Análise das diferenças entre grupos no processo de tomada de decisão de carreira: um estudo com perfis motivacionais


DOI: https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.12869




Resumo

O presente estudo tem como principal objetivo a con-ceptualização de perfis motivacionais, com base nos pressupostos da teoria da autodeterminação (self-determination theory [SDT]; Ryan & Deci, 2019). Para isso, recorremos ao método de análise de clusters para identificar as diferenças que estes apresentam no suporte parental percebido em relação à carreira, aos comportamentos de exploração vocacional e à indecisão de carreira. Esta abordagem centrada nos indivíduos procura enriquecer a discussão em torno das razões subjacentes ao envolvimento nas tarefas relacionadas com o processo de tomada de decisão de carreira. Para além disso, acompanha a multidimensionalidade da SDT que sublinha a intenção de estudar a qualidade da motivação e a sua associação ao comportamento vocacional. De acordo com a expectativa teórica, a análise de clusters organizou e distinguiu três perfis teoricamente relevantes.

Dois desses perfis apresentam-se como conceptualmente opostos (alunos autodeterminados e não autodeterminados). Obtivemos também um perfil de alunos com níveis de motivação intermédios (que não se situam num dos extremos do continuum da autodeterminação) e que são analisados de um ponto de vista mais exploratório. Os resultados do estudo demonstram que as abordagens centradas nos indivíduos são um complemento eficaz às abordagens centradas nas variáveis, uma vez que providenciam uma maior robustez aos resultados e riqueza na análise de diferentes grupos. Demonstram também a importância da utilização deste método no estudo do funcionamento motivacional relativo aos processos de carreira e fornecem pistas para a conceptualização e preparação de intervenções vocacionais.

Palavras-chave:

perfis motivacionais, teoria da autodeterminação, exploração vocacional, indecisão de carreira, suporte parental de carreira


Resumen

El estudio tiene como principal objetivo la concep-tualización de perfiles motivacionales con base en los presupuestos de la teoría de la autodeterminación (self-determination theory [SDT]; Ryan & Deci, 2019). Para eso, recurrimos al método de análisis de clústeres para analizar las diferencias que estos presentan en el soporte parental percibido en relación con la carrera, comportamientos de exploración vocacional e indecisión de carrera. Este enfoque centrado en los individuos busca enriquecer la discusión sobre las razones subyacentes al involucramiento en las tareas relacionadas con el proceso de toma de decisiones de carrera. Además, acompaña la multidimensionalidad de la SDT, que enfatiza el estudio de la calidad de la motivación y su asociación con el comportamiento vocacional. De acuerdo con la expectativa teórica, el análisis de clústeres identificó y diferenció tres perfiles conceptualmente relevantes. Dos de estos perfiles son conceptualmente opuestos (estudiantes autodeterminados y no autodeterminados). También obtuvimos un perfil de alumnos con niveles intermedios de motivación (que no se ubican en ninguno de los extremos del continuo de la autodeterminación) y que son analizados desde un punto de vista más exploratorio. Los resultados evidencian que los abordajes enfocados en los individuos son un complemento eficaz a los abordajes centrados en las variables, ya que aportan mayor robustez a los hallazgos y enriquecen el análisis de distintos grupos. Asimismo, demuestran la importancia de utilizar este método para el estudio del funcionamiento motivacional en los procesos de carrera, y ofrecen orientaciones para la conceptualización y el diseño de intervenciones vocacionales.

Palabras clave:

perfiles motivacionales, teoría de la autodeterminación, exploración vocacional, indecisión de carrera, soporte parental de carrera


Abstract

The main objective of this study is to conceptualize motivational profiles based on the assumptions of self-determination theory (SDT; Ryan & Deci, 2019). To this end, we conducted a cluster analysis to examine differences among profiles in perceived career-related parental support, career exploration behaviors, and career indecision. This person-centered approach seeks to enrich the discussion of the underlying reasons for involvement in tasks related to the career decision-making process. In addition, it aligns with the multidimensionality of SDT, which emphasizes the study of motivation quality and its association with vocational behavior. According to the theoretical expectation, the cluster analysis organized and distinguished three conceptually relevant profiles. Two of these profiles are conceptually opposed (self-determined and non-self-determined students). We also obtained a profile of students with intermediate levels of motivation (which are not located at one of the extremes of the self-determination continuum) that is analyzed from a more exploratory point of view. The results of the study demonstrate that person-centered approaches are an effective complement to variable-centered approaches, as they provide greater robustness to the results and richness in the analysis of different groups. They also demonstrate the importance of using this method in the study of motivational functioning related to career processes and provide clues for the conceptualization and design of vocational interventions.

Keywords:

motivational profiles, self-determination theory, career exploration, career indecision, career-related parent support


Em Portugal, o sistema educativo público organiza o ensino secundário em três anos letivos, preparando os alunos para prosseguir estudos no ensino superior ou para ingressar no mercado de trabalho. Durante este período, os estudantes encontram-se numa fase do desenvolvimento vocacional que implica a exploração dos seus interesses e competências, bem como de alternativas profissionais e formativas que possam conduzir a decisões informadas e que correspondam à reflexão que fazem sobre si e o seu futuro de carreira (e. g.,Super et al., 1996). Neste âmbito, as intervenções realizadas pelos Serviços de Psicologia e Orientação (SPO), integrados no sistema educativo, são consideradas essenciais, pois, ao envolver agentes do microssistema do aluno (por exemplo, pais e professores), promovem transições vocacionais mais adaptativas.

Independentemente desta estruturação contextual, os estudantes tendem a adotar alguma diversidade de estratégias quando confrontados com a necessidade de resolver tarefas vocacionais associadas a esta etapa (Bartley & Robitscheck, 2000; Lent et al., 2016). O facto de a natureza destas tarefas orientar o indivíduo para a concretização de objetivos específicos (por exemplo, optar entre diferentes alternativas de formação) tem conduzido a uma crescente consideração do papel das dimensões motivacionais no desenvolvimento de quadros teóricos que procuram explicar as diferenças individuais nos comportamentos de carreira (Blustein, 1988; Flum & Blustein, 2000).

