Na década de 1960, um psicólogo social posicionou-se em contraposição à maioria dos psicólogos cognitivistas da época e avançou na elaboração de uma proposta psicossociológica de Psicologia Social. Trata-se de Serge Moscovici, que, na França de 1961, escreveu o livro La psychanalyse, son image et son public (2012 [1961]). Nesse livro, ele ressignificou o conceito de representações coletivas de Durkheim, introduzindo um aspecto dinâmico e denominando-o "representações sociais". Assim, inaugurou a Teoria das Representações Sociais, atualmente consolidada no campo da Psicologia.
As representações sociais, na compreensão de Moscovici (2003), são formas de conhecimento que resultam da comunicação e da interação cotidiana, produzidas e sustentadas por grupos sociais em contextos históricos específicos. Essas representações permitem a compreensão de um fenômeno/ objeto, o posicionamento diante dele, bem como as trocas e intercâmbios entre membros de uma comunidade. Nesse sentido, o autor destaca suas funções primordiais de convencionalização (de pessoas, coisas, acontecimentos, que são agrupados em uma categoria e diferenciados de outras) e de prescrição (de maneiras de pensar, agir e sentir, que nos são impostas e, ao mesmo tempo, são por nós reeditadas) (Moscovici, 2003). Ou seja, os sujeitos e os grupos participam da construção de suas realidades e utilizam a comunicação para construir e compartilhar conhecimentos, crenças e opiniões que os orientem em relação a um objeto social específico e à vida cotidiana como um todo (Jodelet, 1989).
A grande teoria proposta por Moscovici tem sido empregada para analisar diferentes fenômenos desde sua criação e originou o desenvolvimento de diferentes abordagens, cada qual focando conceitos, funções e/ou aspectos entendidos como fundamentais dentro do recorte proposto. A perspectiva que nos interessa aqui é a que enfatiza o aspecto cognitivo-estrutural das representações sociais e foi proposta por Jean Claude Abric, em sua abordagem estrutural, chamada "Teoria do Núcleo Central" (TNC).
Abric (1994) em sua teoria, sugere que as representações sociais possuem uma estrutura e que são organizadas de formas específicas. Elas seriam organizadas por meio de um duplo sistema sociocognitivo, composto pelos sistemas de núcleo central e de periferia. A organização proposta por Abric (1994) destaca que cada um dos dois sistemas possui papéis fundamentais, específicos e complementares entre si.
O sistema de núcleo, ou núcleo central, é uma dimensão da representação social mais conectado à memória social e a condições históricas. Ele é composto pelas ideias fundamentais que constituem uma representação social, ou seja, ele integra a base da representação social. Suas principais características são estabilidade e rigidez; nesse sentido, ele é a parte mais resistente a modificações da representação. O núcleo central possui duas funções: a função geradora, de alicerce de sentido aos outros elementos, gerando e transformando os demais elementos de uma representação; e a função organizadora, de organizar a conexão e a relação de demais cognemas de uma representação, sendo o núcleo responsável por unir e estruturar a representação (Abric, 1994; Moreira & Oliveira, 1998).
Já o sistema periférico se caracteriza por estar mais associado ao contexto imediato e ser mais adaptativo. Seus elementos são mais maleáveis e negociáveis, estando assim mais disponíveis para considerar contradições e integrar novas informações. O sistema periférico é a fronteira entre o núcleo central e a vida concreta, sendo responsável por essa função de concretização da representação na realidade. Também vinculado à função de regulação da representação social, por meio da sua maior flexibilidade e sensibilidade aos contextos e suas transformações. Além disso, o sistema periférico é responsável por proteger o núcleo central, por meio da sua função de defesa (Abric, 1994; Moreira & Oliveira, 1998).
A abordagem estrutural da TNC vem sendo amplamente utilizada em investigações sobre representações sociais, sobretudo por sua verificação e validação experimental (Abric, 1994; Moreira & Oliveira, 1998). Em geral, as pesquisas que investigam o conteúdo e a estrutura das representações sociais amparadas na TNC realizam um levantamento de hipótese de núcleo central por meio de uma tarefa de evocação livre de palavras, que é submetida, posteriormente, à análise prototípica (Wolter et al., 2022).
