Estudios
DESINFORMAÇÃO EM FOCO: O PAPEL DA FOTOGRAFIA NA DISSEMINAÇÃO DE NOTÍCIAS FALSAS SOBRE POLÍTICA
La desinformación en el foco: el papel de la fotografía en la difusión de noticias falsas sobre política
Misinformation in the Spotlight: The Role of Photography in the Dissemination of Fake News on Politics
Adriel Henrique Francisco Cassini, Universidade Estadual Paulista (Brasil)
Liliane de Lucena Ito, Universidade Estadual Paulista (Brasil)
Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social "Disertaciones", vol. 17, núm. 2, pp. 1-13, 2024
Universidad del Rosario

Esta obra está bajo una Licencia Creative Commons Atribución-NoComercial 4.0 Internacional.
DOI: https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.13939
Recebido: 29 de novembro de 2023
Aprovado: 21 de fevereiro de 2024
Data de pré-publicação: 10 de maio de 2024
RESUMO
A desinformação é um problema crescente na contemporaneidade, e a fotografia tem sido usada como uma ferramenta para credibilizar peças desinformativas. Este artigo discute a importância de compreender os mecanismos complexos por trás da desinformação imagética e como a fotografia pode ser usada para influenciar e formar opiniões. Para analisar a fotografia como estratégia de desinformação, é necessário compreender suas características e estrutura verossímil. Neste sentido, foram selecionadas duas peças desinformativas: “Julgamento de Dilma no período da ditadura militar” e “Povos yanomami no Brasil”, que foram analisadas de acordo com o método de Barthes (1990). Os resultados mostram como a fotografia pode ser usada para manipular a opinião pública sobre governos, crises e atores políticos, e como é importante que jornalistas, educadores e cidadãos estejam atentos a esses mecanismos para navegar com discernimento em um mundo onde a desinformação visual desempenha um papel cada vez mais influente.
Palavras-chave: desinformação; fotografia; infodemia; pós-verdade.
RESUMEN
La desinformación es un problema creciente en la contemporaneidad, y la fotografía ha sido utilizada como una herramienta para dar credibilidad a piezas desinformativas. Este artículo discute la importancia de entender los mecanismos complejos detrás de la desinformación imagética y cómo la fotografía puede ser usada para influir y formar opiniones. Para analizar la fotografía como estrategia de desinformación, es necesario entender sus características y estructura verosímil. En este sentido, se seleccionaron dos piezas desinformativas: “Juicio de Dilma en el período de la dictadura militar” y “Pueblos yanomami en Brasil”, que fueron analizadas de acuerdo con el método de Barthes (1990). Los resultados muestran cómo la fotografía puede ser empleada para manipular la opinión pública sobre gobiernos, crisis y actores políticos, y lo importante que es que los periodistas, educadores y ciudadanos estén atentos a estos mecanismos para navegar con discernimiento en un mundo en el que la desinformación visual juega un papel cada vez más influyente.
Palabras clave: desinformación; fotografía; infodemia; posverdad.
ABSTRACT
Misinformation is a growing problem in contemporaneity, and photography has been used as a tool to lend credibility to misinformative pieces. This article discusses the importance of understanding the complex mechanisms behind imaginative misinformation and how photography can be used to influence and shape opinions. To analyze photography as a misinformation strategy, it is necessary to understand its characteristics and plausible structure. For this purpose, two misinformative pieces were selected: “Dilma’s trial in the period of military dictatorship” and “Yanomami people in Brazil”, which were analyzed according to Barthes’ method (1990). The results show how photography can be used to manipulate public opinion about governments, crises, and political actors, and how important it is for journalists, educators, and citizens to be aware of these mechanisms in order to navigate with discernment in a world where visual misinformation plays an increasingly influential role.
Keywords: Misinformation; photography; infodemics; post-truth.
O mundo contemporâneo se destaca pela rápida disseminação da informação, cujo processamento ocorre automaticamente, em alta velocidade e sem restrições de tempo e espaço (Borges, 2000). Diante desse amplo compartilhamento de informações, destaca-se o papel da mídia na sociedade, influenciando campos sociais como cultura, política e religião. Nesse sentido, a mídia se torna uma parte intrínseca das instituições culturais e sociais (Hjarvard, 2012). A midiatização da sociedade refere-se ao processo em que a sociedade se torna cada vez mais dependente da mídia e da lógica que ela cria (Hjarvard, 2012). Na sociedade midiatizada, a mídia se torna uma referência fundamental para a estrutura social, técnica e discursiva, afetando diversos níveis da organização social (Braga, 2012).
