Estudios

A AGENDA FEMINISTA EM FOCO NO JORNALISMO ALTERNATIVO: PRÁTICAS
DE ATIVISMO NOS PORTAIS JORNALÍSTICOS COM PERSPECTIVA DE GÊNERO AZMINA, CATARINAS E THINK OLGA

La agenda feminista en foco en el periodismo alternativo: prácticas de activismo en portales periodísticos con perspectiva de género AzMina, Catarinas y Think Olga

The Feminist Agenda in Spotlight by the Alternative Journalism: Activism Practices in Journalistic Portals with a Gender Perspective AzMina, Catarinas and Think Olga

Karina Janz Woitowicz, Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Bolsista de Produtividade em Pesquisa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Brasil)

karinajw@gmail.com

Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones", vol. 17, núm. 2, pp. 1-11, 2024

Universidad del Rosario

Esta obra está bajo una Licencia Creative Commons Atribución-NoComercial 4.0 Internacional.

DOI: https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.13989

Recebido: 8 de dezembro de 2023

Aprovado: 2 de abril de 2024

Data de pré-publicação: 6 de junho de 2024

RESUMO

Esta pesquisa investiga experiências de portais feministas com perspectiva de gênero, de modo a refletir sobre as interfaces entre a produção jornalística e as práticas de ativismo feminista no ambiente digital. Os veículos selecionados são os portais brasileiros AzMina, Catarinas e Think Olga, no período que compreende a pandemia da Covid-19 (2020 e 2021), em que é realizada uma análise de conteúdo a partir de critérios oriundos da prática do jornalismo com perspectiva de gênero, tais como o tratamento de temas relativos aos direitos das mulheres e às questões de gênero, o uso de fontes, a presença da perspectiva interseccional e as características da linguagem. Como resultados, observou-se que a cobertura jornalística realizada pelos portais que compreendem a pesquisa enfocou as desigualdades de gênero no período de crise e revelou também o impacto maior da pandemia junto a mulheres negras e pobres, contemplando uma abordagem interseccional. A pesquisa busca contribuir para o conhecimento acerca das experiências de jornalismo alternativo e independente no Brasil e para a reflexão sobre os limites e as potencialidades encontradas para inserir temáticas de gênero na agenda pública.

Palavras-chave: portais feministas; jornalismo alternativo; movimento feminista; estudos de gênero.

RESUMEN

La investigación analiza experiencias de portales feministas con perspectiva de género, con el fin de reflexionar sobre las interfaces entre la producción periodística y las prácticas de activismo feminista en el entorno digital. Los vehículos seleccionados son los portales brasileros AzMina, Catarinas y Think Olga, en el período que abarca la pandemia de Covid-19 (2020 y 2021), sobre los cuales se realiza un análisis de contenido a partir de criterios surgidos del ejercicio del periodismo con perspectiva de género, como el tratamiento de temas relacionados con los derechos de las mujeres y las cuestiones de género, el uso de fuentes, la presencia de la perspectiva interseccional y las características del lenguaje. Como resultado, se observó que la cobertura periodística hecha por los portales que componen la investigación se centró en las desigualdades de género durante el período de crisis y también reveló el mayor impacto de la pandemia en las mujeres negras y pobres, considerando un enfoque interseccional. La investigación busca contribuir al conocimiento sobre las experiencias del periodismo alternativo e independiente en Brasil, y a la reflexión sobre los límites y potencialidades encontradas para insertar temas de género en la agenda pública.

Palabras clave: portales feministas; periodismo alternativo; movimiento feminista; estudios de género.

ABSTRACT

The research analyzes experiences of feminist portals with a gender perspective, in order to reflect on the interfaces between journalistic production and feminist activism practices in the digital environment. The vehicles selected are Brazilian portals AzMina, Catarinas and Think Olga, in the period covered by the Covid-19 pandemic (2020 and 2021), which are analyzed based on criteria arising from the exercise of journalism with a gender perspective, such as the treatment of topics related to women’s rights and gender issues, the use of sources, the presence of intersectional perspective and language characteristics. As a result, it was observed that the journalistic coverage carried out by the portals that make up the research focused on gender inequalities during the crisis period and also revealed the greater impact of the pandemic on black and poor women, considering an intersectional approach. The research seeks to contribute to knowledge about the experiences of alternative and independent journalism in Brazil and to reflection on the limits and potentials found to include gender issues into the public agenda.

