram para a produção do Repórter UFSC Especial. O programa, com seus 26 episódios veiculados entre 10 de maio e 26 de julho, contou com a participação voluntária de 51 alunos, sendo 48 da graduação e três da pós-graduação. Os radiojornais tiveram durações que variaram entre 15 e 40 minutos, de acordo com a extensão da pauta. Por questões operacionais e pedagógicas, o produto foi passando por modificações ao longo da cobertura. Por conta disso, podemos dividi-lo em três fases distintas: programas diários (entre 10 de maio e 4 de junho), com 16 edições; programas semanais (entre 7 e 28 de junho), com seis veiculações; integração com o plano de ensino do semestre (entre 5 e 26 de julho), com quatro programas.
Fase 1. Programas diários
Com a suspensão das aulas, a realização do Repórter UFSC foi, além de seu caráter extensionista, uma forma de manter os bolsistas, monitores e voluntários da Rádio Ponto UFSC em plena atividade, com a preocupação de veicular, para a comunidade académica e para amplos setores da sociedade, informações relevantes sobre os dois principais eventos que mobilizavam as atenções naquele momento histórico. Conceitualmente, a emissora, como parte integrante do curso de Jornalismo, entende que, em momentos de greve, é fundamental ocupar o espaço universitário para a produção de conhecimento e reflexão sobre o contexto social e político do presente.
Assim, foi tomada a decisão de veicular programas diários, apurados, produzidos, editados e apresentados por estudantes de graduação e pós-graduação, de segunda a sexta-feira, às 17 horas. A sala de aula do Laboratório de Rádio transformou-se em uma verdadeira redação, com escalas de trabalho predefinidas e repórteres que atuavam no período da manhã e da tarde. O doutorando Anderson Baltar assumiu o cargo de editor-chefe e coordenou um trabalho que tinha uma rotina preestabelecida, com um banco de pautas montado de véspera e que era atualizado à medida que os acontecimentos se sucediam. Essa fase contou com a participação de 32 estudantes, sob a coordenação dos professores Valei Zuculoto e Áureo Moraes.
A estratégia de busca de notícias para os dois eventos foi bastante distinta. No que diz respeito à greve das universidades, os alunos foram estimulados a buscar uma apuração direta, em contato contínuo com os agentes do movimento. Os repórteres apuraram especialmente junto a fontes da própria universidade, da Associação dos Professores da Universidade Federal de Santa Catarina, entidade sindical representativa dos docentes, do Sindicato de Trabalhadores em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, sindicato dos técnicos-administrativos e do Diretório Central dos Estudantes. Em todos os principais eventos da mobilização, como passeatas e manifestações, a equipe de reportagem estava presente, registrando os fatos por meio de boletins ou de entrevistas ao vivo ou pré-gravadas. Nas principais assembleias, repórteres acompanhavam presencialmente as discussões, com entradas ao vivo ou boletins gravados, trazendo a ambientação instantânea ou imediata do acontecimento jornalístico.
Para a cobertura da catástrofe no Rio Grande do Sul, a equipe do Repórter UFSC dedicou-se a acompanhar o noticiário da imprensa sobre o evento, as mídias e redes sociais e, a partir disso, fazer a checagem das informações e produzir boletins radiofónicos. Um diferencial da cobertura do Repórter UFSC foi a presença recorrente do jornalista e professor Luciano Klõckner, que, diretamente de Porto Alegre, no local do evento, enviava informes sobre a situação no estado gaúcho, relatando o número de vítimas fatais, desaparecidos e desabrigados, além de trazer informações sobre as ações governamentais para a mitigação dos estragos. Na edição de 27 de maio, o também jornalista e professor Arnaldo Zimmermann enviou um boletim, desde o município catarinense de Blumenau, com um panorama sobre a chegada das chuvas a Santa Catarina, onde os estragos foram menores do que no Rio Grande do Sul.
Vozes especializadas também foram reverberadas pelo Repórter UFSC Especial. Diariamente, o programa trazia a previsão do tempo para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, elaborada especialmente por meteorologistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina-Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina, órgão do governo catarinense que realiza o monitoramento das condições climáticas. Na edição de 20 de maio, o professor Elson Pereira, do curso de Geografia da UFSC, concedeu entrevista, por audioconferência, sobre planejamento urbano e medidas que poderiam ter sido tomadas para evitar a catástrofe climática.