Nesse contexto, a imagem fotográfica desempenha um papel central na comunicação visual devido à sua ampla utilização na mídia, desde a imprensa até as redes sociais. Historicamente, a fotografia foi considerada uma forma objetiva de documentação, sendo vista como prova definitiva dos fatos (Kossoy, 2002). A fotografia é um recurso comunicacional importante, capaz de construir narrativas e chamar a atenção do público, como ocorre no fotojornalismo. “Algumas imagens têm o poder de atrair, cativar, comunicar ideias e evocar emoções” (Franzon, 2012, pp. 32-33).
No contexto da infodemia, a imagem fotográfica também é usada para manipular opiniões, sendo um dos principais elementos na disseminação de desinformação. A infodemia se refere ao aumento exponencial de informações sobre um tópico específico, o que torna difícil distinguir o que é real de informações falsas (Organização Pan-Americana de Saúde, 2020).
A infodemia e a desinformação estão relacionadas à pós-verdade, em que os fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais (Bucci, 2019). Nesse cenário, as pessoas tendem a aceitar informações que confirmam suas crenças pessoais, ignorando aquelas que as contradizem (Bronner, 2013).
A validação e aceitação de informações gera repulsa àquilo que o indivíduo não compactua ou acredita, assim, trazendo e impondo seus afetos particulares à condição de verdade plena, como atesta Lippmann (2008): “Algumas vezes um pouco de especialidade num tema específico pode simplesmente exagerar nosso hábito humano normal de tentar apertar nos nossos estereótipos tudo o que pode ser apertado, e deixar de fora na escuridão o que não se encaixa” (p. 113).
A interpretação dos fatos conforme afetos e preferências tornam-se nocivas à sociedade. A aderência a informações produzidas na era da pós-verdade condiciona-se justamente com base em opiniões e ideologias individuais. Os discursos que circulam na opinião pública, com grande ênfase nos ambientes digitais, contêm diversos tipos de proposições, dentre elas as que são possíveis de verificar, as que se enquadram em meras suposições ou mesmo as que são explícitas e comprovadamente falsas (Seixas, 2019).
A disseminação de informações falsas e a pós-verdade levam ao surgimento de bolhas ideológicas, polarizando a sociedade e dificultando o diálogo, especialmente no campo político. O termo “fake news” ganhou destaque durante a eleição presidencial dos eua em 2016, mas seu uso é controverso, pois descredita o jornalismo profissional. O termo “desinformação” é considerado mais preciso e neutro para se referir a informações falsas (Wardle & Derakhshan, 2019). A desinformação inclui informações falsas, informações incorretas e má-informação, e é impulsionada pelas redes sociais e outras ferramentas de comunicação digital (Wardle & Derakhshan, 2019).
A desinformação pode causar instabilidades nas democracias, como no caso da invasão do Capitólio nos eua em 2021. No Brasil, a desinformação continua a ser um problema após as eleições. Políticos que propagam informações falsas ocupam cargos no Congresso Nacional (Schiochet et al., 2022). A desinformação afeta diversos tópicos na sociedade (Facta, 2022). Dessa forma a desinformação se relaciona ao discurso de ódio, que desqualifica grupos de pessoas e é uma ferramenta para combater ideologias divergentes. O discurso de ódio toma importância quando é integrado em instituições e na política (Abuín-Vences et al., 2022).
Para Patrick Charaudeau (2022), os receptores na era da pós-verdade ignoram totalmente os fatos objetivos, sendo movidos por suas paixões e ideologias e indo ao encontro do que, para o autor, seria a contraverdade.
“Recorre-se a diversos meios para produzí-las: montagens sonoras por substituição de vozes, efeitos especiais de documentos fotográficos e audiovisuais utilizando diversas técnicas de maquiagem, e outras mais clássicas, apresentação de falsos testemunhos e provas forjadas. Do ponto de vista discursivo, as contraverdades não são todas da mesma ordem: há as que procedem de uma negação dos fatos; outras, de uma invenção dos fatos” (Charaudeau, 2022, p. 135).
A contraverdade, que nega ou inventa fatos, relaciona-se diretamente ao fortalecimento de discursos de ódio. No campo político, em especial, o “ódio” que configura como uma ferramenta que visa negar e combater ideologias divergentes.