Keywords: Feminist portals; alternative journalism; feminist movement; gender studies.

Introdução

Ao refletir sobre as interfaces entre a produção jornalística e as práticas de ativismo feminista no ambiente digital, o presente trabalho apresenta uma análise dos portais brasileiros AzMina, Catarinas e Think Olga que coloca em pauta os parâmetros hegemônicos e heteronormativos do jornalismo (Silva, 2014), de modo a repensar os valores-notícia, as fontes predominantes na cobertura jornalística, o uso de uma linguagem não sexista, entre outros aspectos (Chaher, 2007; Mano, 2017). Trata-se de investigar, a partir das experiências de veículos feministas, algumas características do jornalismo com perspectiva de gênero, que ganhou força sobretudo na última década com a expansão de veículos nativos digitais no Brasil e em toda a América Latina (Woitowicz, 2019b).

A escolha dos portais deve-se ao caráter de suas propostas editoriais, comprometidas com a oferta de informações qualificadas em torno de temáticas de gênero em uma perspectiva interseccional (Akotirene, 2019) e com a inserção de demandas das mulheres no debate público. A pesquisa enfoca o conteúdo publicado nos três portais, em que são observados, a partir de uma pesquisa exploratória, aspectos como o tratamento de temas relativos aos direitos das mulheres e às questões de gênero, o uso de fontes, a presença da perspectiva interseccional e as características da linguagem.

A análise proposta compreende uma seleção de reportagens publicadas nos portais Catarinas (2020-2021), AzMina e Think Olga (2020), e baseia-se em parâmetros metodológicos oriundos da prática do jornalismo com perspectiva de gênero, que considera, entre outras coisas, a ênfase nos processos, a diversidade dos sujeitos representados e o equilíbrio das fontes de informação (Cimac, 2009; Garfias et al., 2010), assim como a preocupação em garantir o acesso e a participação igualitária das mulheres nos meios de comunicação (Montiel, 2014).

Um dos destaques do estudo situa-se no período da pandemia da covid-19 e seus impactos na vida das mulheres, o que justifica o recorte temporal estabelecido (2020 e 2021). Com o levantamento realizado, pode-se compreender alguns aspectos e tendências da prática jornalística com viés ativista e refletir sobre outros modos de produção de conteúdos que se desenvolvem nos meios digitais independentes.

Jornalismo alternativo com perspectiva de gênero e ativismo digital

O conceito de jornalismo ativista guarda relação com outras definições que, historicamente, marcaram a trajetória da comunicação. Entre as variações do conceito, o presente texto considera a pertinência da denominação “mídia alternativa”, que, na sua base, carrega o sentido de contra-hegemonia (Grinberg, 1987). Para Serrano (2011), “un medio alternativo será el que nace de la disconformidad con el sistema mediático dominante y tiene por vocación dar la voz a colectivos sociales, ciudadanos y líderes sociales o intelectuales marginados en los grandes medios de comunicación” (p. 73). Além disso, para o mesmo autor, trata-se de um meio independente dos poderes econômicos e políticos, ancorado em um ideário próprio.

Em sintonia com essa definição, pode-se considerar a abordagem de John Downing (2002), que desenvolve o conceito de “mídia radical alternativa”. Ao apresentar diversas denominações que caracterizam os meios ligados aos movimentos sociais (alternativos, cidadãos, táticos, independentes, de contrainformação, de participação, entre outras variações), Downing (2010) opta pelo uso do termo “nanomeios” para se referir aos meios de pequena escala que assumem caráter contra-hegemônico e estão integrados aos movimentos sociais.