Fase 2. Programas semanais
No início do mês de junho, as chuvas no Rio Grande do Sul já haviam cessado e, aos poucos, as águas começaram a baixar, o que revelou o cenário de destruição e evidenciou a magnitude do trabalho de reconstrução que seria necessário. Por sua vez, a greve nas universidades federais perdurava, com um quadro de impasse nas negociações entre sindicatos e o Governo Federal. A mobilização passou a ter momentos de maior tensão, como a ocupação, por estudantes, do prédio do Centro de Comunicação e Expressão, onde a Rádio Ponto UFSC fica sediada. O movimento começou no dia 6 de junho e se estendeu por aproximadamente um mês. Mediante a negociação com os grevistas e a demonstração de que a emissora era aliada na divulgação qualificada dos fatos, o acesso à redação e aos estúdios foi liberado.
Com o prolongamento da greve, por residirem em outros municípios ou estados, muitos estudantes se ausentaram do campus. Por conta disso, principalmente, a direção da Rádio Ponto decidiu realizar o Repórter UFSC Especial em edições semanais, nas sextas-feiras (7,14, 21 e 28 de junho), às 17h. Foi previsto que, em casos de eventos urgentes, seriam produzidas edições especiais — o que acabou acontecendo em duas ocasiões. No dia 10 de junho, o programa foi ao ar em especial para cobrir a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os reitores das universidades federais e com a assembleia do movimento grevista. E a edição extra do dia 17 de junho se justificou pela decisão dos professores em encerrar a greve, que seria colocada em prática no dia 24 do mesmo mês.
Com uma periodicidade semanal e uma equipe menor (nessa fase, 18 estudantes da graduação e pós-graduação participaram), a rotina de produção foi modificada. Os repórteres passaram a ter um tempo maior para a realização das pautas que, em sua grande maioria, focaram o cotidiano da greve nas universidades. Matérias sobre o Rio Grande do Sul continuaram a ser produzidas, com o viés da contabilização dos prejuízos e das primeiras ações para a retomada da vida normal no estado gaúcho.
Um destaque dessa fase foi uma reportagem realizada por Deborah Caetano, que, na edição de 21 de junho, contou o que ela observou, in loco, como voluntária no apoio aos desabrigados do Rio Grande do Sul. Em seu boletim, trouxe um relato fiel do desespero que moradores do bairro Mathias Velho, em Canoas, passaram com a inundação:
No último domingo, acompanhei uma equipe de voluntários que se deslocou até o bairro Mathias Velho, na cidade de Canoas. O bairro é o maior da cidade e foi um dos mais atingidos pela enchente. Os moradores relataram que receberam os alertas de evacuação da Defesa Civil, mas que não imaginavam a dimensão da catástrofe e a maioria deles permaneceu em casa. Também contam do descaso governamental em negligenciar a manutenção das bombas de drenagem [...] Outra questão é que os civis agora precisam limpar suas casas, mas é muito difícil, já que o barro de mais de um mês de água parada não sai facilmente e não há energia elétrica em todas as ruas, pelo risco de um curto-circuito. A maioria dos moradores está extremamente fragilizada, pois a perda foi muito além de bens materiais como eletrodomésticos, móveis, e engloba também memórias como fotografias, documentos, entre outros. Os sentimentos de frustração, desânimo e medo de novas enchentes perpassam o coração dos gaúchos de Mathias Velho. (Repórter UFSC Especial, 2024)
O mês de junho foi marcado pelo fim da greve nas universidades federais e pelo início da reconstrução do Rio Grande do Sul. E isso promoveu modificações no programa, que, a partir de julho, entrou em sua terceira fase.
Fase 3. Integração ao projeto pedagógico da graduação
No mês de julho, ocorreu a volta às aulas na UFSC. Assim, o Repórter UFSC Especial passou a ser um programa produzido pelos alunos da primeira fase, na disciplina de Áudio e Radiojornalismo I, ministrada pela professora Valei Zuculoto. Após dois meses de paralisação de aulas e com um calendário que apontava a reposição até meados de agosto, a docente decidiu incorporar o programa ao plano de ensino da disciplina. Afinal, por conta da greve, os 30 alunos, divididos em duas turmas, deixaram de produzir os radiojornais previstos inicialmente, O Som da Notícia e Senta que lá vem a Notícia. Para auxiliar a docente, o doutorando Anderson Baltar passou a atuar como estagiário docente voluntário e continuou como editor-chefe do Repórter UFSC Especial. Bolsistas e monitores também participaram, perfazendo um total de 35 alunos.
