Violência no namoro, sexismo e papéis de gênero: uma revisão sistemática


DOI: https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.12066




Resumo

A violência no namoro entre adolescentes (VNA) representa uma experiência adversa com potenciais prejuízos para o desenvolvimento biopsicossocial e está associada a diferentes fatores de risco. O objetivo principal desta revisão sistemática foi analisar estudos empíricos sobre VNA, sexismo e crenças sobre papéis de gênero. As bases de dados consultadas para esta revisão foram: SciELO, Lilacs, PsycINFO, Scopus e Web of Science. A amostra final foi composta por 31 artigos publicados entre 2000 e 2024. Realizou-se um levantamento dos principais aspectos metodológicos, objetivos e resultados, bem como análise temática das seções de discussão dos artigos. Entre os principais resultados, destacam-se a associação positiva e significativa entre sexismo, concordância com papéis tradicionais de gênero e VNA. Contudo, observa-se que a maior parte dos estudos conta com amostras de adolescentes do Norte global, segue uma lógica binária e cis-heteronormativa, e não inclui aspectos como raça e características socioeconômicas.

Palavras-chave:

violência no namoro, sexismo, papéis de gênero, adolescência


Resumen

La violencia en el noviazgo entre adolescentes (VNA) representa una experiencia adversa con posibles daños para el desarrollo biopsicosocial y está asociada a diferentes factores de riesgo. El objetivo principal de esta revisión sistemática fue analizar estudios empíricos sobre la VNA, el sexismo y las creencias sobre los roles de género. Las bases de datos consultadas para esta revisión fueron: SciELO, Lilacs, PsycINFO, Scopus y Web of Science. La muestra final estuvo compuesta por 31 artículos publicados entre 2000 y 2024. Se realizó una recopilación de los principales aspectos metodológicos, objetivos y resultados, así como un análisis temático de las secciones de discusión de los artículos. Entre los principales resultados, destaca la asociación positiva y significativa entre el sexismo, la concordancia con los roles de género tradicionales y la VNA. Sin embargo, se observa que la mayoría de los estudios cuentan con muestras de adolescentes del Norte global, siguen una lógica binaria y cisheteronormativa, y no incluyen aspectos como la raza y las características socioeconómicas.

Palabras clave:

violencia en el noviazgo, sexismo, roles de género, adolescencia


Abstract

Teen dating violence (TDV) represents an adverse experience with potential harm to biopsychosocial developmental and is associated with various risk factors. The main objective of this systematic review was to analyze empirical studies on TDV, sexism and beliefs about gender roles. The databases consulted for this review were: SciELO, Lilacs, PsycINFO, Scopus, and Web of Science. The final sample consisted of 31 articles published between 2000 and 2024. The main methodological aspects, objectives, and results were surveyed, along with a thematic analysis of the discussion sections of the articles. Among the key findings, a significant positive association was identified between sexism, endorsement of traditional gender roles, and TDV. However, most studies included adolescents from the Global North, followed a binary and cis-heteronormative logic, and did not consider aspects such as race and socioeconomic characteristics.

Keywords:

dating violence, sexism, gender roles, adolescence


A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende a adolescência como o período entre os 10 e os 19 anos de idade. Essa etapa do desenvolvimento é caracterizada por um rápido crescimento físico, mudanças hormonais, desenvolvimento sexual, maior complexidade das emoções, aumento das capacidades cognitivas e intelectuais, desenvolvimento moral e mudanças nas relações com os pares, com a família e com a sociedade de modo geral (WHO, 2024). A adolescência é entendida como um processo de desenvolvimento plural, dinâmico e relacional (Mauch et al., 2022), de modo que fatores como cultura, nacionalidade, gênero, renda, acesso à educação, contexto familiar e condições de moradia influenciam a maneira como esse período desenvolvimental é vivenciado (WHO, 2024). Trata-se, portanto, de um fenômeno biopsicossocial.

Um importante aspecto da adolescência refere-se à constituição e ao reconhecimento da identidade. Nesse processo de subjetivação, o gênero desempenha um papel central, devido à sua influência na expressão de preferências, na construção da aparência, na autoimagem, na autoeficácia e nos relacionamentos interpessoais (Ruble et al., 2006). A identidade pessoal se constitui a partir de uma complexa relação com sistemas interligados de poder, tais como patriarcado, racismo e cis-heteronorma, os quais moldam as experiências individuais e relacionais dos adolescentes (Velez & Spencer, 2018). Entre as experiências relacionais, destacam-se as explorações amorosas e sexuais (Cerqueira-Santos et al., 2014). Entretanto, a literatura científica tem indicado alta prevalência de comportamentos violentos nas relações íntimas entre adolescentes que impactam significativamente seu desenvolvimento (Ribeiro et al., 2024; Wincentak et al., 2017). A violência resulta da interação entre múltiplas circunstâncias individuais, relacionais, comunitárias e sociais (OMS, 2010) e, quando ocorre entre dois adolescentes que foram ou estão relacionados intimamente, é denominada "violência no namoro" (Sánchez-Jiménez et al., 2018).

A violência no namoro na adolescência (VNA) é um importante problema de saúde pública, presente de maneira pervasiva em diferentes contextos culturais (Ribeiro et al., 2024). É considerada uma expressão da violência de gênero, que pode se manifestar a partir de agressões físicas, sexuais e psicológicas, além de comportamentos de stalking (CDC, 2024). Essas agressões podem ser perpetradas também no contexto virtual, por meio do controle das redes sociais da pessoa parceira, do envio incessante e indesejado de mensagens de texto e/ou ligações, da divulgação de fotos íntimas e/ou conversas de teor sexual sem o consentimento da vítima, entre outros exemplos.

No que diz respeito ao gênero e à orientação sexual dos perpetradores e das vítimas, existem resultados conflitantes na literatura. Alguns estudos apontam que adolescentes do gênero feminino, adolescentes que se identificam como lésbicas, gays, bissexuais e/ou trans (LGBTQ) apresentam taxas mais altas de vitimização em comparação com adolescentes que se identificam como meninos e como heterossexuais (Arnoud et al., 2024; CDC, 2024; Edwards et al., 2015). Outros estudos encontram diferenças no que se refere às tipologias, indicando que meninas tendem a perpetrar mais violência física e meninos, mais violência sexual. Entretanto, os resultados apontam diferenças nos níveis de danos e na intensidade das agressões perpetradas por meninas, que tendem a ser mais brandas (Eisner, 2021; Wincentak et al., 2017).

A experiência de sofrer VNA pode acarretar uma série de desfechos negativos para a saúde e desenvolvimento dos adolescentes (CDC, 2024; Ouytsel et al., 2017). Os desfechos podem surgir em curto, médio e longo prazo, e impactar não somente a vítima, mas também o/a adolescente perpetrador/a de violência. A literatura indica consequências como sintomatologia de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, baixa autoestima, abuso de substâncias, ideação e risco de suicídio, baixo desempenho escolar e comportamento sexual de risco (CDC, 2024; Taquette & Monteiro, 2019; Turanovic, 2022). Essas consequências podem ser ainda mais severas para grupos minorizados socialmente, como adolescentes não cis-heterossexuais (Edwards et al., 2015).

A literatura indica alguns fatores associados ao fenômeno: exposição e/ou testemunho à violência intrafamiliar e entre pares, ciúmes, desigualdades sociais, desigualdades de gênero, concordância com crenças sexistas, papéis de gênero estereotipados, mitos sobre o amor romântico, baixa autoestima e crenças culturais de aceitação e de justificativa da violência (Arnoud et al., 2024; Parzniewski et al., 2025). Desse modo, a compreensão da VNA não pode restringir-se a aspectos individuais ou relacionais, requerendo análise de desigualdades estruturais de poder baseadas em gênero e suas intersecções com outras categorias sociais.