A evocação livre de palavras é uma técnica semiestruturada considerada simples dada a facilidade de aplicação. Em seu uso, apresenta-se ao participante um termo indutor (palavra ou frase) e a ele é solicitado que evoque um determinado número de palavras (três, cinco, dez) que variam de acordo com a escolha dos pesquisadores (Wolter et al., 2022). Por exemplo, quando se busca conhecer o que estudantes universitários do ensino superior do Sudeste brasileiro (grupo) pensam sobre a saúde mental (objeto/termo indutor) e adota-se a evocação livre, pode-se fazer a seguinte solicitação: "Diga quais são as três primeiras palavras ou ideais que lhe vêm à cabeça quando pensa em saúde mental". Hipoteticamente, pode-se obter as respostas: 1. ansiedade; 2. terapia; y 3. medicação.
Em se tratando de uma investigação sobre a estrutura e o conteúdo das representações sociais amparada na TNC, comumente se utiliza a análise prototípica para analisar as evocações livres, análise que também é conhecida como "análise de quatro casas". A análise prototípica indica, a partir do cruzamento da frequência de evocação dos termos e da ordem média de evocação, uma hipótese de estrutura dos elementos do pensamento social do objeto/termo indutor que foram evocados. O quadro produzido a partir dessa análise organiza os termos entre as estruturas de núcleo central, primeira periferia, segunda periferia e zona de contraste (Wolter et al., 2022). O grupo de palavras indicado pela análise prototípica, que explicita elementos (também chamados "cognemas") prontamente evocados e frequentes, refletem a hipótese de núcleo central da estrutura da representação social.
Para a utilização da evocação livre e da análise prototípica, Abric (2003) propõe que, após as evocações, seja solicitada ao participante da pesquisa a ordem de importância das evocações, implicando a substituição do critério da ordem de evocação pelo de importância. Segundo Wachelke (2009), o critério de ordem de importância proposto por Jean-Claude Abric seria mais coerente teoricamente por "associar a centralidade a um valor superior em relação aos demais elementos da representação" (p. 103).
Além da análise prototípica, é possível calcular diferentes índices que acrescentam análises do objeto de representação social estudado, os chamados "índices complementares" (Wolter & Wachelke, 2013; Wolter et al., 2022). Os índices complementares se utilizam de quatro conjuntos de informações que compõem o corpus das evocações: a totalidade de termos evocados (N); o número total de termos evocados que são diferentes, chamados de diferentes "tipos" (T); o número total de termos evocados apenas uma única vez, chamados "hápax" (H); e a frequência total dos termos foram evocados (F) (Wolter & Wachelke, 2013; Wolter et al., 2022). Esses índices se dividem entre índice de diversidade, índice de raridade e índice de comunidade, e refletem, entre si, a alta ou baixa coesão do pensamento do grupo sobre o objeto investigado e seu grau de compartilhamento.
Os recursos metodológicos descritos acima correspondem a análises exploratórias e de sondagem, que indicam uma hipótese de estrutura do sistema duplo que compõe uma representação social. Entre os autores da abordagem estrutural é consenso a recomendação da utilização de outras técnicas para que se possa confirmar a estrutura de uma representação com mais precisão e chegar a investigações mais conclusivas e integradas (Verges, 1992; Wolter & Wachelke, 2013; Wolter, 2018; Wolter et al., 2022). As técnicas de confirmação de centralidade permitem avaliar a presença de elementos do núcleo central da representação. São aplicadas após a análise prototípica, com o objetivo de testar se a estrutura hipotética do quadro de quatro casas se confirma. Entre essas técnicas, destacam-se a Mise-en-cause (MEC), também denominada "técnica de questionamento" (Moliner, 1989), o Modelo dos Esquemas Cognitivos de Base (SCB) (Guimelli & Rouquette, 1992) e a técnica de Análise Sucessiva por Blocos (CPB) (Flament, 1981).