Nessa fase, foram ao ar quatro programas, sempre nas sextas-feiras (5,12,19 e26 de julho), às 17h. Parte das aulas da disciplina era utilizada para a realização de reuniões de pauta e, ao longo da semana, os alunos produziam os boletins na redação e estúdios do Laboratório de Rádio. O acompanhamento do rescaldo das chuvas e das primeiras ações de reconstrução do Rio Grande do Sul continuou sendo pautado.
O Repórter UFSC Especial prosseguiu também com o foco voltado à UFSC, sobretudo com reportagens sobre a retomada das atividades da universidade, que se normalizaram totalmente apenas após o dia 8 de julho, com o fim da greve dos(as) servidores(as) técnico-administrativos. O programa voltou a entrevistar o reitor Irineu Manoel de Souza, que detalhou quais seriam as obras prioritárias na UFSC a serem contempladas pelo Governo Federal, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento das universidades. O novo momento foi marcado com a retomada de pautas mais leves no noticiário.
Reflexões sobre a cobertura
A experiência vivenciada por estudantes, professores(as), servidores(as) e pesquisadores(as), durante a cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul e da greve geral na universidade, faz aproximar o caráter educativo de uma emissora universitária com o propósito do jornalismo produzido localmente. Conexões como esta, estabelecidas durante a ebulição de dois fenómenos de grande repercussão regional e nacional, convergem em direção a um jornalismo de interesse público que, conforme Wilson Gomes (2009), se orienta à promoção da cidadania e à produção de efeitos sobre os interesses da esfera civil.
O rádio, por sua vez, encontra em eventos como esses uma oportunidade para se estabelecer como meio resiliente, reafirmando seu protagonismo na cobertura dos acontecimentos, especialmente durante as transmissões em tempo real que, segundo o olhar de Meditsch (2007), ganham maior importância em momentos em que sua agilidade e capacidade de reação rápida o transformam no principal meio de informação. Mesmo em tempos de multiplicidade de novos canais de informação pela internet, o rádio informativo se valoriza, notadamente em situações de caos, como advertido por Ferraretto (2024), ao se referir às enchentes do Rio Grande do Sul.
Até influenciadores digitais mais sérios chegaram a recomendar que a população acompanhasse o rádio durante a tragédia gaúcha, como uma mídia confiável diante da proliferação de desinformações pela rede, recorda o pesquisador.
Ao uniras técnicas de apuração e produção radiofónicas para uma emissora universitária na web, caracterizada também como radiodifusão pública (Zuculoto et al., 2019), avança-se consideravelmente na preparação de novos jornalistas, ao mesmo tempo em que integra atividades de ensino, pesquisa e extensão, como missões primordiais de uma universidade. Como compreende Vázquez-Guerrero (2021), divulgar o conhecimento à sociedade é a tarefa primordial de uma rádio universitária. Nesse sentido, as coberturas realizadas em 2024 pela Rádio Ponto conjugaram informação, prestação de serviços, ensino de jornalismo e compartilhamento do conhecimento, tanto no âmbito interno das operações como no externo, aproximando ainda mais academia e sociedade.
Se, antes da chegada da internet, operações como as realizadas pela Rádio Ponto eram de condições difíceis para universidades públicas, como lembram Meditsch e Frighetto (2015), consolidam-se os caminhos para a permanência e reinvenção do rádio como pioneira e principal mídia sonora, além de serem apontados novos traçados para a formação específica em radiojornalismo (Zuculoto et al., 2019) e as novas facetas do jornalismo sonoro contemporâneo.
Conclusões
Inserida no campo do rádio público e universitário do Brasil, a Rádio Ponto UFSC atua como webemissora de cunho jornalístico, com programação educativa, informativa e cultural, e também como laboratório de ensino e pesquisa, além de desenvolver ações extensionistas, pois funciona registrada na universidade como projeto de extensão. Ao operar constituindo espaços de ensino, especialmente laboratoriais, pesquisa e extensão, ainda oferece a estudantes a oportunidade de realização de atividades extraclasse e complementares, em especial por meio de voluntariado. É nesse cenário de articulação, para além do modelo tradicional de funcionamento de uma estação universitária, aplicando o caráter indissociável de ensino, pesquisa e extensão, com a ênfase no Jornalismo, que a Rádio Ponto UFSC compõe a sua grade de programação (Zuculoto et al., 2019b).
A Rádio Ponto UFSC, ao longo de seus 25 anos de existência, tem estabelecido entre seus objetivos o compromisso constante com a busca de inovação e integração do ensino, pesquisa e extensão, para manter-se como uma referência pioneira no rádio universitário brasileiro. Sua trajetória, marcada pela adaptação às demandas do contexto académico e social, evidencia que vem procurando conformar-se não apenas como veículo de comunicação jornalística, mas também como instrumento pedagógico e de formação profissional para estudantes de Jornalismo.