Uma expressão da desigualdade de gênero é o sexismo, caracterizado como uma discriminação direcionada a mulheres e pessoas que não se conformam às normas de gênero tradicionais e estereotipadas (Bareket & Fiske, 2023). Inicialmente, o sexismo foi conceitualizado como um conjunto de crenças puramente negativas em relação às mulheres. Entretanto, com o desenvolvimento da teoria do sexismo ambivalente (SA; Glick & Fiske, 1996), passou a ser compreendido como um construto composto por duas dimensões: hostil e benevolente. O sexismo hostil (SH) diz respeito às crenças mais explícitas referentes à inferioridade das mulheres em relação aos homens, enquanto o sexismo benevolente (SB) é a expressão mais sutil do sexismo, muitas vezes entendida como algo "benéfico" para as mulheres (Glick & Fiske, 1996; Mastari et al., 2019). O SH reflete a percepção de mulheres enquanto rivais que tentam dominar e controlar os homens -por meio da sexualidade, de seus posicionamentos e escolhas profissionais. Já o SB reflete crenças estereotipadas de gênero, mas as manifesta a partir de um tom supostamente positivo, tais como a docilidade e fragilidade feminina que requerem proteção masculina. Essa forma de sexismo idealiza relações heterossexuais e reforça mitos sobre o amor romântico a partir da noção de que homens e mulheres possuem diferenças que são complementares entre si (Bareket & Fiske, 2023). Ambas as expressões do sexismo incentivam formas restritivas e hete-ronormativas de se relacionar, reforçam papéis de gênero tradicionais e estereotipados, e contribuem para a legitimação da violência contra mulheres e pessoas de identidades de gênero dissidentes (Bareket & Fiske, 2023).

Os papéis de gênero refletem crenças sobre padrões de comportamentos esperados na sociedade a partir de uma visão binária e ocidental (Wilkinson et al., 2018) e associam-se ao sexismo. Papéis estereotipados de gênero envolvem a compreensão dos meninos e dos homens como autoritários, agressivos e distanciados de sentimentos de vulnerabilidade. Das meninas e das mulheres, por sua vez, espera-se uma postura de subordinação e obediência (Connell et al., 2013). Os papéis de gênero estereotipados estão associados à maior perpetração de VNA e outras expressões de agressividade (Anand et al., 2019; Haglund et al., 2018). A aderência aos papéis estereotipados de gênero, bem como as crenças de SA fazem parte do nível micro do sexismo estrutural (SE). Este refere-se à noção de que existe uma desigualdade estrutural de gênero que reflete dinâmicas de poder num determinado contexto social (Homan, 2024). Com base em teorias contemporâneas de gênero que compreendem o sistema social a partir de múltiplos níveis de interação, entende-se que o SE pode ser identificado em nível macro, em instituições políticas, sociais e culturais, assim como em níveis micro, nas identidades, crenças e atitudes dos indivíduos. Uma compreensão mais aprofundada de como o sexismo e a aderência aos papéis tradicionais e estereotipados de gênero influenciam a VNA pode contribuir para o delineamento de políticas sociais de prevenção e proteção das adolescências. Partindo da seguinte pergunta de pesquisa: "Como o sexismo e as crenças relacionadas a papéis de gênero se relacionam com a violência no namoro na adolescência?" Esta revisão sistemática da literatura tem como objetivo principal avaliar evidências empíricas sobre relações entre VNA, sexismo e crenças sobre papéis de gênero.

Método

Esta revisão sistemática da literatura se propõe a responder à seguinte pergunta de pesquisa: "Como o sexismo e as crenças relacionadas a papéis de gênero se relacionam com a violência no namoro na adolescência?" Não houve pré-registro da revisão. O levantamento da bibliografia foi realizado a partir de buscas de artigos nas seguintes bases de dados: SciELO, Lilacs, PsycINFO, Scopus e Web of Science. Nas buscas, foram utilizados os seguintes descritores indexados e validados pela Biblioteca Virtual da Saúde (BVS): "dating violence" OR "gender based violence" OR "intimate partner violence" AND "sexism" OR "gender-role beliefs" AND "adolescents" OR "adolescence", com restrição dos termos a títulos, resumos e palavras-chave. As buscas também foram realizadas com os descritores correspondentes em português e espanhol. O protocolo referente às estratégias de busca e à análise foi estruturado antes da realização da revisão.

Os critérios de inclusão dos artigos foram: a) artigos empíricos; b) publicados em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; c) com participantes pertencentes à faixa etária da adolescência (de 10 a 19 anos); d) que apresentassem pelo menos duas das variáveis investigadas, sendo uma delas VNA. Foram excluídas demais produções acadêmicas como monografias, dissertações, teses, resenhas e artigos de revisão de literatura, de modo a inserir apenas artigos científicos e empíricos publicados em revistas científicas.

O presente estudo foi realizado por uma equipe composta por quatro pesquisadoras com experiência na condução de revisões sistemáticas. As buscas dos artigos nas bases de dados foram feitas por duas pesquisadoras independentes em abril de 2025. Nos casos de discordância ou dúvida, uma juíza especialista no tema e em revisões sistemáticas esteve disponível para oferecer auxílio. Assim, pelo menos duas revisoras selecionaram a amostra dos estudos elegíveis a compor a revisão, sendo que estas apresentaram uma concordância maior que 85 % em relação aos artigos. Os restantes foram decididos a partir de discussão com a juíza independente.

A busca incluiu artigos publicados desde o ano 2000 até o ano de 2024. Após a leitura na íntegra de todos os artigos selecionados, fez-se um levantamento dos objetivos, dos principais aspectos metodológicos e dos resultados encontrados nos artigos selecionados. A avaliação da qualidade dos estudos utilizou oMixedMethods Appraisal Tool (Hong et al., 2018). Com base nos itens do instrumento, gerou-se uma classificação final da qualidade que variou entre "nada satisfatória", "pouco satisfatória", "satisfatória" e "muito satisfatória". Verificou-se que a maioria dos estudos foi classificada como muito satisfatória (58,1 %; n = 18). Os aspectos metodológicos menos atendidos ou apenas parcialmente contemplados referem-se principalmente às estratégias amostrais. Predominou o uso de amostragens por conveniência, sem detalhamento das características sociodemográficas dos adolescentes participantes, além do gênero. Assim, tornou-se difícil compreender se as amostras utilizadas podiam ser consideradas representativas ou não. Estabeleceu-se que artigos com qualidade metodológica considerada nada satisfatória seriam excluídos; contudo, nenhum estudo se enquadrou nessa categoria. Em seguida, foram realizadas análises temáticas, conforme o proposto por Braun e Clarke (2006), a fim de identificar os principais eixos de discussão e de interpretação das evidências empíricas que compuseram o corpo de análise.

Resultados

A amostra final foi composta por 31 estudos, dos quais a maioria (74.2 %; n = 23) foi publicada nos últimos cinco anos (2019-2024) e conduzida por pesquisadores da Espanha (71 %; n = 22; Anacona et al., 2017; Arbinaga et al., 2021; Arrojo et al., 2024; Ayala et al., 2021; Cava et al., 2020; Cuadrado-Gordillo et al., 2023; Dosil et al., 2019; Dosil et al., 2020; Dosil et al., 2022; Fernández-Antelo et al., 2020; Jaureguizar et al., 2024; Madrona-Bonastre et al., 2023; Marcos et al., 2020; Marcos et al., 2023; Nardi-Rodríguez et al., 2022; Navarro-Pérez et al., 2020; Romero et al., 2010; Sola & Ayala, 2022; Valdivia-Salas et al., 2023; Velasco et al., 2022; Villanueva-Blasco et al., 2024; Vives-Cases et al., 2021), seguido pelos Estados Unidos (16 %; n = 5; Lee, 2024; Makin-Byrd & Azar, 2011; Savasuk-Luxton et al., 2018; Ulloa et al., 2004; Ulloa et al., 2008). Os demais estudos (12.9 %; n = 4) foram publicados por autores de instituições do México (Sosa-Rubi et al., 2017), da Itália (Morelli et al., 2024), do Brasil (Arnoud et al., 2024) e do Chile (Sanhuenza et al., 2022). A classificação dos estudos por país considerou a afiliação institucional dos autores. Destaca-se que dois artigos realizados nos Estados Unidos foram compostos por amostras de adolescentes latino-americanos (Ulloa et al., 2004; Ulloa et al., 2008) e três estudos tinham amostras multinacionais (Anacona et al., 2017; Ayala et al., 2021; Vives-Cases et al., 2021).