A título ilustrativo, em pesquisa bibliográfica realizada nas bases de dados SciELO e Pepsic, a qual considerou os últimos 10 anos (2015-2024), foram localizados, respectivamente, 46 e 5 artigos de diferentes países, embasados na abordagem estrutural das representações sociais. Após a exclusão dos duplicados e de estudos que não se enquadravam na proposta, restaram, respectivamente, 36 e 4, totalizando 40 artigos. Destes, a maioria (36) empregou evocações livres ou a Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP) para acessar os elementos da representação social. Como método de análise, também a maioria (33) utilizou a análise prototípica, geralmente por meio de softwares como EVOC ou IRaMuTeQ. Apenas 13 artigos relataram o uso de alguma técnica para a confirmação de centralidade (predominantemente, a análise de similitude). Nenhum dos artigos fez uso de cálculos de índices complementares. A Tabela 1 ilustra os dados quantitativos obtidos a respeito dessas decisões metodológicos.
Apesar de amplamente utilizada, Wachelke (2009) destaca algumas limitações quanto ao uso exclusivo da análise prototípica, enfatizando que tal uso pode, muitas vezes, evidenciar um domínio insuficiente ou inadequado de aspectos teóricos e metodológicos, além de corresponder a um tipo de análise que, para garantir maior precisão, exigiria uma segunda coleta de dados, que nem sempre é possível, dadas as características da população, as dificuldade de acesso, tempo disponível, entre outras questões. Com isso, em muitos estudos, os resultados se restringem à identificação de elementos hipoteticamente centrais e periféricos obtidos por meio da análise prototípica, sem emprego de procedimentos de verificação de centralidade.
Diante disso, Wachelke (2009) defende "a possibilidade de uma caracterização mais precisa da estrutura representacional, em termos de centralidade dos elementos, propiciada por uma única coleta, preferencialmente amparada por recursos que façam uso de investigações que diferenciam elementos centrais de periféricos" (p. 104). Alinhado a tais proposições, o autor desenvolve uma técnica que, a partir de uma única etapa de coleta de dados, possibilita a identificação dos elementos estruturais e o cálculo do Índice de Centralidade a partir de Evocações (INCEV).
O INCEV abandona o critério de ordem média de evocação, empregado na análise prototípica, e cruza o critério de frequência dos elementos com uma proporção do que Wachelke (2009) denominou "valor simbólico pessoal". Este corresponderia ao entendimento de que a resposta dada pelo participante a partir da evocação é altamente importante e simultaneamente indispensável para a caracterização do objeto social (Wachelke, 2009). Nesse sentido, permitiria a caracterização da centralidade do elemento.
Apesar disso, o INCEV constitui um recurso ainda pouco utilizado na verificação de centralidade em estudos de abordagem estrutural. Na revisão de literatura apresentada, não foram encontradas investigações que valessem dessa técnica para verificar a estrutura representacional, com exceção do estudo em que o próprio autor (Wachelke, 2009) a propôs.
Assim, o presente estudo, ancorado nos princípios teóricos e metodológicos da abordagem estrutural, teve como objetivo geral verificar o conteúdo e a estrutura das representações sociais do objeto saúde mental no grupo estudantes da educação superior pública do Sudeste brasileiro e, para tanto, optou pelo uso do INCEV. Apesar de constituir um artigo que apresenta dados empíricos, resultantes de ampla pesquisa, também se buscou destacar o emprego do INCEV como recurso metodológico em estudos de abordagem estrutural.
Considerando o atual cenário da educação superior brasileira, vários estudos têm apontado os impactos negativos sobre a saúde mental da população universitária (Arino & Bardagi, 2018; Biesek & Gagliotto 2021; Cechet, 2013; De Barros & Peixoto, 2023; Teixeira et al., 2008). O processo de transição e adaptação à universidade, como destacam Almeida e Soares (2004), mostra-se complexo e multidimensional, envolvendo fatores de ordem pessoal e contextual, que implicam a aquisição de novas responsabilidades, relacionadas a um novo cotidiano, e em respostas adaptativas em relação aos desafios dessa nova fase.