Uma abordagem centrada nos indivíduos, sustentada em métodos estatísticos exploratórios e multivariados (por exemplo, análise de clusters), apresenta-se como um complemento aos estudos que têm como base uma abordagem centrada nas variáveis (por exemplo, análises de regressão) (Meyer & Morin, 2016). Para além disso, esta abordagem tem sido valorizada na literatura de carreira por permitir focarmo-nos na consideração das diferenças existentes em distintos subgrupos de uma amostra, possibilitando uma discussão mais rica da problemática, como será o caso de padrões moti-vacionais complexos que podem não emergir em análises centradas em variáveis isoladas (Hofmans et al., 2020; Morin et al., 2018). Em face deste pressuposto, o presente estudo utilizará análise de clusters com o objetivo de, em primeiro lugar, conceptualizar perfis com base em variáveis moti-vacionais e, seguidamente, analisar diferenças no que se refere ao suporte parental para a carreira, comportamentos de exploração vocacional e níveis de indecisão de carreira.

A exploração vocacional consiste na recolha de informações sobre o self e o mundo ocupacional, assumindo um papel central no processo de tomada de decisão de carreira ao longo da vida (Jiang et al., 2019; Lent et al., 2016; Savickas, 2013). Esta relevância deriva, sobretudo, do suporte que fornece à gestão das escolhas em transições importantes que têm lugar ao longo do ciclo de vida (por exemplo, finalizar o ensino secundário) (Jiang et al., 2019; Super et al., 1996). De modo a garantir resultados adaptativos, a exploração vocacional deverá ser planificada, intencional e recorrer ao sentido de autoria, persistência e autonomia do indivíduo (Blustein & Flum, 1999; Flum & Blustein, 2000). Para além disso, de acordo com as abordagens desenvolvimentistas e contextualistas aos processos de carreira, também os contextos proximais do adolescente (por exemplo, pais, professores) poderão desempenhar um papel importante na promoção da exploração em períodos de transição vocacional (Lent et al., 2016; Savickas, 2013). Este suporte poderá acontecer, por exemplo, através da exposição dos estudantes a atividades que permitam recolher informações e refletir sobre as suas experiências ou através da satisfação de necessidades psicológicas básicas que sustentam a qualidade com que se envolvem nas atividades exploratórias (Adams et al., 2017).

Na análise dos determinantes motivacionais da exploração, a teoria da autodeterminação (self-determination theory [SDT]) (Ryan & Deci, 2019) tem vindo a ser apontada como uma matriz conceptual capaz de acrescentar uma reflexão mais profunda relativamente às razões subjacentes para o envolvimento em processos vocacionais (Guay, 2005; Guay et al., 2003; Paixão & Gamboa, 2022). A SDT propõe um continuum entre a motivação intrínseca (a forma mais autónoma de motivação) e os diferentes tipos de regulação que compõem a motivação extrínseca (i. e., regulação identificada, regulação introjetada e regulação externa). A sua multidimensionalidade reflete o papel importante desempenhado pela agência pessoal, uma vez que a eficiência na forma como o indivíduo integra os valores da tarefa no sef(internalização) é um dos fatores determinantes para que se possa comportar e envolver de forma mais autónoma ou controlada (Ryan & Deci, 2019). De facto, é esta característica que permite a abordar o estudo da motivação do seu ponto de vista qualitativo (razões para o envolvimento), em detrimento da dicotomia que predomina noutras teorias (por exemplo, teoria expectativa-valor) (Adams et al., 2017) e, assim, ir ao encontro da necessidade de se interpretar este constructo como um processo e não como um estado (Paixão, 2008; Vansteenkiste et al., 2009). Contudo, o processo de internalização não é automático, sendo necessário criar condições que suportem e nutram as necessidades psicológicas básicas do indivíduo: necessidade de autonomia, competência e relacionamento (Deci et al., 2013; Vansteenkiste et al., 2023). Neste sentido, e considerando os trabalhos que sublinham a importância dos fatores contextuais na regulação do comportamento motivado e na satisfação destas necessidades na área da carreira (Lent et al., 2016; Ryan & Deci, 2019; Vansteenkiste et al., 2023), a integração entre motivação, suporte parental e processos vocacionais apresenta-se como necessária para a compreensão do desenvolvimento de carreira em adolescentes (Duchesne et al., 2012; Duchesne et al., 2025).

Diversos estudos têm procurado explorar o impacto do funcionamento motivacional nos comportamentos e nos resultados dos processos vocacionais, sugerindo relações positivas entre os tipos de motivação mais autónoma e menores níveis de indecisão (e. g.,Guay, 2005; Mbanga et al., 2024; Paixão & Gamboa, 2017), maior investimento na exploração vocacional (e. g.,Ahn et al., 2025; Bartley & Robitscheck, 2000; Blustein, 1988; Paixão & Gamboa, 2022), maiores níveis de adaptabilidade de carreira (e. g.,Shin & Lee, 2017), menores dificuldades relativas à tomada de decisão e menores níveis de indecisão (e. g.,Guay et al., 2003; Paixão & Gamboa, 2017, 2022). Em contraste, os tipos de motivação mais controlada têm surgido associados a menor autoeficácia para a tomada de decisão de carreira (e. g.,Ahn et al., 2025), menores níveis de exploração (e. g.,Blustein, 1988; Mbanga et al., 2024; Paixão & Gamboa, 2017, 2022), indecisão crónica (e. g.,Guay et al., 2006), maiores níveis de indecisão (e. g.,Paixão & Gamboa, 2017, 2022) e menor autodeterminação no ajustamento ao ensino superior (e. g.,Yu et al., 2018).

No mesmo sentido, vários autores têm sugerido que a diferenciação na qualidade do suporte fornecido por parte dos agentes dos contextos proximais pode influenciar o desenvolvimento vocacional do indivíduo, nomeadamente no que respeita à validação das suas escolhas e ao investimento em tarefas adjacentes a este processo (e. g.,Gagnon et al., 2019; Guay et al., 2006; Guay et al., 2003; Haerens et al., 2018). Duineveld et al. (2017) sugerem relações negativas entre o suporte baseado na autonomia e os sintomas depressivos, bem como associações positivas com a autoestima em momentos de transição pós-ensino secundário. Mais especificamente, Dietrich e Kracke (2009) e Dietrich et al. (2011) concluíram que o principal suporte considerado pelo indivíduo, aquando da aproximação de transições académicas, são as figuras parentais, sendo que a perceção da existência de interesse e de envolvimento destas parece conduzir a um aumento dos níveis de exploração vocacional do indivíduo. Resultados semelhantes podem ser encontrados no estudo de Maftei et al. (2023). Nele, o suporte parental surge como um preditor robusto de maiores níveis de exploração vocacional dos adolescentes. Nos estudos que diferenciam o suporte do pai e da mãe, concluiu-se que o envolvimento da mãe parece ocorrer em fases mais precoces do desenvolvimento e de forma mais intensa e parece refletir-se em níveis mais elevados de suporte emocional, modelação de carreira e de persuasão verbal (Palos & Drobot, 2010). Por sua vez, poderão ser potenciais preditores de uma maior abertura e intencionalidade na exploração do meio e do self (Estreia et al., 2018; Palos & Drobot, 2010). No mesmo sentido, Rodrigues et al. (2017) e Turner et al. (2003) sublinham que a perceção de suporte parental poderá ter impacto no planeamento de carreira, na exploração vocacional, na autoeficácia e no processo de tomada de decisão.