Quanto a características sociodemográficas das amostras, apenas três artigos especificaram raça/ cor (Arnoud et al., 2024; Lee, 2024; Savasuz-Luxtont et al., 2018). No que se refere a indicadores socioeconómicos, dois estudos investigaram renda familiar (Arnoud et al., 2024, Sanhuenza et al., 2022), um investigou a situação laboral familiar e dos participantes (Madrona-Bonastre et al., 2023) e três utilizaram indicadores contextuais, como o perfil socioeconómico das escolas e dos territórios onde foram realizados os estudos (Anacona et al., 2017; Fernandéz-Antelo et al., 2020; Sosa-Rubi et al., 2017). Ainda que a orientação sexual tenha sido citada como um fator importante para compreender a dinâmica da VNA em sete artigos analisados (Arnoud et al., 2024; Arrojo et al., 2024; Madrona-Bonastre et al., 2023; Morelli et al., 2024; Nardi-Rodríguez et al., 2022; Valdivia-Salas et al., 2023; Villanueva-Blasco et al., 2024), a variável foi incluída em apenas quatro estudos (Arnoud et al., 2024; Madrona-Bonastre et al., 2023; Morelli et al., 2024; Nardi-Rodríguez et al., 2022). Dos quatro estudos que não apresentaram o gênero dos participantes a partir de uma compreensão binária (feminino-masculino), dois excluíram participantes não binários ou pertencentes a uma terceira categoria das análises (Arrojo et al., 2024; Ayala et al., 2021).

Figura 1

Fluxograma da amostra

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Fonte: conforme orientado por Cumpston e colaboradores (2023).

Em relação a características metodológicas, 96.8 % (n = 30) dos estudos utilizaram abordagens quantitativas. O delineamento de pesquisa mais empregado foi o transversal (87.1 %; n = 27), seguido de quase experimental (19.4 %; n = 6), longitudinal (9.7 %; n = 3) e experimental (3.2 %; n = 1). O único estudo qualitativo da amostra adotou delineamento descritivo-exploratório (Sanhuenza et al., 2022). Quanto às variáveis de interesse desta revisão, observou-se que 90.3 % (n = 28) dos estudos abordaram sexismo, 22.3 % (n = 7) trataram de papéis de gênero e 12.9 % (n = 4) incluíram ambas as variáveis. O instrumento mais utilizado para investigar VNA foi o Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory (CADRl; 29 %; n = 9), e, para avaliar sexismo, o Ambivalent Sexism Inventory (ASI) de Glick e Fiske (1996; 48.4 %; n = 15). Dos sete estudos que investigaram papéis de gênero, quatro desenvolveram ou adaptaram itens para avaliar essa variável.

Quanto aos resultados, diferentes formas de sexismo associaram-se positiva e significativamente à VNA. Foi observada maior frequência da associação entre SH e perpetração (Anacona et al., 2017; Cava et al., 2020; Dosil et al., 2019; Villanueva-Blasco et al., 2024), e SB e vitimização (Anacona et al., 2017; Cuadrado-Gordillo et al., 2023; Dosil et al., 2019; Fernandéz-Antelo et al., 2020). No estudo de Morelli e colaboradores (2024), o SH foi identificado como moderador entre o uso problemático de pornografia e a perpetração de VNA. Alguns estudos verificaram maiores índices de sexismo (Makin-Byrd & Azar, 2011; Marcos et al., 2020; Sola & Ayala, 2022; Villanueva-Blasco et al., 2024), bem como aceitação de VNA (Sola & Ayala, 2022; Sosa-Rubi et al., 2017; Ulloa et al., 2008) e de papéis estereotipados de gênero (Sosa-Rubi et al., 2017; Ulloa et al., 2008) em meninos. A única pesquisa que incluiu SE constatou que este se associou à experiência de vitimização de forma mais significativa entre meninas (Lee, 2024). Crenças mais estereotipadas sobre papéis de gênero foram identificadas em meninos (Cuadrado-Gordillo et al., 2023; Ulloa et al., 2008). O estudo de Ulloa e colaboradores (2004) identificou que crenças mais igualitárias acerca de papéis de gênero estiveram associadas a atitudes de reprovação de VNA. Ainda, os participantes do estudo de Sanhuenza et al. (2022) associaram diferentes expressões da VNA a estereótipos de gênero, como a violência física à força física masculina e a violência verbal às maiores habilidades verbais de mulheres. Também foram identificadas associações entre a violência e estereótipos de masculinidade e machismo.

Entre os estudos que não encontraram resultados significativos, os autores sugerem aspectos a serem considerados. A pesquisa de Makin-Byrd e Azar (2011) identificou associações positivas e significativas entre sexismo e VNA, entretanto a variável não foi encontrada como preditora. Isso indica que, embora exista uma relação importante entre os fenômenos, apenas o sexismo não é suficiente para explicar a vitimização e a perpetração de VNA. Por sua vez, no estudo de Arnoud e colaboradores (2024), foi destacada a limitação dos instrumentos utilizados, que partem de uma compreensão cis-heteronormativa dos construtos e que foram majoritariamente utilizados e testados em amostras cisgênero de adolescentes. O estudo discute que, por se tratar de uma amostra que incluiu também adolescentes que se identificaram como não cisgêneros e como não heterossexuais, pode ser que as relações entre as variáveis ocorram de uma maneira diferente. Adolescentes que desafiam a cis-heteronorma estão, em alguma medida, em oposição aos papéis de gênero tradicionais e às concepções sexistas e legitimadoras de VNA.

Entre os estudos experimentais e quase experimentais, foram propostas as intervenções Relationship Smart Plus (Savasuk-Luxton et al., 2018), True Love (Sosa-Rubi et al., 2017), Liad@s App (Navarro-Pérez et al., 2020), PRO-Mueve Relaciones Sanas (Velasco et al., 2022) e Cyber-Dating Abuse Stop (Jaureguizar et al., 2024). Com exceção da pesquisa 18, que foi realizada em instituições de acolhimento, todas ocorreram em contextos escolares. As atividades tiveram como foco a conscientização sobre relacionamentos saudáveis, a promoção de habilidades socioemocionais, a mudança de atitudes, o desenvolvimento de pensamento crítico sobre gênero e relações afetivas, entre outros. A maioria apresentou redução significativa dos índices de sexismo (Jaureguizar et al., 2024; Navarro-Pérez et al., 2020; Sosa-Rubi et al., 2017; Velasco et al., 2022). O estudo de Savasuk-Luxton e colaboradores (2018), o qual não encontrou resultados significativos, indicou a ausência de avaliação sobre outras formas de violência além da física e de acompanhamento longitudinal após um período mais extenso como fatores que podem ter contribuído para este resultado. Todavia, ressalta-se como outro aspecto relevante a ausência de encontros que abordassem crenças sexistas e atitudes acerca de papéis estereotipados de gênero de forma explícita.

Mais aspectos em relação aos objetivos, às características metodológicas, aos principais resultados e à avaliação da qualidade dos artigos incluídos são apresentados na tabela 1.