Observa-se que, nesse percurso — do pioneirismo à consolidação e adaptações contemporâneas dentro do radiojornalismo universitário—, a emissora contou com referências provenientes de iniciativas precursoras e vem mantendo seu projeto de direcionar esforços para a valorização do espaço público e para o fortalecimento de sua função social como meio rádio. Assim, desempenha um papel ativo de devolutiva à sociedade, tanto por meio das atividades tradicionais desenvolvidas em sua programação informativa cotidiana quanto por sua presença em coberturas especiais de relevância coletiva. O compromisso da webemissora, como proposto no seu projeto de extensão renovado a cada temporada anual, é com a disseminação do conhecimento, com a formação crítica de seus estudantes extensionistas e dos próprios ouvintes, como também com o exercício de uma comunicação voltada ao interesse público e à democratização da informação.
O Repórter UFSC Especial, veiculado entre maio e julho de 2024, demonstra, sobretudo, os desafios de uma emissora universitária durante a cobertura de acontecimentos que impõem uma alteração brusca na rotina de público, fontes de informação e dos próprios estudantes envolvidos no processo de apuração e produção jornalística. Ao mesmo tempo em que busca diferenciar sua programação rotineira das emissoras comerciais, em momentos de situações extremas como as de 2024, a Rádio Ponto UFSC aliou o aprendizado profissional dos alunos com a oferta de uma alternativa diferenciada de informação sobre os acontecimentos de relevância nacional. Os obstáculos observados variaram desde o risco de escassez humana na equipe de produção até a experimentação e a capacidade de adaptação a um formato de cobertura atípico para a maioria dos envolvidos.
Como resultado, a experiência de produção do Repórter UFSC Especial reflete a capacidade da rádio de se reinventar, transformando um desafio, como a suspensão das aulas, em oportunidade para fortalecer o vínculo entre a universidade e a comunidade externa. As fases do programa, que se ajustaram ao contexto dinâmico da greve e das enchentes, também evidenciam a compreensão dos(as) estudantes, professores(as) e servidores(as) envolvidos(as) na produção quanto ao papel do radiojornalismo universitário em fatos como os reportados pela cobertura. Mesmo em greve, foi mantida a função formadora, a pesquisa e o caráter extensionista da Rádio Ponto, a fim de atender a objetivos do projeto da webemissora como os de atender ao interesse público do Jornalismo, cumprir a missão do rádio público e universitário, contribuir para a formação jornalística e constituir uma alternativa de programação distinta da mídia tradicional.
Se a incidência simultânea de dois grandes fatos com desdobramentos imprevisíveis causa dificuldades até mesmo em coberturas de emissoras de grande porte, para o Repórter UFSC, produzido para uma webemissora universitária como a Rádio Ponto, houve a chance de aproximar formação académica com interesse público ao longo das transmissões. No caso da greve, Meditsch e Frighetto (2015) lembram que é muito comum haver nessas situações um esvaziamento de estudantes nas universidades, pois muitos voltam para suas casas e aguardam o retorno das aulas. Ao mesmo tempo, essas modalidades de conflito costumam ganhar espaço na mídia tradicional apenas durante a fase inicial e em seu desenlace, segundo os autores. Já com o envolvimento de estudantes de Jornalismo, a cobertura do evento ganha contornos para além do caráter utilitário do jornalismo de serviço, o que eleva o grau de importância das pautas para a agenda pública.
Da mesma forma, ao realizar a cobertura de um desastre socioambiental de grandes dimensões, caracterizado por vários acontecimentos curtos que rompem a dinâmica do cotidiano do público (Zimmermann, 2012), a emissora reforçou a indissociabilidade do tripé ensino, pesquisa e extensão no âmbito universitário e contribui com a organização desse segmento radiofónico como rádio público (Zuculoto et al., 2019).
Em um momento de grandes transformações no cenário académico e social, a Rádio Ponto UFSC reafirmou o objetivo e a busca de seu papel não apenas como emissora, mas também como um espaço essencial de formação profissional, articulação entre as diversas áreas do conhecimento e promoção da cidadania. A reflexão sobre sua trajetória e as coberturas especiais realizadas ao longo de sua história é um testemunho do impacto que o rádio universitário pode produzir, tanto na formação de futuros jornalistas quanto na contribuição para a informação qualificada à sociedade.
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