Entende-se que as diferentes denominações possuem uma trajetória e identificam diferentes projetos políticos. Fato é que o “alternativo” tem sido retomado nos últimos anos, diante da expansão dos meios digitais e das variadas apropriações tecnológicas (Natansohn, 2013) decorrentes desse processo por parte dos movimentos sociais.

Carvalho e Bronosky (2017) consideram que o jornalismo alternativo pressupõe “uma atividade profissional, reconhecida pela adoção de procedimentos profissionais, independente do veículo ou plataforma” (p. 32). Para os autores (2017, p. 35), a expressão explícita do posicionamento político é uma de suas marcas. Significa dizer que a prática do jornalismo alternativo coloca em questão certos parâmetros legitimados pela cultura profissional, tais como o distanciamento com a realidade reportada.

O jornalismo alternativo acompanha a trajetória do movimento feminista e tem intensificado suas práticas diante do processo de apropriação tecnológica registrado, sobretudo após os anos 1990 no Brasil e na América Latina (Woitowicz, 2019a), quando são criadas as primeiras redes de mulheres comunicadoras e jornalistas. De acordo com Hasan e Gil (2014), as redes de comunicação com enfoque de gênero “se ocuparon especialmente de destacar a las mujeres como sujetos de la información y la comunicación, sumándolas a la crítica por la explotación de las mujeres como objetos, en tanto imágenes o discursos circulantes por los medios” (p. 45).

Desde então, os movimentos feministas desenvolvem estratégias de atuação no campo da mídia, com maior ênfase nas primeiras décadas do século 21, com iniciativas de divulgação de informações por parte das organizações e ações de visibilidade e articulação política por meio do uso de redes sociais. Para Sally Burch (1996, p. 120), a natureza horizontal e descentralizada da internet contribui para o processo de articulação do movimento de mulheres.

Em meio ao crescente processo de apropriação das tecnologias, o jornalismo com perspectiva de gênero atuará na proposição de um jornalismo sem discriminação e no debate púbico sobre temas voltados à defesa dos direitos humanos das mulheres. Ele pode ser entendido como o exercício da atividade profissional realizada a partir de um tratamento voltado ao equilíbrio entre homens e mulheres como fontes, da transversalidade do tema das desigualdades marcadas pelas relações de gênero e outros marcadores de diferença (tais como raça, classe, sexualidade, geração, entre outros), do uso da linguagem inclusiva, entre outros elementos. Tais aspectos orientam as observações apresentadas a seguir acerca das experiências jornalísticas dos portais com perspectiva de gênero AzMina, Catarinas e Think Olga.

Experiências jornalísticas e pauta feminista

Os veículos que compreendem a presente pesquisa são todos nativos digitais e voltam sua ação ao ativismo feminista, em sintonia com os princípios do jornalismo alternativo com enfoque de gênero. Esse jornalismo parte de orientações que visam, entre outras coisas, à inclusão da perspectiva de gênero em pautas gerais e específicas e à valorização de vozes tradicionalmente marginalizadas. Esses aspectos podem ser observados nos portais escolhidos para a pesquisa (revista AzMina, Catarinas e Think Olga), embora cada um deles possua maneiras próprias de produzir jornalismo e defender os interesses feministas.

A primeira iniciativa entre as experiências mencionadas é a Think Olga, uma ong que atua junto à sociedade civil colocando em pauta questões de gênero e interseccionalidades e que tem como ferramenta principal a comunicação. De acordo com informações disponíveis no site, a organização atua em conjunto com a organização coirmã Think Eva, que realiza consultoria de inovação social voltada à defesa dos direitos das mulheres. Uma das primeiras ações da Think Olga foi a campanha “Chega de fiu fiu”, realizada em 2013 para denunciar o assédio em espaços públicos por meio da mobilização na web; no ano seguinte, a campanha viabilizou uma ferramenta para denúncias de diferentes formas de assédio, contribuindo para visibilizar o tema.1 A organização também atua na formação sobre temas relevantes por meio da produção de materiais de caráter educativo como a cartilha Assédio sexual é crime e a série de guias para qualificar a cobertura jornalística intitulada “Minimanual do jornalismo humanizado”. As produções jornalísticas veiculadas no site são resultado de pesquisas baseadas nos temas de interesse da organização e podem ser caracterizadas como especiais.