Tabela 1

Características metodológicas e resultados dos estudos

Estudo Variáveis Amostra Desenho e objetivo Instrumentos Resultados principais Avaliação de qualidade
1. Dosil et al. (2019) VNA E SA 271 adolescentes em contexto de acolhimento institucional, 54.6 % meninos e 45.4 % meninas, com idades entre 12 e 17 anos (M = 15.23; DP = 1.60). Transversal quantitativo com o objetivo de avaliar a prevalência da vna e explorar relações entre vitimização e perpetração de violência, atitudes sexistas e variáveis clínicas. CADRI, ASI A perpetração de violência associou-se significativamente e positivamente com sh e sb (R² = 0.20. p <0.001) e a vitimização com o sh (R² = 0.17; p <0.001). MS
2. Dosil et al. (2020) VNA e SA 268 adolescentes estudantes de escolas no País Basco (Espanha), com idades entre 12 e 17 anos (M = 15.22; dp = 1.38). 47 % meninos e 53 % meninas. Transversal quantitativo com o objetivo de investigar fatores associados à VNA. CADRI, ASI Adolescentes que perpetraram violência apresentaram os escores mais altos em sh (total hostile sexism, U = 5559.00, z = 3.22, p <0.01, r = 0.20). O SB associou-se a um maior risco de perpetração de violência (or = 1.07; 95 % IC [1.01; 1.13]). S
3. Fernández- Antelo et al. (2020) VNA e sexismo 2577 adolescentes, 55.2 % meninas e 44.8 % meninos, com idades entre 14 e 18 anos (M = 15.9; DP = 1.2). Transversal quantitativo com o objetivo de investigar a relação entre atitudes sexistas, aceitação da violência e vitimização e identificar preditores da violência. Dating Violence Questionnaire (DVQ) e Scale of Detection of Sexism in Adolescents SB foi preditor de vitimização de abuso emocional (β = 0.327; p <0.01), abuso físico (β = 0.366; p <0.01) e violência de gênero β = 0.391; p <0.001). MS
4. Cava et al. (2020) VNA e SA 492 adolescentes, 53.5 % meninas e 46.5 % meninos, com idades entre 12 e 18 anos (M = 15.28; dp = 1.64). Transversal quantitativo, com o objetivo de investigar relações entre perpetração de vna virtual, atitudes sexistas, mitos do amor romântico e perpetração de vna off-line. Cyber-Violence Scale in Adolescent Couples. CADRI, ASI Em meninos (β ¼ 0.18; p ¼ 0.002) e meninas (β ¼ 0.24; p ¼ 0.001), o sh foi preditor de maior envolvimento em perpetração de cybercontrole no namoro. MS
5. Marcos et al. (2020) VNA e sexismo 246 adolescentes, 50.8 % meninas e 49.2 % meninos, com idades entre 14 e 17 anos (M = 15.39; DP = 0.949). Transversal quantitativo com o objetivo de compreender diferenças de gênero nas experiências de vitimização de vna, sexismo, mitos sobre o amor romântico e dependência emocional. DVQ-R, Escala de Sexismo e The Emotional Dependency Scale Meninos apresentaram escores mais altos de sh (d = -0.58), SA (d = d -0.58 -0.39) que meninas e crenças sexistas se relacionaram de maneira significativa com experiências de vitimização. S
6. Anacona et al. (2017) VNA e sexismo 815 adolescentes, 382 meninos e 433 meninas, com idades entre 14 e 18 anos (M = 15.77; DP = 1.21), sendo 400 colombianos, 213 espanhóis e 202 chilenos. Transversal quantitativo com o objetivo de investigar as associações entre VNA e sexismo ambivalente. Modified Conflicts Tactics Scale, Scale of Detection of Sexism in Adolescents Amostra espanhola: associações entre sb e agressões verbais/ psicológicas exercidas (Rho [190] = 0.169; p = 0.020), agressões físicas leves exercidas (Rho [195] = 0.210; p = 0.003) e agressões verbais/psicológicas perpetradas (Rho [188] = 0.165; p = 0.023). Chilena: associação entre sh e agressões físicas perpetradas (Rho [199] = 0.173; p <0.014). MS
7. Makin-Byrd e Azar (2011) VNA e SA 136 meninos que indicaram estar em um relacionamento no momento da coleta. Transversal quantitativo que visou investigar crenças relacionadas a vna, sexismo e papéis de gênero entre meninos. The Revised Conflict Tactics Scale, ASI Adolescentes meninos que perpetraram vna demonstraram maiores índices de sexismo (violência física, p <0.001; e violência psicológica, p <0.001). Entretanto, o SH não foi encontrado como preditor significativo para a perpetração de VNA. S
8. Ulloa et al. (2004) VNA e papéis de gênero 678 adolescentes latinos, 55 % meninas e 45 % meninos, com uma média de idade de 14.46 anos (dp = 1.13). Transversal quantitativo com o objetivo de investigar relações entre gênero, aculturação, crenças sobre papéis de e atitudes e conhecimentos sobre VNA. Itens desenvolvidos pelos autores para avaliar conhecimentos relacionados à vna, Acceptance of Dating Violence Scale, Perceived Negative Sanctions for Using Dating Violence Scale e itens para avaliar o endosso de estereótipos de gênero Crenças menos estereotipadas e mais igualitárias em relação aos papéis de gênero foram preditoras para atitudes de reprovação à retaliação (β = 0.15; p <0.05), normas não violentas no namoro (β 0.20; p <0.05) e sanções negativas para a violência no namoro (β = 0.19; p <0.05). S
9. Ulloa et al. (2008) VNA e papéis de gênero 436 adolescentes latinos, 50.7 % meninos e 49.3 % meninas, com idade média de 14.6 anos (DP = 1.1). Transversal quantitativo com o objetivo de avaliar aculturação, papéis de gênero e VNA. Acceptance of Dating Violence Scale, Women’s Experience with Battering (web) Scale e itens para avaliar papéis de gênero Meninos apresentaram maior aceitação de vna e meninas reportaram menos crenças em papéis de gênero estereotipados. O gênero foi preditor de atitudes de VNA (ΔR2 = 0.022 [p <0.01]). MS
10. Sola e Ayala (2022) VNA e sexismo 1036 adolescentes entre 14 e 16 anos, sendo 51.9 % meninas. Transversal quantitativo com o objetivo de investigar a influência do gênero, da religião e do sexismo na VNA. Escala de Violência Psicológica, Escala de Violência Física, Escala sobre Violência na Comunicação e Relações, Questionário de Condutas sexistas Meninos apresentaram maior concordância com crenças sexistas e atitudes legitimadoras de violência (p = 0.004; OR = 2.173). S
11. Ayala et al. (2021) VNA e sexismo 1555 adolescentes, com idade média de 14.3 anos (DP = 1.5), sendo 59.3 % meninas. Transversal quantitativo que visou identificar fatores associados ao sexismo em adolescentes. ASI e itens para investigar exposição à VNA Histórico de vna se associou a maiores índices de SH em meninas (β = 0.080; p = 0.010). MS
12. Vives-Cases et al. (2021) VNA e sexismo 1008 adolescentes, com idade média de 14.3 anos (DP = 1.5), sendo 56.1 % meninas. Transversal quantitativo com o objetivo de investigar prevalência e fatores associados à vna na Europa. Perguntas sobre experiências de vitimização nos relacionamentos, Sexism Inventory, Maudsley Violence Questionnaire Prevalência de vitimização foi mais alta entre meninas em comparação a meninos (34.1 % vs. 26.7 %), sendo que adolescentes com maior concordância com SH e machismo reportaram mais violência. MS
13. Dosil et al. (2022) VNA e sexismo 271 adolescentes em contexto de acolhimento institucional, com idade média de 15.23 anos (dp = 1.60), sendo a maioria, 54.6 %, meninos. Transversal quantitativo com o objetivo de investigar variáveis preditoras da vna, sendo o sexismo uma dessas variáveis. CADRI, Sexism Inventory Atitudes sexistas aumentaram a chance de perpetração (OR = 1.21; 95 % IC [1.04; 1.41]) e de vitimização (OR = 1.21; 95 % IC [1.07; 1.38]) de VNA. S
14. Arbinaga et al. (2021) VNA e sexismo 234 adolescentes espanhóis, com idade média de 16.7 anos (DP = 1.11), sendo a maior parte, 69.7 %, meninas. Transversal quantitativo que visou investigar relações entre vna, ciúmes e SA. Partner’s Emotional Dependency Scale, ASI, Love Addiction Scale, CADRI Sexismo e ciúmes foram preditivos de dependência emocional, mas ciúmes foi mais forte no modelo testado (R² = 0.297). S
15. Nardi-Rodríguez et al. (2022) VNA e sexismo 587 adolescentes, com idade média de 16 anos, sendo 59.3 % meninas. Longitudinal quantitativo com o objetivo de investigar preditores de VNA. Predicting and Changing Behavior items and Recio Sexism Scale Sexismo foi preditor de intenção de comportamentos de desvalorização das parceiras nos meninos (B = 0.14 [0.04; 0.24]). S
16. Savasuk- Luxton et al. (2018) VNA e papéis de gênero 2167 adolescentes estadunidenses, sendo 58 % meninas e 42 % meninos, com idade média 15.66 (DP = 1.13), 58 % negros e 42 % brancos. Quase experimental, quantitativo com objetivo de avaliar uma intervenção de educação para relacionamentos com adolescentes. Três itens para avaliar crenças sobre papéis de gênero (escala Likert de 0 a 7) e dois itens para avaliar aceitação da VNA (escala Likert de 0 a 5) Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos controle e intervenção nas crenças relacionadas a papéis de gênero no pré-teste F (1, 2123) = 0.35; p = 0.55, e no pós-teste F (1, 2086) = 0.10; p = 0.75. S
17. Sosa- Rubi et al. (2017) VNA, sexismo e papéis de gênero 885 alunos de ensino médio de escolas de baixo status socioeconômico, 56 % meninos e 44 % meninas, com idade média 16.40. Quase experimental, quantitativo, visando à avaliação da intervenção “amor, pero del bueno…” com adolescentes. CADRI, Cuestionario de Actitudes hacia el Género y la Violencia, inventário para medir atitudes sobre papéis de gênero nos relacionamentos e sexismo Meninos apresentaram maior aceitação e justificação de violência e de atitudes sexistas que meninas no pré-teste. Após a intervenção, houve redução significativa nas médias de aceitação de atitudes sexistas no namoro (10 %; p <0.01) no grupo intervenção. MS
18. Navarro- Pérez et al. (2020) VNA e SA 71 adolescentes, 57.4 % meninos e 42.6 meninas, com idades entre 11 e 18 anos (M = 14.94; DP = 1.39). Quase experimental, quantitativo, com objetivo de avaliar a intervenção “Liad@s”, que visa reduzir sexismo e conscientizar sobre VNA. ASI, Ambivalence toward Men Inventory (AMI), Myths, Fallacies and Erroneous Beliefs about the Ideal of Romantic Love Houve redução no SH após a intervenção F(1.69) = 7.24; p = 0.009; η2 = 0.095; IC 90 % (over η2 = 0.014 para 0.212) e, no SB, F(1.69) = 21.762; p <0.001; η2 = 0.24, IC 90 % (over η2 = 0.015 para 0.367). MS