Neste sentido, a análise de perfis motivacionais de alunos do ensino secundário assume particular importância não só por se encontrarem numa fase crítica para a cristalização dos interesses e para o planeamento das transições vocacionais, mas também porque possibilita uma leitura mais integrada das características individuais à luz das influências dos seus contextos proximais nos processos de carreira (Lent et al., 2016; Super et al., 1996).

Enquadramento ao estudo

Na literatura vocacional, observa-se uma predominância de abordagens centradas nas variáveis; contudo, este tipo de metodologia tende a desconsiderar as possíveis diferenças nos padrões de resultados entre participantes e entre os contextos em que se inserem (Hofmans et al., 2020; Morin et al., 2018). As abordagens centradas nos indivíduos, como, por exemplo, a análise de clusters, emergem como resposta a esta insuficiência. Este método estatístico exploratório e multivariado permite obter diferentes soluções de agrupamentos ou perfis, com base nas características partilhadas entre os indivíduos que compõem a amostra e analisar as suas diferenças, contribuindo para o enriquecimento da análise dos resultados (Meyer & Morin, 2016). Pelo facto de ser um método muito dependente do tamanho da amostra, é determinante demonstrar que os perfis encontrados apresentam uma conceptualização teoricamente relevante, que se relacionam com as variáveis em estudo e que apresentam estabilidade ao longo do tempo, de modo a assegurar uma maior validade de constructo (Hofmans et al., 2020; Morin et al., 2018).

Na literatura vocacional e de carreira, é possível identificar uma crescente tendência para adotar abordagens centradas nos indivíduos. Germeijs et al. (2012) conceptualizam perfis de alunos baseando-se em variáveis relativas à exploração (orientação e comportamentos) e à tomada de decisão de carreira (estatuto, compromisso e nível de decisão). Os seus resultados associam o perfil de alunos que apresenta maior investimento na exploração e maiores níveis de compromisso e de decisão a uma menor ansiedade relativa à escolha e maiores níveis de autoeficácia para a tomada de decisão de carreira. Além disso, o perfil de alunos com menores níveis de exploração, de compromisso e de decisão apresentou níveis mais elevados de ansiedade e menor autoeficácia.

O trabalho de Gamboa et al. (2014) diferencia quatro agrupamentos de alunos de cursos profissionais com base num conjunto de variáveis vocacionais: exploração vocacional, indecisão de carreira, compromisso de carreira e autoeficácia para a tomada de decisão de carreira. Os grupos foram conceptualizados e analisados em interação com a qualidade percebida do estágio curricular frequentado. Os perfis menos adaptativos apresentaram baixos níveis de compromisso e envolvimento na exploração e níveis elevados de indecisão. Por sua vez, os grupos que apresentam comportamentos vocacionais mais favoráveis revelam níveis mais elevados de exploração, menores níveis de stress relativamente à tomada de decisão e menor indecisão de carreira.

O estudo realizado por Paixão e Gamboa (2017) procurou conceptualizar perfis com base em variáveis motivacionais e analisá-los à luz dos seus comportamentos de exploração e níveis de indecisão. Os resultados deste estudo dão conta da emergência de um perfil de alunos externamente regulados com níveis de exploração vocacional semelhantes aos do grupo de alunos autodeterminados (perfil mais adaptativo). Contudo, os seus níveis de indecisão de carreira apresentaram-se semelhantes aos do perfil de alunos não autodeterminado (perfil menos adaptativo), sendo significativamente mais elevados que os dos alunos pertencentes ao perfil mais adaptativo. Este tipo de resultados indica-nos que os níveis elevados de motivação (quantidade) nem sempre surgem associados a resultados adaptativos, sobretudo se a motivação tiver pouca qualidade (por exemplo, do tipo controlada). Também o trabalho de Ahn et al. (2025) nos apresenta resultados que corroboram a possibilidade de emergirem perfis mais adaptativos de base motivacional, com tipologias de envolvimento no processo de desenvolvimento de carreira que predizem com maior probabilidade resultados positivos em diferentes momentos das transições vocacionais.

O presente estudo tem como principal objetivo a conceptualização de perfis motivacionais (com base nos pressupostos da SDT), recorrendo a uma análise de clusters e à análise das diferenças entre os perfis relativamente à perceção de suporte parental de carreira, aos comportamentos de exploração vocacional e à indecisão de carreira. A utilização desta metodologia acompanha a multidimensiona-lidade da SDT, sublinhando a intenção de estudar a qualidade da motivação e a sua associação ao comportamento vocacional. Ainda que seja expectável o surgimento de dois perfis motivacionais (por exemplo, autodeterminado e não autodeterminado), os resultados de estudos que seguiram esta linha metodológica no contexto em académico (e. g.,Ratelle et al., 2007; Vansteenkiste et al., 2009) e vocacional (Ahn et al., 2025; Paixão & Gamboa, 2017) sugerem que deverão ser consideradas soluções de três ou mais perfis, no sentido de encontrar grupos com níveis intermédios de motivação.

Posto isto, esperamos encontrar um perfil de alunos autodeterminados com níveis elevados de suporte parental e de exploração vocacional e baixos níveis de indecisão de carreira, uma vez que parecem surgir associados a comportamentos e resultados mais adaptativos. Além disso, esperamos que possa surgir um perfil de alunos não autodeterminado, caracterizado por baixa perceção de suporte parental, baixos níveis de exploração e níveis mais elevados de indecisão entre os grupos. Tendo em conta a presença de perfis intermédios em outros estudos e de um perfil de alunos externamente regulados num trabalho anterior com o mesmo conjunto de variáveis vocacionais, esperamos encontrar um perfil motiva-cional que se destaque pelo predomínio dos níveis mais controlados de motivação, o que implicará a adoção de uma abordagem mais exploratória na sua conceptualização.