É possível definir o discurso de ódio como declarações públicas, conscientes e deliberadas, destinadas a desqualificar um grupo de pessoas (Delgado & Stefanic, 1995, em Abuín-Vences et al., 2022). Notoriamente, as ideologias discursivas tomam dimensões sociais importantes quando integradas em instituições e reconhecidas por meio do discurso político. As peças de desinformação, quando dotadas do discurso de ódio, funcionam como propulsoras da intolerância política (Abuín-Vences et al., 2022).
Fotografia na teia da desinformação
Atualmente, muitas peças de desinformação usam elementos da informação jornalística, como notas e notícias, para emprestar credibilidade aos seus discursos. As imagens desempenham um papel poderoso na disseminação de informações enganosas, já que as pessoas tendem a questionar menos informações visuais (Wardle & Derakhshan, 2019).
Isso ocorre tanto na esfera verbal quanto imagética. Dentre os elementos não-verbais utilizados para contribuir com a disseminação de conteúdos enganosos, é frequente o uso da imagem em suas múltiplas formas, seja como atributo que se soma ao texto a partir de montagens ou mesmo como recurso complementar que reforça o conteúdo textual.
A fotografia —e a imagem de modo geral— causam fascínio no ser humano, que desde sua pré-história buscou produzir registros visuais nas paredes das cavernas as quais conhecemos, na atualidade, como pinturas rupestres. No cenário contemporâneo, a imagem permanece causando fascínio na sociedade. A fotografia é dotada de sua característica única de apelo à verdade, referente da verdade ou até mesmo um relato fiel da verdade. O realismo fotográfico não é negado, devido à gênese automática da fotografia, ela testemunha com exatidão o seu referencial, contudo, não implica a princípio de que ela se pareça de fato com ele, assim, o peso do real que caracteriza a fotografia refere-se a ela ser um traço e não de fato uma mimese (Dubois, 1993).
Apesar da fotografia ser considerada representação fiel da realidade, sua estrutura não é isolada, e é possível identificar outra estrutura que a compõe, como o texto (título, legenda ou artigo), assim, a totalidade das informações está apoiada em duas estruturas, sendo estas visual e linguística (Barthes, 1990). A partir desta concepção a fotografia é capaz de solidificar ainda mais as informações, pois, é capaz de representar e descrever as mensagens produzidas, assim ampliando sua característica de testemunho do real por ilustrar o que se encontra presente nos textos que a acompanham.
“Em suma, de todas as estruturas de informação, a fotografia seria a única a ser exclusivamente constituída por uma mensagem ‘denotada’ que esgotaria totalmente ser; diante de uma fotografia, o sentimento de ‘denotação’, ou de plenitude analógica, é tão forte, que a descrição de uma fotografia é, ao pé da letra, impossível, pois que descrever consiste precisamente em acrescentar à mensagem denotada de um relais ou uma segunda mensagem” (Barthes, 1990, pp. 13-14).
A fotografia continua sendo uma representação visual valiosa da realidade, mas não implica necessariamente que seja fiel à verdade, já que as imagens podem ser manipuladas (Flusser, 2009). Ela é uma mensagem que se apoia em informações visuais e linguísticas, e sua combinação reforça a mensagem. A imagem fotográfica, portanto, pode solidificar informações e desempenhar um papel significativo na aceitação da mensagem (Barthes, 1990).
Dessa forma, pelo fato de ser aceita quase de imediato como realidade em diversas situações, a imagem fotográfica tem sido utilizada como recurso para atribuir credibilidade a conteúdos falsos —em outras palavras, desinformação—. Mediação do mundo (realidade) e do homem (decodificador), a imagem tem o propósito da representação deste mundo (Flusser, 2009). O poder discursivo da imagem garante credibilidade a um conteúdo falso ou fora de contexto, pois advém como índice de comprovação do que se relata. Somado aos afetos pessoais, a possibilidade de que fotografias podem ser manipuladas ou tiradas de seus contextos parece ser ignorada à contestação da imagem.
A imagem fotográfica é frequentemente usada para dar credibilidade a conteúdos falsos, pois é vista como um testemunho da verdade. No entanto, as imagens podem ser manipuladas de várias maneiras, incluindo montagens, manipulação digital e remoção de contexto, o que pode criar desinformação (Flusser, 2009). Em resumo, a compreensão superficial das fotografias não permite uma compreensão verdadeira, uma vez que a imagem é muitas vezes complementada pelo texto. A imagem não ilustra mais a palavra, mas a palavra é que sublima a imagem (Barthes, 1990).
Dessa forma, a compreensão das fotografias é influenciada por fatores subjetivos e emocionais, o que torna as pessoas mais suscetíveis à manipulação por meio de imagens. A desinformação que utiliza imagens como ferramenta de credibilidade se espalha rapidamente, uma vez que as pessoas tendem a aceitar imagens como prova da verdade.