19. Velasco et al. (2022) VNA e SA 243 adolescentes de Madrid, sendo 54.7 % meninas, com idade média de 12.11 anos (DP = 0.57). Quase experimental, quantitativo, visando avaliação da intervenção “PROMueve Relaciones Sanas” que visa prevenir violência de gênero e VNA. Gender-Based Violence Questionnaire e asi Grupo experimental apresentou diferenças nos índices de sh F(1,239) = 8.700; p = 0.003; η2 = 0.035; e benevolente F(1,239) = 14.476; p <0.001; η2 = 0.057 em comparação ao grupo controle. S
20. Romero et al. (2010) VNA e SA 98 alunos escolares, 52 % meninos e 48 % meninas, com idade média de 15 anos (DP = 1). Experimental, quantitativo, com o objetivo de investigar associações entre sexismo e reações ante a VNA. ASI, vinhetas e duas escalas relacionadas à resposta de assistência imediata e resposta de assistência subsequente SH aumentou reações negativas após testemunho de VNA dos participantes F(1,96) = 6.8; p <0.01. SA influenciou respostas de apoio à vítima (reações de evitação) F(1,96) = 5.1; p <0.05. PS
21. Morelli et al. (2024) VNA e SA 421 adolescentes italianos, 67.3 % da amostra meninas, média de idade 16.53 (DP = 1.29) Transversal e quantitativo, com objetivo de investigar o papel moderador do SA na relação entre uso problemático de pornografia e perpetração de VNA cibernética. Cyber Dating Violence Inventory (CDVI) e ASI O uso problemático de pornografia estava relacionado à perpetração de VNA cibernética, e o SH atuou como moderador, mas somente quando os níveis eram altos (B = 0.19; se = 0.04; β = 0.03; p <0.001) ou moderados (B = 0.12; SE = 0.03; β = 0.02; p <0.001). MS
22. Madrona-Bonastre et al. (2023) VNA e SA 1421 adolescentes, sendo que 48.4 % eram meninas e a média de idade foi de 13,7 anos (DP = 0.7). Transversal quantitativo, com o objetivo de analisar circunstâncias sociais (individuais e contextuais) associadas ao sexismo e à VNA. ASI, três perguntas para avaliar VNA Dos 636 adolescentes que estavam ou tiveram uma relação amorosa, 74 (11.6 %) relataram já ter perpetrado vna. O SH foi positivamente associado à vna. Níveis mais altos de sa foram relacionados à adolescentes migrantes (meninas e meninos: p <0.01) ou filho de migrantes (meninas: p <0.01; meninos: p <0.05). MS
23. Arnoud et al. (2024) VNA, papéis de gênero e SA 350 adolescentes brasileiros, idades entre 16 e 19 anos. 68.8 % (n = 242) mulher cis e 43.7 % bissexual (n = 153). Transversal quantitativo com objetivo de explorar como categorias sociais, tipo de escola, atitudes em relação ao gênero e a violência, e sa se relacionam com sofrer VNA e possíveis preditores. Questionário sobre violência no namoro baseado no Dating Violence Questionnaire-R, Attitudes Towards Gender and Violence (QAGV), ASI SA e atitudes mais estereotipadas em relação aos papéis de gênero apresentaram associações significativas entre si, mas não apresentaram relação significativa com a experiência de sofrer VNA. As predições dentro da amostra para o modelo de análise em redes foram moderadas a altas para as atitudes em relação aos papéis de gênero e à violência (R² = 0.59), ao SB (R² = 0.43) e ao SH (R² = 0.61). MS
24. Marcos et al. (2023) VNA e SA 467 adolescentes espanhóis, com idade média 15.4 (DP = 1.06), maioria gênero feminino (56.1 %). Transversal e quantitativo, com o objetivo de estimar a prevalência de vitimização no namoro e efeito dessa experiência nas crenças sexistas e nas estratégias de resolução de conflitos. Dating Violence Questionnaire (DVQ-R) e ASI Foram identificadas médias maiores de SB nos adolescentes que sofreram VNA do que nos que não sofreram. Vítimas mais jovens apresentaram, em média, 11.9 % mais crenças de SB. S
25. Valdivia-Salas et al. (2023) VNA e sexismo Incluídos 1079 adolescentes que reportaram ao menos uma relação íntima no último ano. Idade média 14.1 (DP = 1.35). Transversal e quantitativo, com o objetivo de explorar se variáveis demográficas e interpessoais prediziam perpetração e vitimização no namoro. CADRI, Adolescence Sexism Detection Scale, Agression Scale Participantes do cluster com maiores índices de envolvimento em situações de vna apresentaram índices mais elevados de SB. MS
26. Sanhuenza et al. (2022) VNA, papéis de gênero e sexismo 142 adolescentes, sendo 56.3 % meninas, participaram da coleta por associação livre e 48 adolescentes, sendo 54.1 % meninas, participaram da coleta por grupos focais. Exploratório e qualitativo com objetivo de 1) escrever os conteúdos presentes nas representações sociais da VNA de jovens chilenos; e 2) identificar, quando aplicável, as diferenças e as similaridades de acordo com gênero e status socioeconômico. Coletas de dados por associação livre, na qual os participantes tinham que escrever as cinco palavras que lhe vinham à mente após ler a expressão “violência no namoro” e um guia de entrevista com base nessas respostas foi elaborado para os grupos focais Adolescentes associaram a violência verbal às meninas e a violência física aos meninos, explicando essas diferenças a partir de papéis estereotipados de gênero que atribuem delicadeza e habilidades verbais às mulheres e força física aos homens. Reconheceram que ambos os gêneros podem perpetrar violência, mas atribuíram importância central à força física na definição de violência. Além disso, associaram a violência ao estereótipo de masculinidade tradicional e ao machismo, apresentando elementos de SB ao reforçarem uma visão fragilizada das mulheres nas relações íntimas. MS
27. Lee (2024) VNA e SE Amostra nacionalmente representativa de alunos estudantes de ensino médio nos Estados Unidos, mas não especifica características sociodemográficas. Quantitativo transversal, com o objetivo de investigar associação entre se em nível estadual e a vitimização por violência sexual, violência sexual no namoro e violência física no namoro. Índice de SE, criado a partir de nove itens e dados de vitimização extraídos do Youth Risk Behavior Surveillance System Em estados com níveis mais altos de se, adolescentes do sexo feminino relataram maior probabilidade de sofrer violência sexual (β = 0.013; p <0.001), violência sexual no namoro (β = 0.006; p <0.001) e violência física no namoro (β = 0.006; p <0.001) em comparação aos do sexo masculino. MS
28. Villanueva-Blasco et al. (2024) VNA e sexismo 862 adolescentes espanhóis, 50.2 % gênero feminino, idade média 14.1 (dp = 1.35). Transversal quantitativo, com objetivo de determinar disparidades de gênero e VNA, analisar variações por gênero nos níveis de sexismo, empatia e assertividade e investigar preditores de sexismo nas situações de VNA. CADRI, The Adolescent Sexism Detection Scale Meninos apresentaram maiores níveis de sh (t862 = 6.16; p <0.001) e sb (t862 = 2.60; p <0.001). O sh associou-se a perpetração (r = 0.256; p >0.001) e vitimização (r = 0.180; p >0.001) em meninos e em meninas (r = 0.172; p >0.001; r = 0.113; p >0.05). O sb associou-se à perpetração (r = 0.206; p >0.001) e à vitimização (r = 0.164; p >0.001) em meninos e meninas (r = 0.184; p >0.001; r = 0.165; p >0.001). A relação entre sexismo e perpetração de violência foi mediada por sofrimento pessoal no modelo preditivo. MS
29. Arrojo et al. (2024) VNA e sexismo Duas amostras a partir da amostragem estratificada em dois estágios por conglomerado. Amostra 1 com 758 adolescentes, com idade média 15.3 (DP = 1.52). Amostra 2 com 160 adolescentes, com idade média 15.27 (DP = 1.52). Transversal e quantitativo, com o objetivo de validar um instrumento desenvolvido para acessar atitudes de culpabilização de vítimas em casos de VNA. The Adolescent Dating Violence Victim-Blaming Attitudes Scale (ADV-VBA), ASI, CADRI Foram encontradas correlações positivas entre SH (r = 0.55; p <0.001) e SB (r = 0.46; p <0.001) e índices de culpabilização da vítima em situações de VNA. MS
30.Cuadrado-Gordillo et al. (2023) VNA, papéis de gênero e sexismo 2577 adolescentes, com idades entre 14 e 19 anos, sendo 44.8 % meninos. Transversal e quantitativo, com o objetivo de investigar o perfil de vitimização de meninos adolescentes que estão em relacionamentos violentos, identificar potenciais fatores de risco e comparar o perfil encontrado em meninos vítimas de violência com o de meninas vítimas de violência com a mesma idade. Dating Violence Questionnaire (Cuvino), Scale of Detection of Sexism in Adolescents (DSA) Foram encontradas associações positivas entre o sexo das vítimas de violência e sh (χ² = 0.37; p <0.001) e concordância com papéis de gênero tradicionais, especificamente atitudes em relação ao desempenho de papéis e funções (χ² = 0.36; p <0.001). Ainda, SH foi preditor positivo significativo da percepção da violência sofrida para meninos (β variando de 0.148 a 0.205; p <0.001), enquanto SB apareceu para adolescendes independente do sexo. S
31. Jaureguizar et al. (2024) VNA e sexismo 409 adolescentes de 12 a 17 anos, sendo 54.1 % meninos, 45 % meninas e 1 % não binário. Longitudinal, quase experimental. Apesar de o objetivo não estar explícito no artigo, o estudo avaliou a efetividade de um programa de prevenção à VNA cibernética. Intimate Partner Violence in Social Media in Adolescents, Ambivalent Sexism Inventory for Adolescentes (ASI- Adolescents) Foi observada uma redução significativa nos níveis de sh e sb no grupo experimental quando comparado os dados de pré e pós-teste. Não foram observadas diferenças no grupo controle, com exceção dos níveis de sb e diferenciação de gênero, ainda que o tamanho de efeito no grupo experimental (η2 = 0.13) tenha sido mais significativo em comparação ao grupo controle (η2 = 0.03). S