Método

Participantes e procedimento

A amostra deste estudo é composta por 260 estudantes do 11° ano do ensino público português. A idade dos participantes varia entre os 15 e os 19 anos (M = 15.93; DP = 0.98), sendo que 54.6 % afirmam ser de sexo feminino. Esta amostra compreende um grupo socioculturalmente diversificado, refletindo a heterogeneidade típica das escolas públicas do país.

Antes da recolha de dados, foram obtidos os consentimentos informados necessários junto da direção da escola e dos pais dos participantes. A recolha foi realizada com os alunos que se encontravam presentes nos dias em que ela ocorreu e que possuíam consentimento dos pais para participar no estudo. Foram fornecidas informações sobre o caráter voluntário da sua participação e a garantia de anonimato dos dados recolhidos. A aplicação dos instrumentos foi realizada por investigadores e psicólogos preparados para o efeito, em contexto de sala de aula e na presença de um professor, tendo demorado, em média, 45 minutos na sua aplicação.

Medidas

A Escala de Autonomia para a Tomada de Decisão de Carreira (Guay, 2005; adapt. Silva, 2013) foi utilizada para analisar os níveis de motivação dos participantes, com base nos pressupostos da SDT (Ryan & Deci, 2019). Consiste numa escala com 32 itens, equitativamente distribuídos por oito atividades relacionadas com o processo de tomada de decisão de carreira: 1) procurar informação sobre as carreiras; 2) procurar informação acerca de programas escolares/educativos; 3) identificar opções para um programa escolar/educativo ou uma carreira; 4) trabalhar arduamente para alcançar um objetivo de carreira; 5) identificar opções de carreira em linha com um objetivo de carreira; 6) identificar os passos necessários para concluir um programa de estudos; 7) identificar o que é mais importante para a pessoa numa opção de carreira; e 8) identificar a opção de carreira que é congruente com os nossos interesses e personalidade. Para cada atividade, os participantes devem indicar, numa escala de tipo Likert, de sete pontos (1: não corresponde de todo; 7: corresponde muito fortemente), a afirmação que melhor traduz a razão da participação na atividade em causa. Os quatro itens existentes para cada atividade avaliam, respetivamente, a motivação intrínseca, a regulação identificada, a regulação introjetada e a regulação externa. Outros estudos que utilizaram a escala demonstraram valores que suportam as quatro dimensões da escala X2(735.42) = 1972.07, Comparative Fit Index = 0.92, Non-Normed Fit Index = 0.91, Root Mean Square Error of Approximation = 0.07 (Guay, 2005; Guay et al., 2003). Relativamente à consistência interna, é possível encontrar valores de consistência interna entre 0.91 e 0.95 e correlações entre os tipos de motivação que suportam a expectativa teórica (por exemplo, motivação intrínseca e regulação identificada, r = 0.50, p <0.05; regulação introjetada e regulação externa, r = 0.50, p <0.05) (Guay et al., 2003; Paixão & Gamboa, 2017, 2022).

A Escala de Suporte Parental Relativo à Carreira (Turner et al., 2003; adapt. Gamboa et al., 2020) avalia diferentes dimensões da perceção dos pais para as questões de carreira, através das respostas dadas numa escala de tipo Likert de 5 pontos (1: discordo bastante; 5: concordo bastante). Baseia-se em quatro dimensões que representam as fontes de autoeficácia de Bandura: suporte emocional (dimensão afetiva do suporte ao desenvolvimento educacional e vocacional); apoio instrumental (apoio parental para o desenvolvimento de competências); modelação de carreira (aprendizagem vicariante e modelagem em face do percurso de carreira dos pais); e persuasão verbal (elogios e incentivos explícitos verbalmente dados pelos pais). Os estudos realizados com a versão original apresentam valores de consistência interna entre 0.78 e 0.88 (e. g.,Turner et al., 2003) e acima de 0.80 para a versão portuguesa (Gamboa et al., 2020).

O Inventário de Exploração de Carreira (Stumpf et al., 1983; adapt. Taveira, 1997) consiste em 54 itens de resposta do tipo Likert. Contudo, neste estudo, só foram utilizados os itens relativos aos comportamentos de exploração, pelo facto de ser a dimensão que melhor se relaciona com o estatuto da tomada de decisão de carreira. Estes dividem-se em quatro dimensões: exploração do meio (4 itens), exploração do sef(5 itens), exploração sistemática e intencional (2 itens) e quantidade de informação (3 itens). A validade e multidimensionalidade da escala tem sido demonstrada, e a consistência interna da versão portuguesa varia entre 0.63 e 0.83 (Taveira, 1997).

A Escala de Decisão de Carreira (Osipow et al., 1976; adapt. Silva, 1997) foi utilizada para medir os níveis de indecisão, o que levou a que só fossem utilizados os 16 itens que correspondessem a esta dimensão. Estes apresentam um formato de resposta de tipo Likert (1: nada parecido comigo; 4: exatamente como eu), sendo as pontuações mais elevadas indicadoras de maiores níveis de indecisão. As boas propriedades psicométricas desta escala têm sido corroboradas noutros estudos, sendo que os valores de consistência interna variam entre 0.86 e 0.88. no caso da versão portuguesa (Gamboa et al., 2014; Paixão & Gamboa, 2017; Silva, 1997).

Procedimentos analíticos

Todas as análises estatísticas foram realizadas com recurso ao IBM SPSS Statistics, versão 28.0. Inicialmente, foram realizadas análises de correlação bivariada entre as variáveis em estudo, com o objetivo de detetar padrões de associação. Para a identificação dos perfis, foram realizadas análises de agrupamentos em dois passos (Hair et al., 2010; Hofmans et al., 2020). No primeiro passo, procedemos à elaboração de agrupamentos através do método de Ward, com base nas quatro variáveis motivacionais (hierárquicas), utilizando como medida de similaridade a distância euclidiana. A determinação preliminar do número ótimo de clusters baseou-se na inspeção do dendrograma e do esquema de aglomeração, privilegiando soluções entre dois e cinco agrupamentos. No segundo passo, todas as variáveis foram estandardizadas (z-scores) (M = 0; DP = 1) para garantir contributos equivalentes e foram analisadas k-means dos clusters para assegurar perfis suficientemente distintos entre si, procurando garantir: 1) o equilíbrio no tamanho relativo dos clusters; 2) a existência de diferenças significativas entre agrupamentos; e 3) a utilização do Cubic Clustering Criterion para a otimização da solução. A combinação destes critérios conduziu a uma solução final de três clusters motivacionais. Seguidamente, foram realizadas análises de variância multivariada unidirecional (Manova) para comparar os clusters quanto às variáveis motivacionais. Por fim, com base em análises preliminares de diferenças entre grupos nas variáveis demográficas, foram feitas análises de covariância multivariada (Mancova), seguidas de testes post-hoc de Tukey para comparações múltiplas de médias entre grupos nas variáveis "critério" (suporte parental, exploração vocacional e indecisão).