O método de Barthes
Este artigo analisará duas peças de desinformação que circularam no primeiro semestre de 2023, sendo estes materiais obtidos por meio de pesquisa exploratória nos repositórios das agências Lupa e Aos Fatos. O critério de escolha de tais peças, ancora-se no papel da fotografia dentro da peça e seu viés político demonstrado na veiculação da mensagem com intuito de denegrir atores políticos. A partir disso, a análise das peças se evidencia a partir das características das próprias fotografias presentes, dessa forma, “ [...] a fotografia não é apenas um produto ou um caminho, é também um objeto, dotado de autonomia estrutural” (Barthes, 1990, p. 11). Assim, tornando necessário a aplicação de método particular para sua compreensão.
De acordo com Barthes (1990), a fotografia não é o real, mas pelo menos, o seu analagon perfeito. A partir das concepções da imagem enquanto objeto individual de análise, o método barthesiano propõe a investigação do conteúdo fotográfica e o que ele transmite. Todas as composições fotográficas trata-se de “artes” imitativas, e assim, possuem duas mensagens: a mensagem denotada que se refere ao próprio analagon, ou seja, aquilo que se vê na fotografia e a mensagem conotada, que se trata da recepção e interpretação da mensagem fotográfica (Barthes, 1990). Na análise do corpus será aplicada a metodologia de análise proposta por Roland Barthes (1990), englobando a análise da mensagem linguística, denotativa e conotativa presente nas peças de desinformação:
1.Análise linguística, na qual as peças poderão ser classificadas em duas subcategorias de significação, sendo elas: internas à imagem, isto é, elementos verbais que façam parte da composição imagética, como faixas com palavras de ordem, anúncios ou outros atributos que componham a imagem; e os elementos externos à imagem, sendo estes aqueles que acompanham a fotografia externamente como legendas, manchete, entre outros.
2.Análise da mensagem denotativa, relacionada à função descritiva da imagem. Assim, buscará compreender “qual o conteúdo da mensagem fotográfica? O que transmite a fotografia? Por definição, a própria cena, o literalmente real. Do objeto à sua imagem há, na verdade, uma redução: de proporção, de perspectiva e de cor” (Barthes, 1990, p. 12). A abordagem analítica da mensagem denotativa, descreverá com precisão aquilo que se vê na fotografia e o que a compõe para efeitos de significação, levando em conta aspectos da linguagem fotográfica como enquadramento, cor, plano e ângulo, assim, através da descrição e identificação dos recursos da linguagem fotográficas possibilitar a análise da mensagem conotativa da fotografia.
3.Análise da mensagem conotativa, que, para Barthes (1990), “a conotação, isto é, a imposição de um sentido segundo à mensagem fotográfica propriamente dita, elabora-se nos diferentes níveis de produção da fotografia (escolha, processamento técnico, enquadramento, diagramação): é, em suma, uma codificação do análogo fotográfico” (p. 15). Para Barthes (1990), em síntese, a conotação é a codificação do análogo fotográfico, contudo, não se deixa apreender imediatamente ao nível da própria mensagem, pois é ao mesmo tempo invisível e ativa clara e implícita, tratando-se também da interpretação subjetiva da mensagem fotográfica.
Desinformação e sociedade: dados da desinformação no Brasil
A desinformação é uma preocupação crescente em nossa era digital, afetando todos os aspectos da sociedade, desde a política até a saúde pública. Uma forma especialmente poderosa e preocupante de desinformação é a disseminação de informações falsas por meio de imagens e fotografias. Por meio de pesquisa exploratória no repositório das agências Aos Fatos e Lupa, foi possível constatar uma crescente explicita das peças de desinformação a partir do ano de 2018 (ano de eleições gerais no Brasil).
Figura 1. Peças de Desinformação 2018 a jun./2023
Fonte: elaborado pelos autores.
A partir dos dados coletados, demonstrados na figura 1, é possível observar o número crescente de peças de desinformação ancoradas a imagem a partir do ano de 2018 estando os maiores índices nos anos de 2019 (40 peças desinformativas) e 2022 (28 peças desinformativas).
“Neste cenário, não surpreende que as chamadas fake news (informações falsas ou simplesmente desinformação) estejam no centro de controvérsias políticas, tenham sido objeto de Comissão Mista Parlamentar de Inquérito (cpmi), alvo de diferentes propostas legislativas e regulatórias, e até mesmo de inquérito no âmbito do Supremo Tribunal Federal” (Weber, 2023, p. 25).