As dificuldades de adaptação e permanência no universo acadêmico podem estar presentes para um número expressivo de estudantes, o que vai variar conforme as exigências do curso e da instituição de ensino, a capacidade de estabelecer relações interpessoais, as questões socioeconómicas, além de questões emocionais. A vida universitária em si traz grandes mudanças e muitas situações podem ser vivenciadas de forma estressante, como o distanciamento da família, no caso de estudar fora do município/estado de origem, a construção de novos relacionamentos, o cumprimento de exigências acadêmicas, a tomada de posição e a administração financeira. Tais situações adversas, em geral, aumentam ao longo do curso, exigindo o desenvolvimento contínuo de novas habilidades e competências por parte dos estudantes (Carleto et al., 2018), o que nem sempre é simples e exigiria suporte institucional.
Ao longo da vida universitária, diante das inúmeras exigências relacionadas à formação, o estudante pode deparar-se com sentimentos de desorientação, ansiedade, depressão, estresse, uso de substâncias psicoativas e consumo de álcool, o que demanda o desenvolvimento de ações e estratégias por parte da universidade para assegurar que o aluno consiga concluir a etapa universitária com sua saúde mental estável (Silva et al., 2018). Alguns estudos têm apontado a presença de tais quadros sobretudo em cursos da área da saúde, nos quais processos de ensino-aprendizagem marcados por alta pressão e cobrança, bem como outros eventos específicos, podem ser geradores de estresse (Murakami, et al., 2019; Murakami et al., 2024), prejudicando, assim, a saúde emocional e o desempenho acadêmico.
Tendo isso em vista, colocam-se as seguintes questões: como os próprios estudantes do ensino superior entendem o objeto "saúde mental"? Qual o pensamento social de estudantes universitários do Sudeste do Brasil sobre saúde mental? Para responder a tais questões foi realizada a presente pesquisa que teve como objetivo verificar o conteúdo e a estrutura das representações sociais do objeto "saúde mental" no grupo estudantes do ensino superior do Sudeste brasileiro a partir da técnica INCEV.
A pesquisa, caracterizada como descritiva, exploratória e de abordagem quantitativa, contou com a participação de 483 estudantes de diversas IES públicas do Sudeste brasileiro, sendo a maioria mulheres cis (76.4 %), jovens (89 %), matriculadas em cursos da área da saúde (41.2 %) e cursando até o 5° período (61.7 %). A Tabela 2 explicita os principais dados de caracterização dos participantes.
A coleta de dados se deu em etapa única por meio de questionário on-line, que envolveu questões sociodemográficas e uma questão de evocação livre sobre o termo indutor "saúde mental". O instrumento contou ainda com questões para avaliar a importância e incondicionalidade de cada resposta de evocação livre, seguindo a proposta de Wachelke (2009), possibilitando a confirmação da hipótese de núcleo central da representação social da saúde mental. O convite para participar do estudo, bem como o link de acesso ao questionário, foi divulgado em redes sociais, tais como Instagram e WhatsApp.
A investigação foi realizada em conformidade com os parâmetros éticos de pesquisa com seres humanos, conforme Resolução do Conselho Nacional de Saúde no 510 de abril de 2016, que destaca em seu artigo 1°, parágrafo único, alínea 1, que pesquisas de opinião pública com participantes não identificados não necessitam registro ou avaliação pelo sistema do Comitê de Ética em Pesquisa e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.
Os dados sociodemográficos foram tratados por meio da análise descritiva pelo programa Excel. O corpus produzido com os dados provenientes da coleta de evocações livres passou por um tratamento antes de ser submetido à análise. Foram realizados agrupamento de palavras em função do seu radical e correções ortográficas, padronização de plural/singular e palavras em feminino/ masculino. Optou-se por não realizar agrupamento por critério semântico por considerar que este pode alterar de modo significativo o sentido das evocações e, assim, evitar vieses equivocados e ambiguidade lexical, mantendo o sentido evocado pelo participante. Após a padronização realizada com auxílio do software Excel, os dados foram submetidos à análise prototípica, que se deu por meio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ). Este permite o cruzamento dos critérios de ordem média de evocação e de frequência, com a divisão das evocações livres em quatro quadrantes (Camargo & Justo, 2013; Wolter et al, 2022).