Resultados

A tabela 1 apresenta os resultados da análise descritiva e das correlações entre as variáveis em estudo. Verificam-se de correlações significativas entre os tipos de motivação mais próximos no continuum da autodeterminação, isto é, entre regulação externa e introjetada (r = 0.55, p <0.01), entre regulação introjetada e identificada (r = 0.29, p <0.01) e entre regulação identificada e motivação intrínseca (r = 0.62, p <0.01). As variáveis de suporte parental percebido correlacionam de forma positiva e significativa entre si, destacando-se as relações positivas entre estas e a regulação identificada e a motivação intrínseca. Existem igualmente relações positivas entre o suporte parental e a regulação externa (r = 0.13, p <0.05) e introjetada (r = 0.13, p <0.05). É possível observar correlações positivas entre os comportamentos de exploração e a motivação intrínseca. A exploração do meio apresenta associações positivas com as variáveis motivacionais e de suporte parental, exceto com a regulação externa e a persuasão verbal. A exploração do self correlaciona positivamente com as variáveis de motivação e de suporte parental percebido. Também é possível observar relações positivas entre a exploração sistemática e intencional e as variáveis motiva-cionais e de suporte, com exceção da regulação identificada e da persuasão verbal. A quantidade de informação apresenta correlações positivas com a regulação identificada (r = 0.15, p <0.05) e com a motivação intrínseca (r = 0.13, p <0.01). Por fim, a indecisão apresenta valores de sinal positivo nas correlações com a regulação externa (r = 0.23, p <0.01) e introjetada (r = 0.21, p <0.01), bem como associações negativas com a motivação intrínseca (r = -0.13, p <0.05), com a exploração do meio (r = -0.19, p <0.01) e com a quantidade de informação (r = -0.37, p <0.01).

Tabela 1

Média, desvio-padrão, mínimo, máximo, consistência interna e correlações entre todas as variáveis em estudo (N = 260)

Variável M DP 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13
1. Regulação externa 2.63 1.43 (0.94) 0.55** -0.03 -0.05 0.13* 0.08 0.03 0.02 0.08 0.13* 0.18** 0.07 0.23**
2. Regulação introjetada 3.36 1.46 (0.92) 0.29** 0.13* 0.13* 0.11 0.10 0.08 0.17** 0.21** 0.18** 0.04 0.21**
3. Regulação identificada 5.10 1.18 (0.90) 0.62** 0.14* 0.14* 0.23** 0.21** 0.20** 0.22** 0.10 0.15* -0.12
4. Motivação intrínseca 4.68 1.36 (0.91) 0.17** 0.14* 0.22** 0.16* 0.20** 0.22** 0.16** 0.13* -0.13*
5. Suporte emocional 3.54 0.93 (0.86) 0.69** 0.45** 0.69** 0.22** 0.29** 0.19** 0.07 0.06
6. Apoio instrumental 3.26 0.86 (0.80) 0.45** 0.67** 0.25** 0.23** 0.22** 0.10 0.00
7. Modelação de carreira 4.10 0.77 (0.83) 0.43** 0.22** 0.26** 0.26** 0.08 -0.03
8. Persuasão verbal 4.11 0.78 (0.83) 0.11 0.14* 0.08 -0.03 -0.09
9. Exploração do meio 2.79 0.99 (0.79) 0.37** 0.49** 0.50** -0.19**
10. Exploração do self 3.20 0.86 (0.71) 0.29** 0.24** 0.10
11. Exploração sistemática e intencional 2.53 0.96 (0.67) 0.42** -0.03
12. Quantidade de informação 3.16 0.83 (0.74) -0.37**
13. Indecisão 2.19 0.59 (0.87)

[i]* p <0.05; ** p <0.01. A consistência interna para cada variável é apresentada dentro de parênteses.

O resultado da Manova unifatorial revelou um efeito significativo da divisão dos participantes em três grupos (Roy's Largest Root = 2.54, F(4, 255) = 162.13, p <0.001, if =0.72), confirmando diferenças nas variáveis motivacionais que fundamentaram a criação dos grupos.

A tabela 2 apresenta a média e os valores de desvio-padrão, bem como a distribuição demográfica das variáveis nos três agrupamentos. Também são apresentados os resultados das análises de variância que determinam a contribuição das variáveis motivacionais para a diferenciação dos agrupamentos, bem como a sua magnitude de efeito.

Tabela 2

Média, desvio-padrão e valores estandardizados para clusters e variáveis em estudo

Agrupamento 1 (N= 89) Agrupamento 2 (N= 94) Agrupamento 3 (N= 77)
Variável M (DP) z M DP z M DP z F P ii2
Regulação externa 1.41a (0.70) -0.85 3.87b (1.14) 0.87 2.51c (1.07) -0.08 128.91 0.00 0.53
Regulação introjetada 2.37a (1.13) -0.68 4.75b (0.95) 0.95 2.81c (0.93) -0.37 134.23 0.00 0.53
Regulação identificada 5.79a (0.82) 0.59 5.49b (0.85) 0.33 3.83c (0.82) -1.08 128.70 0.00 0.51
Motivação intrínseca 5.53a (1.02) 0.63 4.97b (1.09) 0.22 3.32c (0.93) -0.99 101.08 00.00 00.45
Suporte emocional 3.56a (0.94) 0.02 3.70ab (0.89) 0.18 3.32ac (0.91) -0.24 3.78 0.03 0.03
Apoio instrumental 3.34a (0.92) 0.10 3.39ab (0.80) 0.16 3.00c (0.80) -0.30 5.16 0.01 0.04
Modelação de carreira 4.16a (0.75) 0.07 4.21* (0.80) 0.14 3.91ac (0.74) -0.25 3.56 0.03 0.03
Persuasão verbal 4.22a (0.79) 0.15 4.21ab (0.77) 0.13 3.85c (0.71) -0.34 6.12 0.00 0.05
Exploração do meio 2.81a (0.97) 0.03 3.00ab (1.01) 0.21 2.50ac (0.93) -0.29 5.51 0.00 0.04
Exploração do self 3.16a (0.83) -0.05 3.42ab (0.85) 0.26 2.99ac (0.84) -0.25 6.36 0.02 0.04
Exploração sistemática e intencional 2.42 (1.00) -0.11 2.72 (0.99) 0.21 2.42 (0.84) -0.12 2.59n. s. 0.05 0.02
Quantidade de informação 3.27 (0.82) 0.13 3.19 (0.79) 0.03 3.00 (0.88) -0.20 3.47n. s. 0.11 0.02
Indecisão 1.98a (0.56) -0.35 2.33b (0.64) 0.23 2.26bc (0.49) 0.13 9.35 0.00 0.07
Idade 15.75a (0.87) 15.97b (0.99) 16.09ab (1.04) 9.95 0.00 0.07
Género 2.62n. s. 0.08 0.02
Masculino (N; %) 24; 27 % 53; 56 % 41; 53 %
Feminino (N; %) 65; 73 % 41; 44 % 36; 47 %