No ano de 2015, quando se registra a expansão do debate sobre direitos das mulheres a partir da chamada “Primavera feminista no Brasil”, eclodem outros espaços feministas nas mídias digitais. A revista AzMina iniciou suas atividades em 2015 por meio de um projeto de financiamento coletivo, mantendo a produção de reportagens para o site e de conteúdos para as redes sociais. Em 2017, diante da ampliação das ações, outras atividades foram incorporadas ao trabalho e a revista passou a fazer parte da Instituto AzMina, organização sem fins lucrativos.2 Atualmente, se mantém com recursos vindos de doações de fundações e de pessoas físicas, de editais e de patrocínio a projetos.

Com o slogan “Jornalismo e tecnologia pela igualdade de gênero”, o veículo tem atuado na defesa dos direitos das mulheres, sobretudo em pautas voltadas aos direitos sexuais e reprodutivos e ao enfrentamento da violência. De acordo com o site, a revista AzMina é um veículo jornalístico “focado na cobertura de temas diversos com recorte de gênero. Mas não tratamos mulher como uma categoria universal e consideramos sempre as perspectivas de raça/etnia, classe, orientação sexual e identidade de gênero” (AzMina, 2023).

O portal Catarinas, de Florianópolis, Santa Catarina, também surge no ano de 2015 como uma organização sem fins lucrativos criada a partir de um financiamento coletivo, por inciativa das jornalistas Paula Guimarães e Clarissa Peixoto, ex-colegas da faculdade de jornalismo, e da cientista social Kelly Vieira. Segundo Jessica Gustafson Costa (2018), trata-se do primeiro portal jornalístico voltado à abordagem de gênero, a feminismos e a direitos humanos. Após algumas mudanças editoriais, o Catarinas utiliza atualmente como slogan “Jornalismo independente, feminista e antirracista”. Embora possua abrangência regional, cobrindo o território catarinense, o portal conquista alcance nacional ao colocar em pauta a agenda feminista a partir de diferentes temas e abordagens.

Na linha editorial disponibilizada no site do veículo, consta a seguinte apresentação: “Reportamos e interpretamos os fatos de maneira crítica, por meio da lente do feminismo interseccional que reconhece o entrecruzamento das camadas de opressão que estruturam as dinâmicas de poder na sociedade: raça, classe social, gênero, sexualidade e etnia” (Catarinas, 2023). A perspectiva crítica do portal demarca o posicionamento político ao lado de movimentos sociais e a abordagem voltada à conscientização e à reflexão sobre temas de interesse coletivo.

Além da produção de reportagens para o site e para as redes sociais, o Catarinas também produz conteúdos especiais e participa de campanhas e mobilizações em defesa dos direitos das mulheres, além de atuar em colaboração com outros veículos independentes no Brasil. A principal forma de financiamento do veículo são as assinaturas e o apoio de projetos e editais sintonizados com a pauta feminista.

Em comum, os três veículos considerados assumem a pauta feminista e atuam no ambiente da web inserindo temas de interesse na agenda pública por meio de uma prática profissional que possui características próprias, orientadas pelos princípios do jornalismo alternativo e independente, conforme é possível constatar na análise apresentada a seguir.

Aspectos da cobertura jornalística nos portais feministas

Para o presente trabalho, considerou-se a seleção de conteúdos em formato de reportagem publicados exclusivamente nos portais jornalísticos selecionados.3 Foram analisadas as reportagens de maior relevância referentes à pandemia da Covid-19 veiculadas na revista AzMina e Think Olga (2020), e Catarinas (2020-2021), em uma perspectiva qualitativa baseada em aspectos do jornalismo com perspectiva de gênero, identificando as principais temáticas e o tratamento das informações.