Com o objetivo de caracterizar a estrutura das representações sociais considerando os critérios de frequência, grau de incondicionalidade e importância, os dados passaram também pelo cálculo do INCEV. Para tanto, estes foram organizados e incluídos em uma planilha do Excel, construída com base em Wachelke (2009). Para cada termo, foram calculados a frequência no corpus, o percentual no corpus, a proporção de valor simbólico pessoal e o percentual de valor simbólico pessoal; na análise, foi considerada a frequência mínima de 5 %. Tal frequência foi adotada por considerar os termos que foram evocados por, pelo menos, 5 % da amostra (Wachelke, 2009). As palavras com INCEV ≥ 0.1 foram consideradas centrais e automaticamente destacadas na planilha (Wachelke, 2009).
Para facilitar o cálculo do INCEV, a planilha proposta está sendo disponibilizada por meio de link de acesso (PLANILHA_INCEV_BASE.xlsx - Google Sheets), bem como algumas instruções gerais para seu preenchimento. Ela é composta por quatro abas, cujo preenchimento sucessivo leva, com base nas fórmulas aplicadas, ao cálculo automático do INCEV.
Com base na análise prototípica, encontrou-se como hipótese de núcleo central da representação social de "saúde mental" para os estudantes investigados (primeiro quadrante) os elementos: ansiedade, terapia, depressão, equilíbrio, necessidade, paz, descanso e importante. Na zona de contraste, estariam: psicólogo, essencial, qualidade de vida, tranquilidade, autocuidado e cansaço; na primeira periferia: cuidado e bem-estar; e, na segunda periferia, estariam 13 elementos: lazer, autoconhecimento, felicidade, estabilidade, família, remédio, saúde, prioridade, exaustão, estresse, psicologia, amizade e apoio. A tabela 3 indica a distribuição dos elementos nos quadrantes.
Os resultados do INCEV, por sua vez, consideradas as recomendações de Wachelke (2009), indicaram como hipótese de núcleo central apenas os elementos "ansiedade" e "terapia", conforme a Tabela 4.
Com o intuito de captar dinâmicas presentes em subgrupos da amostra a partir do cálculo do INCEV, também foram realizadas análises em relação a algumas variáveis. É possível identificar, na Tabela 5, a presença dos termo "ansiedade", confirmado pelo INCEV, para ambas as subamostras testadas. Na comparação entre homens e mulheres cis, a estrutura representacional manteve o elemento "ansiedade" como pilar no núcleo central e variou a partir das ideias de depressão para homens, e de terapia, para mulheres. No que diz respeito às análises com a subamostra de participantes brancos e negros, ambos os elementos - ansiedade e terapia -permaneceram com presença mais expressiva; no entanto, para pessoas negras, a estrutura da representação social incluiu, em seu núcleo, a concepção de cuidado. A Tabelas 5 apresenta resultados resumidos - apenas as palavras identificadas como centrais (INCEV ≥ 0,1) - em relação às variáveis "gênero" e "raça/cor".
Considerando os dados gerais provenientes das duas análises realizadas (prototípica e INCEV), pode-se sugerir que, para os estudantes que participaram da presente pesquisa, a saúde mental no contexto universitário parece estar relacionada a um estado de fragilidade, de grandes preocupações, expresso pelo termo central "ansiedade". Nesse sentido, exige-se cuidado, atenção e tratamento, ou seja, terapia, outro elemento confirmado como central. A presença de elementos como bem-estar, paz, equilíbrio, tranquilidade, descanso, embora periféricos na estrutura representacional encontrada, também se mostra relevante nesse contexto e parece demonstrar a ambiguidade na qual se ancora a ideia de saúde mental para esses estudantes de IES. Portanto, cuidado e regulação são essenciais para que a ausência de saúde mental não gere sofrimento e mal-estar psíquico.