[i]Nota: Agrupamento 1 (autodeterminados). Agrupamento 2 (externamente regulados). Agrupamento 3 (não autodeterminados). As médias que apresentam diferenças significativas entre si (p <0.05 post hoc Tukey) apresentam diferentes letras (por exemplo, a, b, c). n. s. = não significativo

As variáveis que mais contribuíram para a distinção entre grupos foram a regulação externa, F(2, 255) = 142.89, p <0.01, if = 0.53, seguida da regulação introjetada, F(2, 255) = 142.93, p <0.01, η2 = 0.53, e da regulação identificada, F(2, 255) = 131.25, p <0.01, if = 0.51. A motivação intrínseca foi a variável que apresentou uma menor magnitude de efeito, F(2, 255) = 103.44, p <0.01, η2 = 0.45.

O Agrupamento 1 (N = 89) foi designado como o dos alunos "autodeterminados", uma vez que apresenta uma predominância dos tipos autónomos de motivação sobre as formas mais externas de regulação. Caracteriza-se pelos valores mais baixos de regulação externa (-0.85) e introjetada (-0.68) e pelos níveis mais elevados de regulação identificada (0.59) e motivação intrínseca (0.63). O Agrupamento 2 (N = 94) obteve a denominação de "externamente regulados", uma vez que, apesar de apresentar níveis de motivação acima do ponto médio para todas as dimensões, as formas mais externas de motivação assumem particular protagonismo. Especificamente, apresenta os valores mais elevados de regulação externa (0.87) e introjetada (0.95) e valores acima do ponto médio de regulação identificada (0.33) e motivação intrínseca (0.22). O Agrupamento 3 (N = 77) foi denominado "não autodeterminados", pelo facto de não apresentar valores favoráveis de motivação em nenhuma dimensão, sendo estes os mais baixos para a regulação identificada (-1.08) e motivação intrínseca (-0.99) e também abaixo do ponto médio para a regulação externa (-0.08) e regulação introjetada (-0.38).

Seguidamente, as diferenças entre os agrupamentos nas variáveis "critério" foram analisadas via Mancova, com o sexo como covariável, por ter sido a única variável demográfica a apresentar diferenças entre grupos, F(2, 260) = 9.95, p <0.01, η2= 0.07. É possível observar diferenças significativas entre os agrupamentos no suporte emocional F(2, 260) = 3.78, p <0.05, if = 0.03, apoio instrumental F(2, 260) = 5.16, p <0.05, η2 = 0.04; modelação de carreira F(2, 255) = 3.56, p <0.05, η2 = 0.03; e persuasão verbal F(2, 260) = 6.12, p <0.01, η2 = 0.05. Relativamente às variáveis vocacionais, também se observam diferenças na exploração do meio F(2, 260) = 5.51, p <0.00, η2= 0.04; na exploração do self; F(2, 260) = 6.36, p <0.05, η2 = 0.04; e na indecisão F(2, 260) = 9.35, p <0.00, η2= 0.07.

A figura 1 apresenta os perfis dos agrupamentos, baseados nos seus z-scores. O grupo de alunos "autodeterminados" apresenta valores ligeiramente acima do ponto médio para suporte emocional (0.02), apoio instrumental (0.01), modelação de carreira (0.07), persuasão verbal (0.15), exploração do meio (0.03) e quantidade de informação (0.13). Além disso, revela valores negativos na exploração do self (-0.05) e na exploração sistemática e intencional (-0.11) e o valor mais baixo de indecisão de carreira (-0.35). O agrupamento dos "externamente regulados" revelou os níveis mais elevados para suporte emocional (0.18), apoio instrumental (0.16), modelação de carreira (0.14) e valores acima do ponto médio para a persuasão verbal (0.13), bem como os valores mais elevados de indecisão (0.23). Por último, o grupo de alunos "não autodeterminados" apresenta os valores mais baixos de suporte emocional (-0.24), apoio instrumental (-0.3), modelação de carreira (-0.25), persuasão verbal (-0.34), exploração do meio (-0.29), exploração do sef(-0.25), exploração sistemática e intencional (-0.12) e quantidade de informação (-0.2). Adicionalmente, revela valores acima do ponto médio para a indecisão de carreira (0.13).

Figura 1

Perfil de resultados dos três agrupamentos em estudo (z-scores)

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Na tabela 2, podemos observar diferenças entre o grupo de alunos "autodeterminados" e "não autodeterminados" para todas as variáveis, exceto suporte emocional, modelação de carreira, exploração do meio e exploração do self. Entre o grupo dos autodeterminados e o dos externamente regulados, as diferenças apresentam-se nas variáveis: regulação externa, introjetada, identificada, motivação intrínseca e indecisão. Finalmente, na comparação entre o grupo de não autodeterminados e externamente regulados, registam-se diferenças em todas as variáveis, com exceção da indecisão. Através de análises discriminantes, concluiu-se que a variável que melhor diferenciou os grupos foi a indecisão (Wilks's Λ = 0.93, p <0.01). Foram reveladas duas funções estatisticamente significativas, que explicaram, respetivamente, 50.2 % e 49.8 % da variabilidade discriminante entre grupos: Wilks's Λ=0.83, x2(18) = 48.34, p <0.01, e Wilks's A = 0.91, x.2(8) = 24.06, p <0.01.

Discussão

O presente estudo organizou-se em dois objetivos. Em primeiro lugar, a identificação de perfis motivacionais, com base na SDT (Ryan & Deci, 2019), numa amostra de alunos de ensino secundário. Seguidamente, a análise das diferenças entre esses agrupamentos, no que respeita ao suporte parental percebido, à exploração vocacional e à indecisão de carreira.