A desinformação tem sido uma problemática crescente no Brasil, e buscar entender a estrutura comunicacional dessas peças é essencial para que tais conteúdos possam ter sua circulação reduzida. Os perigos da desinformação para a sociedade ficaram claros, pela primeira vez, no processo eleitoral de 2018, em que foram disputados cargos de presidente e vice-presidente da república, deputados estaduais e federais e governador (Weber, 2023). Ao analisar os dados obtidos, é possível observar 18 peças de desinformação no ano de 2023 (dados coletados até agosto do mesmo ano), a partir disso, 5 peças serão analisadas para compreensão de suas estruturas comunicacionais adentro em suas dimensões linguísticas, denotativas e conotativas de significação conforme Barthes (1990).
Estruturas comunicacionais: mensagens linguísticas, denotativas e conotativas
A comunicação é parte essencial da sociedade, muitas vezes possuindo nuances que vão além dos textos verbais. Nestes nuances, a mensagem constituída em conjunto com a imagem/fotografia produz significações a recepção de tais conteúdo. De acordo com Barthes (1990), “em uma análise puramente imanente, a estrutura da fotografia não é uma estrutura isolada; identifica-se, pelo menos, com uma outra estrutura que é o texto (título, legenda ou artigo), que acompanha toda fotografia jornalística” (p. 12). As fotografias têm sido historicamente consideradas como um reflexo fiel da realidade, uma testemunha objetiva dos acontecimentos e dos fatos. No entanto, neste mundo saturado de imagens, nem tudo é o que parece. A desinformação se disfarça nas fotografias, usando seu poder persuasivo para espalhar informações enganosas e, muitas vezes, prejudiciais. A análise de fotografias e peças de desinformação é um exercício fundamental para uma compreensão clara e crítica da comunicação visual na era digital.
A estrutura de análise partirá das peças de desinformação e analisando suas três características presentes compreendendo toda a estrutura da peça comunicacional. A partir das análises iniciais será possível, ao final, determinar a emulação das notícias falas e expor sua estrutura persuasiva emulada em fatores de credibilidade para o receptor. Pois, para Barthes (1990), “o paradoxo fotográfico consistiria, então, na coexistência de duas mensagens: uma sem código (seria o análogo fotográfico) e a outra codificada (o que seria a ‘arte’ ou o tratamento, ou a “escritura”, ou a retórica da fotografia)” (p. 14).
Figura 2. Julgamento de Dilma no período da ditadura militar
Fonte: Menezes (2023b).
A peça de desinformação, demonstrada na figura 2, tem a fotografia como seu papel central da mensagem. A partir da análise linguística é possível estabelecer o uso de elementos textuais externos as fotografias, ou seja, o conteúdo textual complementa a mensagem a ser transmitida e não faz parte direta do conteúdo imagético. Para Barthes (1990), a função da mensagem linguística é de fixação da mensagem fotográfica, pois, toda fotografia é polissêmica gerando uma cadeia flutuante de significados podendo o leitor assimilar alguns e ignorar outros. Assim, a mensagem linguística presente na peça de desinformação na figura 2, fortifica a emulação da credibilidade da mensagem através dos afetos daqueles que a recebem, como veremos adiante na análise da mensagem conotativa da peça.
A pergunta a ser respondida na análise da mensagem denotativa, pauta-se na indagação: “o que transmite visualmente?”. A partir disso, a fotografia presente na imagem se encaixa na subcategoria de imagens realistas. Pois, a fotografia da ex-presidente Dilma em julgamento, de fato é real, contudo, se tornou uma peça desinformativa a partir da alteração do contexto em que é apresentada a partir da mensagem linguística.
“É, pois, ao nível dessa mensagem denotada, ou mensagem sem código, que se pode compreender plenamente a irrealidade real da fotografia; sua irrealidade é a irrealidade do aqui, pois a fotografia nunca é vivida como uma ilusão, não absolutamente uma presença, é necessário aceitar o caráter mágico da imagem fotográfica” (Barthes, 1990, p. 36).
Assim, a representação da fotografia, vendo-a superficialmente, representa a ex-presidente em julgamento e ela atualmente. O uso do sentido denotado da fotografia, auxilia na fortificação da mensagem desinformativa, gerando entendimentos diversos a partir da divulgação da mensagem. Dessa forma, e em convergência com o fenômeno da pós-verdade, somente é associado pelos receptores aquilo que vá de encontro com suas crenças e convicções. Tal fotografia vem sendo divulgada, de acordo com a agência Aos Fatos (2023), desde o ano de 2022. Contudo, a real significação traz “uma foto de Dilma sentada diante do Tribunal Militar da Ilhas das Flores, onde foi condenada por ‘subversão’ em 1970” (Aos Fatos, 2023, p. 2).