As principais categorias temáticas ou editoriais perpassaram pautas em torno de violência, raça, direitos sexuais e reprodutivos, saúde, política, trabalho e ciência. Houve também a preocupação em evidenciar as fontes utilizadas nas reportagens (Schmitz, 2011) e a presença da abordagem interseccional, com a articulação entre gênero e outros marcadores sociais, tais como raça, classe, sexualidade, entre outros. No total, compreendem os resultados aqui apresentados um universo de 32 reportagens de AzMina, 8 de Think Olga e 10 de Catarinas.

Em todos os veículos, o tema da violência obteve lugar de destaque, colocando os portais como porta-vozes de denúncias, reflexões sobre as vivências das mulheres no contexto pandêmico e acompanhamento dos fatos noticiados, sobretudo quando se tratava de denúncias. Na revista AzMina, a política se destaca como tema principal com nove registros, seguida de violência com oito, evidenciando a linha editorial crítica do veículo com relação ao período em pauta. Quanto ao Think Olga, é importante considerar que o portal apresenta uma dinâmica diferenciada dos demais no que se refere à regularidade de suas publicações. O veículo aposta em reportagens e pesquisas de maior envergadura, publicadas como especiais. No período considerado, o destaque foi para a produção “Mulheres na pandemia”, que se subdivide em outras temáticas que perpassam a pobreza, o racismo, a vulnerabilidade e o machismo, e se embasa no trabalho do Lab Olga (laboratório de inovação da organização).

No portal Catarinas, as dez principais reportagens investigativas publicadas no período de 2020 a 2021 dizem respeito à violência —obstétrica, doméstica, sexual, racial, entre outras (Dimbarre et al., 2023)—. Destaca-se entre as publicações a série de reportagens “Um vírus e duas guerras”, de 2020, resultado de um amplo trabalho em colaboração entre o Catarinas e outros veículos alternativos de diferentes regiões do Brasil, que produziram diagnósticos sobre a violência contra as mulheres com dados regionais.

No que se refere ao tratamento da violência contra mulheres na mídia, há uma atenção especial, resultado de análises de coberturas sobre o tema e manuais de orientação, para evitar a espetacularização e garantir uma abordagem em profundidade sobre o tema, que contextualize as informações, esclareça sobre os tipos de violência e evite o uso de expressões que tendem a romantizar a relação com o agressor ou justificar a violência (Molina, 2009). O destaque para esse tema deve-se à necessidade de qualificar a cobertura jornalística, que costuma reduzir casos de violência doméstica e feminicídios a meras ocorrências policiais, sem problematizar o assunto, recaindo na banalização desses crimes, na manutenção de estereótipos e na ausência de debate sobre políticas públicas.

O tratamento das informações, sobretudo nas reportagens investigativas do Catarinas, conforme observado, contempla a preocupação em preservar as fontes e dar continuidade ao desenrolar dos acontecimentos, mantendo na pauta temas relevantes que se desdobram em outras reportagens. De acordo com Costa (2018), as relações de gênero demandam enquadramentos diferentes nas pautas e isso se reflete na experiência do portal ao assumir viés feminista e operar segundo critérios distintos daqueles entendidos a partir da lógica da noticiabilidade.

Para a identificação das fontes presentes nos textos publicados nos portais jornalísticos, foi considerada a classificação de Aldo Schmitz (2011), que demarca o papel desempenhado pelas pessoas nas notícias. Entre as variações, consta a fonte oficial, “alguém em função ou cargo público que se pronuncia por órgãos mantidos pelo Estado e preserva os poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário)” (Schmitz, 2011, p. 25); a empresarial, que “representa uma corporação empresarial da indústria, comércio, serviços ou do agronegócio (Schmitz, 2011, p. 25); a institucional, alguém que “representa uma organização sem fins lucrativos ou grupo social” (Schmitz, 2011, p. 25), que se manifesta com o propósito de defender uma causa social ou política; a popular, uma pessoa comum, que não representa uma organização ou grupo social; a testemunhal, que “representa aquilo que viu ou ouviu, como partícipe ou observadora” (Schmitz, 2011, p. 26), assumindo papel de porta voz da verdade; a especializada, “pessoa de notório saber específico (especialista, perito, intelectual) ou organização detentora de um conhecimento reconhecido” (Schmitz, 2011, p. 26), que costuma estar relacionada a uma profissão ou área de atuação; e, por fim, a fonte referência, que se refere ao uso de bibliografia, documento ou mídia por parte do(a) jornalista.