De acordo com a expectativa teórica, a análise de clusters organizou e distinguiu três perfis conceptualmente relevantes. Dois desses perfis apresentaram níveis relativos às variáveis "critério" que permitem conceptualizá-los como opostos, a saber: autodeterminados e não autodeterminados. De facto, outros estudos realizados em torno das mesmas dimensões motivacionais encontraram um perfil com níveis acima do ponto médio para a motivação intrínseca e para a regulação identificada em conjunto com níveis negativos dos tipos de regulação mais controlada e, por sua vez, um perfil de alunos com valores negativos em todas as dimensões da motivação analisadas (e. g.,Ahn et al., 2025; Mbanga et al., 2024; Paixão & Gamboa, 2017). A forma como se diferenciam no que respeita às variáveis "critério" levou-nos a considerar que o grupo de alunos autodeterminados poderá apresentar comportamentos vocacionais mais favoráveis, sobretudo se considerarmos que estes percebem um maior suporte parental em relação à carreira, apresentam maiores níveis de quantidade de informação recolhida e a menor indecisão vocacional dos três agrupamentos. Estes resultados surgem alinhados a outros estudos que nos remetem a associações positivas entre motivação autónoma e maior envolvimento no processo de exploração (e. g.,Bartley & Robitscheck, 2000; Blustein, 1988; Paixão & Gamboa, 2017, 2022) e a menores níveis de indecisão de carreira (e. g.,Guay, 2005; Paixão & Gamboa, 2017, 2022). Para além destes aspetos, no que diz respeito à conceptualização destes dois agrupamentos de alunos, os resultados corroboram as hipóteses avançadas relativamente às relações positivas entre o suporte de autonomia e a perceção de maior suporte parental com os comportamentos de exploração e com maior envolvimento no processo de tomada de decisão de carreira (e. g.,Estreia et al., 2018; Palos & Drobot, 2010; Rodrigues et al., 2017; Turner et al., 2003). Por contraste, os alunos não autodeterminados apresentam resultados pouco favoráveis em termos vocacionais. Especificamente, percebem baixos níveis de suporte à carreira, demonstram baixo envolvimento na exploração e elevados níveis de indecisão. De facto, a dificuldade que estes alunos tendem a apresentar no processo de internalização das tarefas de exploração, bem como o facto de serem mais permeáveis à influência das contingências externas (por exemplo, sugestões dos pais, dos professores, de colegas), torna-os mais suscetíveis de apresentar maiores dificuldades na tomada de decisão de carreira (e. g.,Blustein, 1988; Guay, 2005; Ryan & Deci, 2019).

À semelhança de outros estudos (e. g.,Duchesne et al., 2012; Paixão & Gamboa, 2017), também observámos um perfil de alunos com níveis de motivação intermédios, ou seja, que não se situam num dos extremos do continuum da autodeterminação e que merecem uma análise de cariz mais exploratório. Os "externamente regulados" revelam níveis acima do ponto médio em todas as dimensões motivacionais, mas com uma grande predominância da regulação externa e da introjetada. Por comparação com os "autodeterminados", apresentam valores mais expressivos no que se refere à perceção de suporte parental aos comportamentos de exploração; contudo, os seus níveis de indecisão são pouco favoráveis. A presença deste grupo corrobora a ideia de que: 1) em contextos educativos, é possível observar a coexistência de níveis elevados de motivação intrínseca e das formas de regulação mais externas num mesmo indivíduo (Duchesne et al., 2012; Ratelle et al., 2007; Vansteenkiste et al., 2009); e 2) a quantidade de motivação nem sempre surge associada a resultados adaptativos, sobretudo se for de tipo controlada (Germeijs et al., 2012; Ryan & Deci, 2019). Para além disso, estas diferenças sugerem uma associação entre motivação controlada e maior sensibilidade ao suporte parental, nas suas diferentes dimensões.

Porém, ainda que os motivos externos possam conduzir à manifestação de comportamentos de carreira necessários, os resultados que daí derivam poderão não ser positivos a médio e longo prazo (Ahn et al., 2025). Assim, é possível encontrarmos alunos que, apesar de investirem bastante em comportamentos de exploração, poderão realizar escolhas menos refletidas e pouco alinhadas ao seu self (Germeijs et al., 2012). Por sua vez, tendo em conta que a qualidade da motivação representa o modo como o indivíduo aplica esforço e intencionalidade nas tarefas que desempenha (Ryan & Deci, 2019), podemos inferir que analisar as razões subjacentes ao envolvimento nos processos vocacionais poderá significar um contributo importante para o estudo dos comportamentos e resultados de carreira (Blustein & Flum, 1999; Flum & Blustein, 2000; Guay, 2005; Paixão, 2008).

No geral, estes resultados reforçam a necessidade de considerarmos a motivação não como um antecedente ou resultado, mas sim como um processo regulador transversal às tarefas educativas e vocacionais (Ahn et al., 2025; Lent et al., 2016; Vansteenkiste et al., 2023).

Implicações

O presente estudo procura contribuir para o desenvolvimento de abordagens ao estudo da carreira que considerem as razões subjacentes ao envolvimento, uma vez que, através de uma abordagem centrada nos indivíduos, procuramos contemplar o construto de motivação do ponto de vista da sua qualidade (processo), em detrimento da sua faceta quantitativa (estado), e analisando as diferenças significativas no funcionamento motivational entre grupos (Flum & Blustein, 2000; Paixão, 2008). A relação entre a motivação e os constructos de carreira aqui abordados parece sustentar-se sobretudo pela análise da qualidade da motivação, que reflete a eficiência da internalização das tarefas vocacionais por parte do indivíduo e, consequentemente, a sua autodeterminação (Reeve, 2009; Vansteenkiste et al., 2009). Para além disso, a associação destes perfis de motivação a distintos níveis de perceção do suporte parental reforça a expectativa teórica de que a qualidade do apoio dos contextos proximais poderá assumir um papel determinante na satisfação das necessidades psicológicas básicas do indivíduo e na regulação do seu comportamento vocacional (Gagnon et al., 2019; Vansteenkiste et al., 2023).

Consistentes com a literatura, os resultados deste estudo demonstram que a utilização de uma abordagem centrada nos indivíduos permite organizar os alunos de acordo com o seu funcionamento motivacional e aprofundar a discussão em torno das diferenças individuais nas perceções e nos comportamentos e resultados vocacionais. Isto não sugere necessariamente que esta abordagem substitua outras que estejam centradas nas variáveis, mas sim que estas deverão complementar-se, de modo a providenciar uma maior robustez aos resultados e riqueza na análise destes (Meyer & Morin, 2016; Morin et al., 2018).