Diversos estudos apontam a ansiedade, assim como o estresse e a depressão, como problemas frequentemente relatados por universitários, e indicam esse grupo como altamente vulnerável ao desenvolvimento de transtornos mentais (Arino & Bardagi, 2018; Biesek & Gagliotto, 2021; Cybulski & Mansani, 2017). Tal situação evidencia a necessidade de intervenções precoces, promovidas pelas IES, para tornar a experiência universitária menos cansativa e menos associada ao estresse e à ansiedade, favorecendo experiências acadêmicas mais positivas e saudáveis (Arino & Bardagi, 2018). As instituições, por sua vez, nem sempre oferecem suporte adequado para o acolhimento e enfrentamento dessas questões relativas ao bem-estar psíquico. Quando existentes, os programas de assistência nem sempre são suficientes para atender à demanda crescente e, em geral, não consideram todos os diferentes marcadores sociais que atravessam a experiência universitária (Romanini et al., 2024).
A despeito disso, Da Conceição et al. (2024) ressaltam um outro desafio que é a resistência de muitos estudantes em buscar apoio profissional, o que representa um grande obstáculo para a eficácia de intervenções precoces, quando disponíveis. Nesse sentido, por mais que os universitários participantes da presente pesquisa demonstrem reconhecer a importância do cuidado com a saúde mental ao evocarem o elemento "terapia", não se pode afirmar que haja menos estigma em relação ao tratamento psicológico, nem maior procura de serviços como clínicas-escolas.
Além disso, não se pode perder de vista que, nas últimas décadas, no Brasil, a população universitária passou por mudanças, sobretudo com o acesso de grupos sociais mais vulneráveis às universidades, tanto públicas quanto privadas. Tais transformações, embora evidenciem, como aspecto positivo, a ampliação do acesso e a inclusão de segmentos populacionais anteriormente à margem da educação superior, também resultaram em impactos negativos no bem-estar psicológico desses indivíduos, o que ocorre, muitas vezes, desde a entrada na universidade, podendo se estender ao longo de toda a jornada acadêmica (Teixeira et al., 2008). Isso porque, além da falta de informações iniciais mais objetivas/práticas sobre esse novo contexto, ainda desconhecido objetivamente por muitos, somam-se outras adversidades, como aquelas relacionadas ao desempenho acadêmico, ao relacionamento com colegas e professores, à rotina de estudos, ao afastamento da família, às dificuldades financeiras e à gestão do tempo (Cechet, 2013). Somado a isso, a existência de programas assistenciais que, como já destacado, não são capazes de abranger toda a demanda da comunidade estudantil (Romanini et al., 2024) indica que tais iniciativas não são plenamente eficientes no enfrentamento desses desafios.
Os dados provenientes das análises complementares das subamostras referentes a gênero e raça/ cor indicam que, apesar dos elementos em comum, há modos distintos de entender e enfrentar o sofrimento, podendo ser compreendidos a partir do conceito de interseccionalidade. Tal conceito diz respeito a como marcadores sociais, como gênero e raça, se articulam e produzem experiências subjetivas de vulnerabilidade (Crenshaw, 2021). Diante disso, o termo "ansiedade", apresentado por mulheres cis, dialoga com dados que apresentam maior prevalência de questões emocionais nesse grupo, como ansiedade, desânimo e alterações do sono, frequentemente associadas à sobrecarga decorrente da dupla jornada e às pressões sociais e acadêmicas (Portela et al., 2020; Queiroz & Souza, 2025) . Além disso, a presença de terapia reflete maior legitimidade social do cuidado em mulheres, bem como maior busca por ajuda em situações difíceis (Queiroz & Souza, 2025). No entanto, quanto aos homens, a associação entre ansiedade e depressão pode estar relacionada a padrões de masculinidade socialmente construídos, em que se tem a dificuldade de se expressar emocionalmente e buscar por cuidado, resultando em formas mais internalizadas de sofrimento (Alves et al., 2017).