No caso da revista AzMina, ao todo, “foram coletadas 96 fontes, sendo 25 referenciais, 23 especializadas, 16 populares, 15 institucionais, 11 oficiais, 3 anônimas, 2 de grupo social e 1 empresarial” (Laroca & Woitowicz, 2022, p. 89). A predominância de fontes referenciais indica o uso de dados e pesquisas como forma de contextualizar e fundamentar os temas abordados, ao lado de fontes especializadas. Ao mesmo tempo, também são valorizados testemunhos de mulheres por meio de fontes que se posicionam sobre direitos, discriminações e vivências múltiplas.

Como resultado da classificação de fontes, no portal Think Olga, obteve-se um total de 23 fontes identificadas, conforme segue: “seis fontes especializadas, uma fonte popular, oito fontes referenciais, três fontes oficiais, três fontes institucionais, nenhuma fonte empresarial, uma fonte anônima e uma fonte de grupo/movimento social” (Laroca & Woitowicz, 2022, p. 91). À semelhança da revista AzMina, o destaque foi para as fontes referenciais e especializadas, que oferecem um diagnóstico da realidade das mulheres por meio de dados e análises de indicadores sociais.

Com relação ao conteúdo analisado, observa-se no Think Olga a pouca presença de fontes testemunhais e populares, o que compromete uma maior representatividade de mulheres nos conteúdos produzidos e, consequentemente, a identificação de uma abordagem mais plural a partir das fontes de informação. No entanto, a interseccionalidade está presente na abordagem de pautas e no tratamento de informações relativos a mulheres negras, pobres, indígenas, com deficiência, entre outras variações.

No Catarinas, segundo a tipificação das fontes realizada por Schmitz (2011), assumem destaque as fontes especializadas (27 no total) e as testemunhais (13). As referenciais se apresentam de forma relevante (31 no total), perpassando todo o conteúdo publicado a partir da utilização de dados, de levantamentos, de pesquisas, além de registros na internet (vídeos, redes sociais etc.). No total, foram registradas 71 fontes nas 10 reportagens selecionadas.

No que diz respeito à interseccionalidade, interessa observar que as questões de raça sobressaem nas reportagens dos portais, seja como tema principal, seja como problemática que tangencia as reportagens. Do mesmo modo, a representatividade de fontes identificadas como mulheres negras e indígenas fortalece o princípio de visibilizar indivíduos que não costumam ganhar destaque no noticiário, subvertendo lógicas consagradas pelo jornalismo hegemônico no que se refere ao valor predominante de fontes oficiais, na maioria das vezes formada por homens brancos, que sobressaem na ocupação de espaços de poder.

Há, no jornalismo com enfoque de gênero, uma preocupação em não reproduzir as assimetrias presentes na sociedade (representadas, por exemplo, nas fontes oficiais) e buscar outras referências, de modo a conferir maior representatividade a mulheres. Além disso, visibilizar fontes que não costumam ser protagonistas nos conteúdos jornalísticos, como mulheres que atuam como lideranças populares e representantes de movimentos sociais, bem como fontes especializadas de distintas áreas. Nos veículos analisados, mulheres pobres e pertencentes à comunidade lgbtqiapn+ também estão representadas nas reportagens, conferindo maior pluralidade às vozes que compõem o conteúdo jornalístico.

No que se refere à linguagem, pode-se dizer que os três portais apresentam tratamento inclusivo, que não apenas rompe com a naturalização do uso do masculino universal —que expressa uma visão androcêntrica nos meios de comunicação (Cunill, 2013)— como identifica a diversidade de mulheres, valorizando suas identidades ao nomeá-las e trazer aspectos que as identificam. Considera-se, a partir de Burch (2009), que “cuestionar los elementos excluyentes u opresivos del lenguaje, crear nuevas palabras o expresiones para designar a las personas y las cosas, es una manera de subvertir el pensamiento dominante y, por lo tanto, es un aspecto necesario para las luchas emancipadoras” (pp. 80-81).