[i]Nota: MS = muito satisfatória; S = satisfatória; PS = pouco satisfatória; NS = nada satisfatória.

A fim de construir uma análise crítica não apenas dos aspectos metodológicos e dos resultados, mas também de como eles têm sido compreendidos e discutidos na literatura sobre VNA, sexismo e papéis de gênero, foram realizadas análises temáticas da seção de discussão dos artigos incluídos. Foram encontrados seis temas (tabela 2): 1) contexto socioeconómico e cultural, que diz respeito a discussões mais amplas acerca do sexismo, papéis de gênero e VNA, as quais entendem que essas variáveis são perpassadas por outros aspectos do contexto socioeconómico e cultural; 2) sexualidade, raça e outras dimensões da identidade, que inclui trechos das seções de discussão que consideram outras dimensões da identidade para além de uma leitura binária de gênero e suas potenciais interseccionalidades; 3) aceitação e legitimação da VNA, tema no qual se encontram as discussões que visaram entender e explicar teoricamente os dados relacionados às crenças dos adolescentes ante a violência; 4) percurso desenvolvimental, que diz respeito às mudanças na maneira na qual as variáveis associadas à violência, aos papéis de gênero e ao sexismo se apresentam de acordo com a idade dos adolescentes; 5) mitos do amor romântico, que discute essa noção do amor idealizado enquanto reprodutora de papéis estereotipados de gênero e crenças sexistas que legitimam a violência; e, por fim, 6) estruturação de estratégias preventivas quanto à preocupação presente na maior parte dos artigos em produzir dados científicos que sirvam de subsídios para a criação de programas de prevenção à VNA.