No que tange às diferenças raciais, o cuidado como elemento central nas representações de pessoas negras vai ao encontro de estudos que abordam que universitários negros vivenciam a universidade atravessados por experiências de racismo, não pertencimento e pressões adicionais relacionadas à adaptação a um espaço historicamente não pensado para a diversidade racial, o que pode intensificar o sofrimento psíquico (Moreira, 2021). Assim, busca-se mobilizar formas específicas de cuidado, frequentemente ancoradas em redes de apoio, como grupos de estudantes negros, coletivos e práticas comunitárias, sendo essa vivência marcada por um caráter coletivo e subversivo, que funciona como forma de enfrentamento do sofrimento produzido pelo racismo (Moreira, 2021). Dessa maneira, o cuidado aparece como recurso de suma importância para a permanência no ensino superior, sendo uma prática de resistência e sobrevivência, sobretudo para pessoas negras.
Não se pode perder de vista que os dados apresentados se referem ao pensamento desse grupo (estudantes de instituições públicas do Sudeste brasileiro, predominantemente jovens, mulheres e de cursos da área da saúde) em relação a esse objeto específico (saúde mental), não podendo ser generalizados indevidamente. Apesar disso, corroboram resultados de muitos estudos atuais sobre o tema, alguns dos quais referidos neste estudo, fortalecendo a hipótese de que o contexto universitário se constitui tanto como produtor de sofrimento quanto de cuidado, exigindo políticas institucionais mais abrangentes, sensíveis às interseccionalidades e comprometidas com a promoção do bem-estar estudantil.
As pesquisas que buscam investigar o pensamento social de determinados grupos, como se caracterizou a presente pesquisa, possuem parte importante na compreensão de fenômenos sociais. Os estudos sobre a estrutura e conteúdo dos elementos do pensamento social, como é o caso dos estudos das representações sociais, fornecem pistas não só para ter uma visão mais profunda de um determinado saber social, mas também da articulação entre seus sistemas central e periférico. Sugerimos, aqui, duas sínteses das contribuições centrais a partir da realização do estudo em tela, a saber: (1) a caracterização da estrutura da representação social dos estudantes sobre saúde mental fornece ainda mais elementos para que se pensem intervenções de prevenção e promoção de saúde mental direcionadas; e (2) o INCEV como recurso metodológico facilitador nas pesquisas que objetivam investigar a estrutura de uma representação social em etapa única.
A contribuição 1 decorre do fato de que, além de fortalecer os resultados de pesquisas já realizadas sobre saúde mental e estudantes de IES, a presente pesquisa contribui para caracterizar os elementos estruturais desse fenómeno que, embora não seja recente, ainda constitui uma preocupação relevante no campo educação e da saúde. Destaca-se, por meio do elemento central "ansiedade", a produção de sofrimento mental relacionada à vivência universitária no grupo e em suas subamostras também analisadas. A contribuição 2, relativa ao uso do INCEV, refere-se não apenas à otimização de tempo, em função da aplicação de instrumentos em uma etapa única, mas também à demonstração do uso da técnica, bem como à criação e disponibilização de uma planilha para o cálculo automático do índice. Tais aspectos podem favorecer sua difusão, uma vez que, embora seja uma técnica útil e de consistência teórica, ainda é subutilizada.
Alguns autores destacam a importância de integrar mais técnicas de confirmação de centralidade e caracterização de estrutura de uma representação social (Wolter et al., 2022), e o INCEV pode ser uma delas. Apesar de a limitação de sua aplicação via questionário envolver algum custo cognitivo para a organização das respostas, os resultados aqui encontrados, por serem condizentes com achados de pesquisas anteriores sobre saúde mental e população universitária, demonstram a coerência das análises do INCEV, corroborando as proposições de que é também possível caracterizar a estrutura de uma representação social por meio da referida técnica(Wachelke, 2009). No entanto, justamente por considerar sua subutilização, ainda que o INCEV apresente fundamento teórico e metodológico em seu desenvolvimento, faz-se necessário que outras pesquisas de representações sociais incluam o INCEV em suas coletas e análises de dados para que se possa testar e demonstrar sua eficiência enquanto técnica de confirmação de centralidade de representações sociais, sobretudo em objetos e grupos anteriormente investigados com as técnicas clássicas como a MEC, CPB e SCB.
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