Além disso, o posicionamento ante a realidade apresenta-se como marca da construção narrativa dos veículos, ainda que com variações decorrentes de suas respectivas propostas editoriais. A crítica política presente na revista AzMina, o papel de formação crítica da opinião em Think Olga e a perspectiva feminista antirracista em Catarinas são algumas nuances percebidas na observação do material empírico da pesquisa.

A partir dos aspectos mencionados, entende-se que o jornalismo com enfoque de gênero praticado pelos portais feministas constitui uma prática jornalística contra-hegemônica à medida que assume perspectiva feminista e promove dinâmicas de produção de conteúdos que contrastam com parâmetros já consolidados pelos meios tradicionais no que diz respeito à seleção, ao tratamento e ao modo de apresentação das produções jornalísticas.

Considerações finais

A cobertura jornalística realizada pelos portais que compreendem a pesquisa enfocou as desigualdades de gênero no período de crise e revelou também o impacto maior da pandemia junto a mulheres negras e pobres, contemplando uma abordagem interseccional e uma pluralidade de fontes. Ao tratar as relações de gênero como algo que tangencia todo e qualquer assunto, evidencia-se um diferencial na abordagem e na interpretação da realidade, subvertendo certas lógicas que orientam a atividade jornalística desde a escolha dos assuntos. Percebe-se que as pautas desenvolvidas pelos portais estabelecem uma relação diferenciada com a factualidade ao optarem pela problematização e pelo aprofundamento dos temas em detrimento do fator “novidade”, tão presente no noticiário da chamada “mídia de referência”.

O principal resultado do trabalho consiste na sistematização de informações em torno do jornalismo praticado pelos portais feministas, de modo a contribuir para a reflexão sobre os limites e as potencialidades encontradas para inserir a perspectiva de gênero no fazer jornalístico e no debate público. Nos meios digitais feministas que compreendem o objeto deste texto, a abordagem sintonizada com os movimentos sociais, o predomínio de vozes femininas, a presença da perspectiva interseccional, o discurso militante, entre outras características figuram como propostas efetivas de construção de outros discursos sobre e para as mulheres.

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1Outras iniciativas importantes realizadas pela organização feminista foram as campanhas “#PrimeiroAssédio” (2015) e “Manda Prints” (2015), ações de caráter informativo como “Olga Explica” (2018), com explicações sobre os direitos das mulheres, e iniciativas voltadas ao protagonismo feminino como “Entreviste uma mulher” (2014), “Ela faz história” (2017), entre diversas outras.

2Entre as atividades mantidas pelo Instituto AzMina, destaca-se o projeto “Elas no Congresso” (acompanhamento da atuação do Legislativo com relação a projetos importantes para os direitos das mulheres), “MonitorA” e “Mapa das delegacias da Mulher”, além do aplicativo “PenhaS”, voltado ao enfrentamento da violência doméstica.

3A análise aqui apresentada utiliza como base a coleta de material empírico e os resultados das pesquisas de iniciação científica de Valéria Laroca Martins (“Interfaces entre jornalismo e feminismos: a perspectiva de gênero nos portais AzMina e Think Olga”), concluída em 2021, e de Ana Luiza Bertelli Dimbarre (“O jornalismo ativista do portal Catarinas: impactos sociais do jornalismo com perspectiva de gênero”), concluída em 2023. As referidas pesquisas foram realizadas sob minha orientação e contaram com apoio de bolsas do Programa de Iniciação Científica da Fundação Araucária e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para citar este artigo: Janz Woitowicz, K. (2024). A agenda feminista em foco no jornalismo alternativo: práticas de ativismo nos portais jornalísticos com perspectiva de gênero, AzMina, Catarinas e Think Olga. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social “Disertaciones”, 17(2). https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.13989