A discussão dos resultados deste estudo fornece pistas à conceptualização e preparação das intervenções vocacionais (particularmente relevante para os SPO), particularmente as que visam ao envolvimento dos contextos relacionais do indivíduo, no sentido de promover a autonomia para a tomada de decisão de carreira e os comportamentos de exploração vocacional (Flum & Blustein, 2000; Gamboa et al., 2014). A possibilidade de organizar e analisar perfis motivacionais remete à importância da realização de práticas de orientação diferenciadas, sobretudo se considerarmos que a frequência do ensino secundário consiste num dos mais importantes períodos de transição vocacional (Ahn et al., 2025; Lent et al., 2016). Deste modo, a intervenção junto dos alunos autodeterminados poderá ser mais eficiente se privilegiar um tipo de suporte de autonomia, fornecendo novas oportunidades de aprendizagem, nomeadamente através do contacto com contextos reais de trabalho, no sentido de promover a exploração do meio e apoiar a sistematização da informação recolhida. Garantir este tipo de suporte viabiliza o trabalho do psicólogo no apoio à reflexão e à construção de uma narrativa de carreira que remeta ao sentimento de autoria do indivíduo (Ahn et al., 2025; Duchesne et al., 2025; Flum & Blustein, 2000; Jiang et al., 2019).

Por sua vez, o suporte de controlo parece ser o que melhor se ajusta ao funcionamento dos alunos não autodeterminados. Neste caso, será necessário insistir no envolvimento dos pais nas questões de carreira dos filhos, sobretudo no sentido de valorizarem os seus sentimentos e perspetivas futuras. Isto permitirá melhorar a perceção de suporte parental do aluno, especialmente em dimensões consideradas como significativas para a promoção dos comportamentos de exploração: suporte emocional, modelação de carreira e persuasão verbal (Dietrich & Kracke, 2009; Dietrich et al., 2011; Estreia et al., 2018; Palos & Drobot, 2010; Rodrigues et al., 2017). O trabalho do psicólogo deverá ainda remeter à estruturação do processo de exploração, através da segmentação das tarefas, especificação de objetivos e fornecimento de instruções relevantes sobre como explorar, processar e utilizar a informação recolhida (Blustein & Flum, 1999; Duchesne et al., 2012).

Por fim, as intervenções direcionadas para os alunos externamente regulados encontram desafios específicos, dado que eles apresentam elevados níveis de motivação à luz do continuum da autodeterminação, bem como um investimento considerável nos comportamentos de exploração, porém sobrepõem-se às formas mais externas de motivação subjacente a este processo. De facto, alguns autores afirmam ser possível promover a realização de tarefas e o envolvimento em atividades através de pressões externas, mas que estas poderão interferir com a qualidade dos resultados e com a promoção de comportamentos autorregulados ao longo do tempo (e. g.,Adams et al., 2017; Reeve, 2009; Ryan & Deci, 2019). Assim, estes alunos poderão se beneficiar de estratégias de suporte combinado que promovam o seu sentimento de autonomia, tais como o envolvimento em atividades de discussão grupal e a atribuição de tarefas desafiantes relacionadas ao mundo ocupacional (Haerens et al., 2018). Para além disso, a atribuição de exercícios escritos sobre as atividades realizadas poderá resultar no reforço de competências do indivíduo e na aquisição de novas aptidões necessárias ao desenvolvimento vocacional (por exemplo, introspeção e avaliação do autoconceito). De acordo com Blustein e Flum (1999), a participação em atividades de exploração poderá significar, em si, uma ferramenta de apoio à integração dos valores das tarefas vocacionais no self Contudo, será necessário garantir um suporte parental de qualidade, que se afaste de práticas controladoras como a atribuição de recompensas ou castigos, a imposição de pressões relativamente às escolhas ou que possam despoletar emoções negativas associadas às tarefas vocacionais (Ahn et al., 2025). Da parte do psicólogo, será importante fornecer feedback individualizado que dê conta da progressão na tomada de decisão, promovendo o aumento gradual da autoeficácia, autonomia e autoria no desenvolvimento de carreira (Flum & Blustein, 2000; Lent et al., 2016). Por consequência, serão criadas condições facilitadoras da internalização, transitando progressivamente para comportamentos mais autodeterminados no processo de tomada de decisão de carreira (Deci et al., 2013; Guay, 2005).

Limitações e futura investigação

O facto de as abordagens centradas nos indivíduos serem muito dependentes do tamanho da amostra leva-nos a considerar que o número de alunos deste estudo poderá não ser suficientemente expressivo para generalizar a solução de perfis encontrados a outras populações. Deste modo, ainda que a amostra seja socioculturalmente diversificada e reflita a heterogeneidade típica do sistema educativo público do país, recomendamos que futuros estudos que utilizem esta abordagem garantam um maior número de participantes e incluam o controlo de outras variáveis educativas potencialmente relevantes para os percursos de carreira (e. g., frequência do ensino privado, vias profissionais). Para além disso, dado o papel moderador que os iuances en Psicología La contextos de suporte proximal podem assumir no desenvolvimento vocacional, poderá ser relevante analisar de forma mais aprofundada outros fatores que influenciam a probabilidade de o estudante aceder a oportunidades de exploração vocacional de qualidade, como o nível socioeconómico ou a frequência de programas de orientação promovidos pelos SPO.

A utilização deste tipo de abordagem metodológica abre a discussão sobre as estratégias a adotar em contexto de intervenção e sobre que variáveis deverão incidir as intervenções. Contudo, a sua natureza não permite encontrar respostas suficientemente abrangentes para esta finalidade. Assim, recorrendo a sugestões que remetem à complementaridade entre diferentes abordagens e metodologias (Morin et al., 2018), consideramos que serão necessários: 1) estudos complementares com recurso a abordagens centradas nas variáveis que possam aprofundar as relações causais entre variáveis motivacionais, de suporte contextual proximal e variáveis de carreira; 2) estudos longitudinais com abordagens centradas nos indivíduos, que procurem verificar a estabilidade temporal da solução de clusters apresentada; e 3) estudos experimentais que procurem aferir o impacto dos conjuntos de estratégias apresentados nos comportamentos e resultados vocacionais dos respetivos perfis de alunos.

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