Por fim, a compreensão das mensagens linguísticas e denotadas, permite que seja analisada uma mensagem mais profunda da mensagem imagética. A constituição da mensagem conotada, refere-se muito mais ao receptor do que a própria mensagem, pois, uma imagem pode ser variável segundo os indivíduos a recebem, assim, a composição fotográfica assume significados baseados nas experiências próprias do receptor (Barthes, 1990).
A figura 2, demonstra uma característica da conotação que vai de encontro com a pós-verdade, pois, a interpretação da mensagem gera sua credibilidade através dos afetos políticos dos opositores do atual presidente da república. A partir disso, o sentido conotado da fotografia, traz a mensagem a aqueles que desejam interpretar a figura política de Dilma Roussef como criminosa, assim, a conotação da peça desinformativa busca trazer credibilidade ao que se comunica agindo diretamente nos afetos e preferências políticas dos receptores. Assim, o conjunto das dimensões de significação demonstra na fotografia a intenção de emulação da credibilidade através dos afetos dos receptores, buscando fixar a ideia através da mensagem linguística para agir como contraverdade ao sentido denotado da imagem que não representa o julgamento de um roubo a banco, mas sim, um julgamento político por subversão durante a ditadura militar no Brasil.
A desinformação imagética representa uma das facetas mais complexas e desafiadoras da disseminação de informações enganosas na era digital. Em um mundo onde imagens e fotografias desempenham um papel central na comunicação, a manipulação visual de conteúdo é uma ameaça que merece atenção. A desinformação imagética envolve não apenas a criação de imagens falsas, mas também a interpretação equivocada ou enganosa de imagens reais. À medida que a sociedade se torna cada vez mais visual, compreender a desinformação imagética torna-se crucial para a análise crítica da informação e para a preservação da integridade da comunicação visual.
Dessa forma, a desinformação não utiliza a imagem apenas para descredibilização de atores políticos, mas também para confundir os receptores sobre problemáticas verdadeiras. De acordo com Matheus Leitão (2023), a crise vivida pelo povo indígena brasileiro yanomami resultou na morte de ao menos 570 crianças e mais de 50 % da população desnutrida. Apesar de se tratar de uma problemática urgente na sociedade brasileira, a crise yanomami passou a ser tratada como artimanha política a fim de não prejudicar o ex-presidente da República Jair Bolsonaro e a ex-ministra dos direitos humano Damares Alves, assim, peças de desinformação começaram a circular para que fosse possível afastar a imagem negativa desse atores políticos minimizando a crise do povo indígena e em alguns casos indicando como uma crise falsa, sendo somente uma narrativa política.
Figura 3. Povos yanomami no Brasil
Fonte: Menezes (2023a).
Conforme visto na análise anterior, a significação da fotografia tem sua base em três elementos, neste caso, não é possível identificar uma mensagem linguística em tom jocoso como a presente na figura 2, mas sim, uma mensagem mais formal e informativa ao receptor utilizando-se de uma fotografia jornalística verdadeira para dar credibilidade a mensagem (figura 3). Assim, a linguística da peça se apresenta de forma externa no título e na legenda descritiva. Ambos os elementos linguísticos possuem a finalidade de agir como contraverdade na crise indígena, tentando transmitir que a crise se trata de uma narrativa do atual presidente Luiz Inácio para prejudicar o ex-presidente.
Por intermédio dos dados linguísticos da fotografia, é possível dissertar a respeito da mensagem denotada nela presente. A figura 3 demonstra registros da crise do povo yanomami, demonstrando um homem em estado de desnutrição com médicos ao seu redor recebendo atendimento. A denotação da fotografia é um apelo quase que instantâneo a credibilidade, pois, a fotografia é aceita como prova da realidade há muito tempo, conforme explica Dubois (1993), dessa forma o análogo da fotografia não é pétreo, mas pode ser modificado através da mensagem linguística, seja por um texto informal ou um texto informativo.
Por tanto, ao compreender a estrutura das peças de desinformação, é notório a necessidade da estruturação da mensagem linguística para dar novo significado a denotação fotográfica, para que assim, a mensagem conotada seja interpretada conforma o disseminador da mensagem desinformativa pretendia incialmente. É a partir da manipulação da verdade, na mensagem linguística, que o significado da mensagem denotada será atribuído ao receptor, para que por fim ambas gerem significação a última dimensão da mensagem.