Tabela 2

Análise temática das discussões dos resultados

Tema Frequência Exemplo
1. Contexto socioeconômico e cultural 17 “Adolescentes com renda familiar abaixo do salário-mínimo tinham quase 3 vezes mais chances de ter vivenciado violência no namoro. Desigualdades, pobreza e exclusão social estão profundamente ligadas à violência interpessoal, e o baixo status socioeconômico atua como um importante fator de risco para situações de violência em geral. [...] O que se pode apontar é que condições precárias e a dificuldade de acesso a políticas e serviços de saúde e educação interferem profundamente no processo de socialização, o que gera maior vulnerabilidade para a vivência da violência” (Arnoud et al., 2024, p. 8).
2. Sexualidade, raça e outras dimensões da identidade 10 “Ainda, por mais que diversos estudos tenham considerado a influência de variáveis demográficas nos resultados dos programas, poucos examinaram a interseção dessas variáveis (como gênero, raça e status socioeconômico) e a sua influência nos desfechos dos programas” (Dosil et al., 2020, p. 8).
3. Aceitação e legitimação de VNA 12 “Para resumir, sexismo (seja ele hostil e benevolente) possui um impacto na justificação da violência. Esse impacto é diferente de acordo com o gênero. Assim, as dimensões que afetam a justificação da violência são diferentes para meninas e meninos” (Sola & Ayala, 2022, p. 11).
4. Percurso desenvolvimental 10 “Entretanto, é essencial notar a importância de levar em consideração não apenas sexo, mas também idade e essas duas variáveis em conjunto ao analisar os resultados, visto que eles demonstram claramente [...] que, quanto maior a idade, maiores os índices de violência no namoro (perpetração e vitimização) e que, no caso específico da vitimização, nas meninas, essa tendência é mais evidente. Isso pode ocorrer devido a mudanças que se dão nos relacionamentos íntimos, compreendendo-se que nos períodos mais anteriores da adolescência, como dos 12 aos 14 anos, geralmente não existem tantos relacionamentos duradouros, mas nos adolescentes mais velhos, entre 15 e 17 anos, os relacionamentos tendem a ser mais longos” (Dosil et al., 2019, p. 8).
5. Mitos do amor romântico 5 “Há uma diferença fundamental entre meninas e meninos adolescentes que sofrem vitimização em um relacionamento. Enquanto as meninas normalizam a violência perpetrada por seus parceiros como resultado de fatores como a idealização do amor ou a presença de um sexismo benevolente latente, elas continuam conscientes da gravidade dos abusos, mesmo quando os normalizam” (Cuadrado-Gordillo et al., 2023, p. 9).
6. Estruturação de estratégias preventivas 15 “Assim, a vna deve ser compreendida como um fenômeno distinto, com características particulares e correlações desenvolvimentais específicas. Esses aspectos devem ser levados em consideração ao planejar, desenvolver e implementar programas de prevenção que abordem amplamente a violência na adolescência, e especificamente a violência entre parceiros íntimos” (Marcos et al., 2023, p. 4).

Discussão

A VNA entre adolescentes é um problema de saúde pública atravessado por uma série de aspectos individuais, relacionais e socioculturais (Ribeiro et al., 2024). Compreender em profundidade os fatores que influenciam a manutenção dessa violência é essencial para estruturar ações efetivas de enfrentamento e prevenção ao fenômeno. Tendo isso em vista, o objetivo deste artigo foi entender como a VNA se relaciona com o sexismo e/ou com as crenças relacionadas a papéis de gênero e se esses aspectos são considerados relevantes para o fenômeno da VNA.

A partir da presente revisão de literatura, percebe-se que houve um aumento nas produções empíricas que incluem sexismo e papéis tradicionais de gênero como variáveis importantes para entender a dinâmica da VNA nos últimos cinco anos. Entretanto, destaca-se que a maior parte dos estudos foi produzido na Espanha e nos Estados Unidos e que apenas três estudos foram oriundos da América Latina. A produção de conhecimento está inserida em relações de poder que se organizam a partir da lógica centro (países do Norte global) e periferia (países do Sul global). Essas relações refletem séculos de subordinação económica e política no processo de produção de conhecimento e evidências científicas. As evidências produzidas no e sobre o Norte global são frequentemente consideradas "universais", enquanto aquelas oriundas do Sul global, ou produzidas sobre ele, são vistas como válidas apenas para contextos específicos (Torres & Gutierrez, 2022). Esse resultado reflete uma dinâmica recorrente na pesquisa, em que as evidências são majoritariamente produzidas com países e amostras do Norte, prejudicando a construção de uma ciência abrangente, contextualizada e capaz de atuar na transformação dos sistemas de opressões sociais. Assim, apesar do aumento das produções, ainda há uma lacuna importante no que se refere à realidade de adolescentes de países do Sul global e suas experiências de VNA.

Quanto aos resultados, encontrou-se que o sexismo se associou significativamente com VNA, sendo que SH parece ter sido a dimensão de SA com maior relação com a perpetração e vitimização de violência, semelhante ao identificado em estudos sobre violência contra mulheres (Agadullina et al., 2022). O SH é constituído por crenças e atitudes mais explicitamente negativas sobre meninas e mulheres e é especialmente direcionado àquelas pessoas que desafiam os papéis tradicionais de gênero (Connor et al., 2017). Ademais, o sexismo, especialmente o hostil, atua na perpetuação e legitimação da desigualdade de gênero, que tem a violência nas relações íntimas como uma de suas expressões mais extremas (Bonilla-Algovia, 2021; Marqués & Mestre, 2019). Dessa forma, compreende-se que a associação da VNA com manifestações de SH se trata de uma expressão relacional de um problema estrutural, que coloca meninas e mulheres em risco. Discursos de ódio contra meninas e mulheres são disseminados sistematicamente em redes sociais e outros contextos, contribuindo para o agravamento da violência. Conteúdos misóginos e sexistas são consumidos por meninos adolescentes sem qualquer monitoramento das empresas que operam tais redes (Lima-Santos & Santos, 2022). Além disso, discursos antifeministas têm sido direcionados às meninas, por meio de influenciadoras que reforçam papéis tradicionais de submissão e obediência (Bauer, 2023). Tal cenário contemporâneo fortalece o SE, o que representa retrocessos significativos na promoção de igualdade de gênero.

No que diz respeito às crenças sobre papéis de gênero, os resultados variaram. Entretanto, nos estudos que encontraram relações significativas, crenças mais igualitárias em relação aos papéis de gênero foram preditoras para normas não violentas no namoro (Ulloa et al., 2004). Ainda, no único artigo qualitativo da amostra, pode-se notar a associação entre papéis estereotipados de gênero, sexismo e concepções em relação a VNA. Os adolescentes associaram a VNA ao estereótipo de masculinidade tradicional e ao machismo, mas também reproduziram sexismo benevolente em suas falas, reforçando uma visão mais fragilizada de meninas e mulheres. Há um avanço neocon-servador global que articula políticas antigênero, visando à manutenção dos papéis tradicionais e das relações de poder desiguais (Biroli, 2020). Assim, é importante tensionar ativamente noções estereotipadas de gênero na adolescência que se ancoram em ideologias de subordinação de meninas, mulheres e pessoas de gêneros dissidentes, de modo a promover relações mais equânimes e seguras.

Além disso, a maior parte dos artigos investigou SA, de modo que os papéis de gênero e o sexismo estrutural foram variáveis menos investigadas. Nesse sentido, é importante destacar que os papéis tradicionais de gênero representam uma manifestação mesossocial do sexismo estrutural (Homan, 2024). O gênero, enquanto sistema institucionalizado de práticas sociais, pressupõe a existência de duas categorias diferentes e assimétricas -homens e mulheres- e organiza relações sociais de desigualdade com base nessa diferença. Assim, ressalta-se a importância de investigar variáveis como papéis de gênero e sexismo para além de uma expressão individual, mas também compreenden-do-as como estruturantes de um sistema de organização social baseado em opressões que produz violências. De fato, o único estudo que investigou sexismo estrutural (Lee, 2024) encontrou que este se associou a maiores índices de vitimização entre meninas adolescentes.

Quanto à análise qualitativa das seções de discussão dos artigos, buscou-se compreender quais os principais temas trazidos para interpretar os resultados encontrados nos estudos. De modo geral, percebe-se que a maior parte dos artigos compreende sexismo, papéis de gênero e VNA como fenômenos culturais e associados ao contexto socioeconómico (tema 1). Isso corrobora a compreensão de que o sexismo é um produto das relações assimétricas de poder entre homens cis ante outras expressões de gênero (Bareket & Fiske, 2023). Além disso, percebe-se que há uma tendência a interpretar as associações a partir da lógica de que o sexismo e a aderência aos papéis tradicionais e estereotipados de gênero reforçam e legitimam VNA, de modo que contribuem para uma normalização e maior aceitação do fenômeno entre adolescentes (tema 3).