“Conotação perceptiva, conotação cognitiva: resta o problema da conotação ideológica (no sentido mais amplo do termo) ou ética, aquela que introduz na leitura da imagem razões ou valores. É uma conotação forte, exige um significante muito elaborado, frequentemente de ordem sintática” (Barthes, 1990, p. 23).
Conforme demonstrado por Barthes (1990), a conotação ideológica é a significação conotativa mais forte, pois, para que seja eficaz necessita de um significante muito elaborado e de ordem sintática. A partir disso, é possível compreender que o elemento ideológico para compreensão da peça presente na figura 3, evidencia a necessidade de dialogar com um público específico: apoiadores políticos. Para que a conotação de significado a esses indivíduos, a peça desinformativa faz uso de técnicas jornalismo on-line para que possua credibilidade, advindo uma subcategoria na mensagem conotativa: a credibilidade emulada no jornalismo.
A partir da análise da estrutura e dimensões de significação, é possível compreender que a fotografia presente nas peças necessita da manipulação da mensagem linguística para dar novo significado a imagem e tirá-la de contexto, para que assim, possa trabalhar a conotação ideológica da mensagem fotográfica e dar credibilidade utilizando o nome de um famoso jornal britânico para que possa ser recebida a peça de desinformação como uma notícia verdadeira.
Considerações Finais
A análise realizada ao longo deste artigo nos permitiu aprofundar nossa compreensão do papel crucial que a fotografia desempenha na disseminação de notícias políticas falsas. Ao explorar as diversas dimensões de significação, pudemos identificar como elementos estruturais das mensagens de desinformação se ancoram na fotografia, transformando-a em um recurso de credibilidade. O que antes era considerado uma testemunha imparcial dos eventos, a fotografia se revela agora como um poderoso meio de manipulação que influencia a opinião pública sobre governos, crises e atores políticos.
A associação da desinformação com imagens fotográficas potencializa seu impacto de maneira significativa. Constatamos, por meio de exemplos reais e análises críticas, como as fotografias podem ser retiradas de contexto e reinterpretadas de forma a criar narrativas enganosas. Essas imagens não apenas reforçam crenças preexistentes, mas também amplificam as polarizações políticas e minam a confiança nas instituições de notícias e no jornalismo responsável.
O exame minucioso das peças de desinformação nos revelou a necessidade de manipulação das mensagens linguísticas para que seja possível tirar as imagens de seus contextos denotativos, ou seja, de seu significado original. Conforme Barthes (1990) observa, “a denotação, ou sua aparência, é uma força impotente para modificar as opiniões públicas: fotografia alguma jamais convenceu ou desmentiu que quer que seja (mas pode ‘confirmar’)” (p. 23). Portanto, a compreensão de que a mensagem denotativa da fotografia não possui um impacto significativo por si só nos levou à conclusão de que a estrutura da mensagem de desinformação depende da reconfiguração de todas as dimensões de significação. Ou seja, a desinformação denotativa na fotografia não pode existir sem a preparação sintática da mensagem linguística para gerar a ressignificação.
A fotografia e as notícias falsas são dois elementos interligados no panorama da desinformação e da comunicação contemporânea, pois, em uma era que vive o fenômeno da pós-verdade, onde a interpretação das mensagens se dá através de preferências e afetos e não pela verdade factual, torna-se difícil ao indivíduo contestar a veracidade de fotografias, tornando-as recursos extremamente persuasivos no convencimento da verdade e credibiliza de conteúdos enganosos. Através da imagem fotográfica a notícia falsa gera credibilidade visual e reforço de narrativas apresentadas na mensagem linguística, facilitando sua disseminação. Por fim, as dimensões de significação geram o convencimento dos receptores através da geração da conotação ideológica que unida a pós-verdade transforma falsas verdades em verdades individuais.
Nesse contexto, é fundamental reconhecer que a desinformação não se restringe à palavra escrita ou falada, mas estende seu alcance às imagens que permeiam nossa sociedade visual. A compreensão desses mecanismos complexos é crucial para que jornalistas, educadores e cidadãos possam navegar com discernimento em um mundo onde a desinformação visual desempenha um papel cada vez mais influente. Em última análise, o embate contra a desinformação em notícias políticas falsas é uma tarefa coletiva que exige vigilância constante, alfabetização visual e comprometimento com a busca da verdade. A fotografia, como uma testemunha ocular do mundo, deve ser usada com responsabilidade e ética, preservando sua integridade e promovendo uma comunicação mais transparente e autêntica em nossa sociedade.
Referências
1.Abuín-Vences, N., Cuesta-Cambra, U., Niño-González, J., & Bengochea-González, C. (2022). Hate speech analysis as a function of ideology: emotional and cognitive effects [Análisis del discurso de odio en función de la ideología: efectos emocionales y cognitivos]. Comunicar, 71, 37-48. https://doi.org/10.3916/C71-2022-03
2.Barthes, R. (1990). O óbvio e o obtuso: ensaios críticos. Nova Fronteira.
3.Braga, J. L. (2012). Circuitos versus campos sociais. Em J. Janotti Junior & M. A. Mattos. (Orgs.), Mediação & midiatização (pp. 21-52). edufba. https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/6187/1/midiatizacao_repositorio.pdf
4.Bronner, G. (2013). La démocratie des crédules. puf.
5.Charaudeau, P. (2022). A manipulação da verdade: do triunfo da negação às sombras da pós-verdade. Contexto.
6.Dubois, P. (1993). O ato fotográfico e outros ensaios. Papirus.
7.Flusser, V. (2009). Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Sinergia Relume Dumará.
8.Franzon, É. C. S. (2012). Luz e sombra, mostrar e esconder: os efeitos de sentido e as estratégias da imagem fotográfica em Magnum in Motion (2010-2012) [dissertação de mestrado, Universidade Estadual Paulista]. http://hdl.handle.net/11449/89455
9.Hjarvard, S. (2012). Midiatização: teorizando a mídia como agente de mudança social e cultural. Matrizes, 5, 53-91. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v5i2p53-91
10.Kossoy, B. (2002). Realidades e ficções na trama fotográfica. Ateliê Editorial.
11.La disinformazione europea si frammenta e copre diverse tematiche. (2022, 19 de agosto). Facta. https://facta.news/articoli/2022/09/19/edmo-agosto-2022/
12.Leitão, M. (2023, 17 de fevereiro). A crise yanomami e as novas ações do governo Lula. Veja. https://veja.abril.com.br/coluna/matheus-leitao/a-crise-yanomami-e-as-novas-acoes-do-governo-lula
13.Lippmann, W. (2008). Opinião pública. Vozes.
14.Menezes, L. F. (2023a, 25 de janeiro). É falso que fotos de yanomamis divulgadas na imprensa foram feitas na Venezuela. Aos Fatos. https://www.aosfatos.org/noticias/falso-fotos-yanomamis-venezuela/
15.Menezes, L. F. (2023b, 28 de março). Mentira sobre envolvimento de Dilma em assalto na ditadura ressurge após nomeação ao Banco dos Brics. Aos Fatos. https://www.aosfatos.org/bipe/dilma-assalto-ditadura-banco-dos-brics/
16.Organização Pan-Americana da Saúde. (2020). Entenda a infodemia e a desinformação na luta contra a Covid-19. Kit de ferramentas de transformação digital: ferramentas de conhecimento. https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/52054/Factsheet-Infodemic_por.pdf?sequence=14
17.Schiochet, A., Nomura, B., & Macário, C. (2022). Em 2023, o Congresso terá políticos com histórico de propagação de desinformação. Agência Lupa. https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2022/10/04/congresso-politicos-historico-desinformacao
18.Seixas, R. (2019). A retórica da pós-verdade: o problema das convicções. EID&A: Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, 18(1), 122-138. https://doi.org/10.17648/eidea-18-2197
19.Wardle, C., & Derakhshan, H. (2019). Reflexão sobre a desordem da desinformação: formatos da informação incorreta, desinformação e má informação. Em C. Ireton & J. Posetti. (Orgs.), Jornalismo, fake news & desinformação: manual para educação e treinamento em jornalismo (pp. 46-58). unesco.
20.Weber, R. M. P. (2023). Protegendo a liberdade na luta pela democracia: reflexões a partir da experiência do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal. Em T. M. Jorge (Org.), Desinformação o mal do século: distorções, inverdades, fake news: a democracia ameaçada (pp. 21-37). Supremo Tribunal Federal-Universidade de Brasilia. https://bit.ly/e-book_desinformacao_mal_do_seculo
Para citar este artigo: Cassini, A. H. F., & Ito, L. d. L. (2024). Desinformação em foco: o papel da fotografia na disseminação de notícias falsas sobre política. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social “Disertaciones”, 17(2). https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.13939