Menos frequente, mas também articulado em algumas discussões como fenómeno que explica associações entre sexismo, papéis de gênero e VNA, foi o mito do amor romântico (tema 5). O mito do amor romântico se refere a crenças que compreendem o amor como algo que justifica o sofrimento, bem como compreendem o ciúme como demonstração de afeto e cuidado. Tais mitos podem contribuir para a ideia de que comportamentos violentos, controladores e ciumentos são sinais de amor e são esperados em uma relação íntima (Cava et al., 2020). A ideia de percurso desenvolvimental -ou seja, a compreensão de que as expressões do sexismo e dos papéis de gênero se transformam ao longo do tempo e se manifestam de maneiras específicas na adolescência- foi recorrente nas discussões (tema 4). A partir dessa perspectiva, entende-se que a forma como a VNA se apresenta também está relacionada a essas mudanças desen-volvimentais (Sola & Ayala, 2022). Nesse sentido, as crenças e expectativas sobre relacionamentos íntimos desenvolvidas ao decorrer da adolescência devem ser consideradas e trabalhadas em ações de prevenção à violência no namoro, uma vez que tais aspectos podem favorecer a naturalização de atitudes violentas.

O tema 2, "Sexualidade, raça e outras dimensões da identidade", denuncia algumas limitações no que diz respeito aos estudos sobre VNA incluídos. Por exemplo, quase todos os estudos analisados se basearam em uma compreensão binária de gênero, apresentando apenas duas opções de expressão de gênero e desconsiderando identidades trans. Ainda, alguns estudos fizeram menção à orientação sexual e a identidades não heterossexuais em suas discussões, mas não incluíram essas variáveis nas análises ou na descrição amostral.

Adolescentes LGBTQIA+ apresentam risco elevado de sofrer VNA, além de enfrentarem estigmatização social e exclusão comunitária (Arnoud et al., 2024; CDC, 2024; Edwards et al., 2015). Entretanto, a partir do que foi evidenciado na presente revisão de literatura, parecem também ser alvo de um apagamento epistêmico, que se reflete na sua desconsideração e invisibilização nos estudos sobre VNA. Diante disso, recomenda-se que novos estudos sobre a temática avancem para além da inclusão de identidade de gênero e orientação sexual como variáveis sociodemográficas, de modo a examiná-las sob uma perspectiva interseccional. Essa lente permite contemplar as estruturas sociais que incidem sobre as vivências de adolescentes, contribuindo não apenas para uma compreensão mais abrangente da violência no namoro, mas também para subsidiar práticas e estratégias de prevenção e enfrentamento mais sensíveis a essas realidades.

Ainda, entre os estudos analisados, apenas três artigos apresentaram características raciais dos participantes, dos quais apenas dois levaram esse aspecto em consideração nas análises de dados. Ambos, sexismo e racismo, partem de supostas diferenças biológicas para se estabelecerem como ideologias de dominação. Logo, "esquecer" discutir a relação entre essas variáveis consiste em praticar racismo por omissão e em produzir uma ciência neocolonialista (Gonzalez, 2020). Além disso, foi possível observar a manutenção de estereótipos étnico-raciais, como no estudo de Ulloa e colaboradores (2004). O artigo partiu da hipótese de que participantes latinos e mais orientados à cultura hispânica apresentariam atitudes mais problemáticas relacionadas à violência, com base em um único estudo publicado em 1999. Uma análise mais complexa possibilita a compreensão de que latinos e populações étnico-raciais, de modo geral, não são naturalmente mais predispostos à violência, aos estereótipos tradicionais de gênero e ao sexismo (Rosenthal et al., 2020).

Ante as análises qualitativas realizadas, evidenciase a relevância de considerar os múltiplos fatores socioculturais e econômicos que contribuem para as diferenças encontradas (Manriquez & Mankowski, 2025). Nesse sentido, destaca-se a necessidade de compreender o sexismo e os papéis de gênero como construções socioculturais, articuladas a outras dimensões da identidade dos adolescentes, aos processos desenvolvimentais, bem como a normas e crenças que podem legitimar a violência. Faz-se, portanto, necessário confrontar análises simplistas que reduzem o fenómeno a explicações individuais ou superficiais, de modo a evitar a reprodução de estereótipos nocivos e subsidiar práticas e intervenções que reconheçam a complexidade do fenómeno da VNA.

Apesar dessas limitações, é importante destacar que a maior parte dos artigos incluiu na sessão de discussão a importância da estruturação de estratégias preventivas (tema 6). A prevenção é crucial para promover equidade de gênero e proteger adolescentes (United Nations General Assembly, Resolution 70/1, 2015). É possível perceber uma clara implicação dos pesquisadores em não só analisar a dinâmica e os fatores associados à violência, mas também em transformar a realidade material e simbólica que se apresenta. Isso se manifesta a partir da compreensão de que os resultados encontrados devem servir de subsídio para construir e qualificar intervenções preventivas baseadas em evidências. A ciência pode contribuir ativamente para o enfrentamento de VNA. Apesar disso, para que seja possível construir um corpo mais robusto de evidências, é preciso investir numa maior diversidade metodológica, bem como estimular estudos em contextos sociais diversos que não se restrinjam às populações dos países de alta renda e do Norte global.

Considerações finais

A partir desta revisão sistemática da literatura, identificou-se como sexismo, papéis de gênero e VNA se relacionam. Como limitações do estudo, aponta-se a dificuldade em operacionalizar as buscas nas bases de dados, visto que não há consenso no que diz respeito à nomeação das variáveis (exemplo: crenças sobre papéis de gênero e estereótipos de gênero; violência no namoro; violência por parceiro íntimo entre adolescentes; e violência de gênero na adolescência). Também se aponta que os estudos incluídos fizeram uso de diferentes metodologias de análise dos dados, o que dificulta a comparação dos resultados quantitativos encontrados.

Ainda assim, o presente estudo pode auxiliar na compreensão do fenômeno da VNA a partir de uma perspectiva mais ampla e crítica, bem como apontar lacunas ainda existentes a serem exploradas nos próximos estudos. De modo geral, percebe-se uma carência de estudos do Sul global com metodologias diversas -quantitativas, qualitativas e/ou mistas- nessa temática. Os estudos de países do Sul global futuros podem contribuir para um entendimento da VNA mais contextualizado à realidade socioeconômica e cultural dos países historicamente explorados. Ademais, diante das graves consequências da violência, reforça-se a importância de investir em novas pesquisas que avaliem intervenções preventivas. A ciência, por meio de mecanismos voltados à popularização do conhecimento produzido, deve assumir o compromisso ético de contribuir para a transformação da realidade, promovendo ativamente a justiça e a igualdade social. Destaca-se que os espaços de convivência comunitária destinados a crianças e adolescentes, bem como o contexto escolar, configuram-se como ambientes preferenciais para o desenvolvimento de intervenções psicossociais focadas na promoção da igualdade de gênero e na prevenção da violência. As intervenções que tenham como objetivo flexibilizar crenças estereotipadas de gênero, desconstruir lógicas de opressão, como o sexismo, e promover estratégias de cuidado -individuais e coletivas- para crianças e adolescentes podem efetivamente contribuir para o enfrentamento da violência no namoro.

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[2] bolsa de mestrado concedida por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior à Thaís de Castro Jury Arnoud. Não há conflito de interesses.

[3] Arnoud, T. C. J., Linhares, I. Z., Rangel, R. G., & Habigzang, L. F. (2025). Violência no namoro, sexismo e papéis de gênero: uma revisão sistemática. Avances en Psicología Latinoamericana, 43(2), 1-26. https://doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.12066